Loveless: Sem Amor, em análise

O desaparecimento de um miúdo, filho de um casal em processo de divórcio é o ponto de partida de “Loveles: Sem Amor”, o novo filme do realizador de “Leviathan”, que aproveita as buscas, para fazer um retrato cruel da cultura e da sociedade russa da actualidade.

Inspirado de certa forma em “As Cenas de um Casamento”, de Ingmar Bergman, o filme russo “Loveless: Sem Amor”, de Andrey Zviagintsev — o realizador de “Leviathan”, filme nomeado para os Óscares 2014 como Melhor Filme em Língua Estrangeira, aliás como este agora em 2018) —  é um excelente drama familiar à volta do desaparecimento de um rapazinho de 12 anos, que reage ao violento divórcio dos pais. Como o seu título e os seus primeiros planos parecem indicar “Loveless: Sem Amor” é a história de uma criança não desejada, naquele momento, que no meio do divórcio violento desaparece de casa. No entanto, como em quase todos os filmes do realizador Andrey Zviagintsev , tenta ter outros significados mais densos e profundos, para criticar um país, e uma cultura onde o amor parece quase inexistente e ser o último dos sentimentos dos seus habitantes. Neste sentido, “Loveless: Sem Amor” é um excelente filme, frio e direto como o inverno de Moscovo. Desta vez tornou-se um pretexto para o cineasta russo de 53 anos, explorar os meandros de uma família em desagregação, utilizando-a como microcosmos, para retratar a falência moral e a burocracia da sociedade russa em rápida mutação, na actualidade.

Loveless: Sem Amor
A história de uma criança rejeitada, que não entende muito bem que se está a passar, entre os pais.

O filme conta a história do casal Boris (Alexey Rozin) e Zhenya (Maryana Spivak) que estão em pleno processo de divórcio e colocam o seu apartamento à venda. Os seus destinos parecem já decididos: Boris vive com uma mulher mais nova que entretanto está grávida; enquanto Zhenya tem um amante rico,— que tem a filha a estudar em Portugal — e com quem está disposta a casar. Nenhum dos dois parece importar-se muito com Aliocha (Matvey Novikov), o filho de 12 anos de ambos, que entretanto desaparece sem deixar rasto. O filme desenvolve-se no conflito entre o casal, os seus novos relacionamentos e o processo de buscas da criança desaparecida. Numa das cenas Anton (Andris Keish), o amante de Zhenya, fala por Skype com a filha para uma esplanada em Lisboa, com a Ponte 25 de Abril e várias conversas em português em fundo. A rapariga diz ao pai que é sempre verão em Lisboa comparado com o clima de Moscovo e diz um obrigada sem sotaque ao empregado. Em relação a Portugal, podia-se igualmente ligar ao caso do desaparecimento de Maddie e o filme de Zviagintsev, segue em parte esse caminho de uma investigação de início mal conduzida e depois no desenvolvimento do próprio drama.

VÊ TRAILER DE “LOVELESS”

De facto e em primeiro lugar Andrey Zviagintsev, com base nas investigações e nas buscas para encontrar a criança, aproveita para fazer um duro retrato do individualismo, da cultura do dinheiro da ‘desalmada ocidentalização’ da Rússia de hoje, da importância das redes socias — o Skype e Facebook por exemplo são recorrentes no filme — do luxo das novas tecnologias, como o iPhone ou os ‘smart phones’. E por outro lado, o realizador procura literalmente retratar um belo quadro de paisagens exteriores da neve, nas zonas onde procuram o miúdo.

Há pistas para a investigação, mas são poucas e contraditórias. Os vizinhos ajudam, mas as autoridades não chegam a grandes conclusões, até porque se reconhece alguma incompetência burocrática das autoridades policiais, logo no início. Há corpos encontrados, que podem ser os do rapazinho, mas as investigações não são conclusivas em relação a este aspecto. Os pais desesperam, mas estão mais preocupados com as suas novas vidas e não as querem de modo nenhum perderem. E por isso “Loveless: Sem Amor” é um retrato bastante cruel, solene e brutal dessa Rússia, que se esconde debaixo de umas bonitas paisagens geladas, paisagens essas que parecem guardar segredos que não há interesse em serem revelados.

Efectivamente o ponto de partida de “Loveless: Sem Amor” é semelhante a um thriller norte-americano convencional — faz lembrar “Gone Baby Gone-Vista Pela Última Vez”, de Ben Affleck, de 2007 —, mas tem os tempos e pausas de reflexão, e o peso de um filme do leste europeu. É filmado como habitualmente de uma forma majestosa, solene e épica à maneira do cinema russo. E por mais minimalistas que sejam os temas (como os de “Elena” ou “Liviathan”), Zviagintsev é mestre a trata-los todos sempre com uma enorme grandiosidade e impacto.

Loveless: Sem Amor
A mãe (Maryana Spivak) está mais preocupada com a nova relação do que com o bem-estar do miúdo.

No entanto, “Loveless: Sem Amor” não trata apenas a realidade da Rússia moderna. Podemos encontrar esta familia e esta situação em qualquer lugar deste mundo: o tema é universal e é natural que muitos espectadores se possam sentir identificados pelo menos com alguns dos aspectos tratados no filme. Quem já não passou por uma situação de divórcio com filhos ou não conheça situações de conflito semelhantes a estas com consequências para as crianças? Mas este realismo não faz com que o filme caia em fantasias ou clichés novelescos, que se possam prever perante advento de uma crise matrimonial, em que um casal não se preocupe com o bem estar do filho, mas antes num conflito básico que vai crescendo de intensidade e tem as suas consequências inesperadas. É por isso que “Loveless: Sem Amor” é uma história ainda mais auténtica, dramática e sentimental.

Loveless: Sem Amor
As belas paisagens geladas de Moscovo da actualidade estão associadas aos sentimentos dos protagonistas.

O elenco está em geral muito bem nos seus papéis. Mesmo no pouco tempo que o rapazinho de 12 anos (Matvey Novikov, que faz lembrar o pequeno David Bennent, de “O Tambor”, de Volker Schlöndorff, de 1979) está em cena, é verdadeiramente espantoso como ele mostra a sua infelicidade e como absorve a indiferença provocada pelo conflito entre os pais, embora não entenda muito do que se está a passar.  A fotografia das paisagem geladas é deslumbrante, bem como a criação de ambientes frios que mostram não só o clima bastante hostil da Rússia no inverno, como ao mesmo tempo revela os verdadeiros sentimentos dos protagonistas e o desenrolar do drama em si. 

Loveless: Sem Amor
Matvey Novikov, faz lembrar o pequeno David Bennent, de “O Tambor” de Volker Schlöndorff, de 1979.

“Loveless: Sem Amor” é um daqueles filmes que não se vêem todos os dias sobre um tema comum nos nossos tempos. É um filme que utiliza o caso de um desaparecimento de uma criança, para mostrar a realidade e a decadência da familia nas sociedades em geral, onde se sobrepõem o individualismo à comunidade, os interesses particulares ao bem comum. Novamente o realizador russo assume essa responsabilidade de aprofundar as crises humanas com grande atitude, uma excelente narrativa e uma técnica cinematográfica mais do que impecável. Um grande filme!

 

Loveless: Sem Amor
Loveless: Sem Amor

Movie title: Loveless

Date published: 2018-02-13

Director(s): Andrey Zviagintsev

Actor(s): Matvey Novikov,, Alexey Rozin,, Maryana Spivak,

Genre: Thriller, Drama

  • José Vieira Mendes - 90
  • Cláudio Alves - 85
88

CONCLUSÃO

Loveless: Sem Amor é um filme que fala sobre o amor e desamor, das crises da adolescência dos filhos, das responsabilidades dos pais, do papel da paternidade na actualidade (e da constante procura do individual dentro de uma familia), os objetivos e frustrações pessoais, a tomada de certas decisões inconsequentes, que por vezes têm efeitos colaterais.

O MELHOR: Um realismo na medida certa que não cai em clichês e que vai jogando com a imprevisibilidade;

O PIOR: Não se pode viver sem amor, mesmo naquela Rússia gelada e sem sentimentos.

JVM

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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