10ª Festa do Cinema Italiano | My Italy, em análise

Quatro artistas internacionais, um realizador italiano e seu assistente são os protagonistas da insana paródia My Italy, onde documentário, ficção, crítica artística e paródia desenvergonhada se misturam com resultados absurdos. O filme está integrado na secção Altre Visioni da 10ª Festa do Cinema Italiano.

my italy festa do cinema italiano

My Italy propõe-se aos seus espetadores como um filme protagonizado por vários nomes de peso do mundo da Arte contemporânea. Eles são o escultor polaco Krzysztof Bednarski, o artista concetual dinamarquês famoso pelas suas obras de mixed-media Thorsten Kirchhoff, o pintor e compositor americano Mark Kostabi e o malaio H.H. Lim cujo trabalho vai desde a ilustração comercial e a escultura até à performance e à instalação. Todos interpretam versões fictícias de si mesmos: Bednarski numa narrativa que envolve uma encomenda insólita de uma viúva de um poderoso mafioso italiano, Kirchhoff numa odisseia paródica que o leva a vários cantos da Itália numa tentativa de salvar um dos seus trabalhos das mãos de um canalizador ignorante, Kostabi numa farsa existencial e Lim num romance sem diálogo que o leva de uma ponta à outra de Roma.

Mais do que um filme sobre arte contemporânea temos aqui um filme com arte contemporânea. Mais do que explorar o trabalho destes artistas ou as suas perspetivas, My Italy usa-os como o veículo pelo qual explorar, dissecar e redefinir o conceito da Grand Tour italiana que teve o seu apogeu no século XVIII. Nessa época, era comum os grandes intelectuais e artistas fazerem, pelo menos uma vez na sua vida, uma viagem a Itália para experienciarem a sua beleza como que numa espécie de ritual iniciática de teor turístico. Com efeito, o filme leva-nos a várias localizações desse país e fá-lo a acompanhar as viagens mirabolantes de vários artistas que, por sinal, estão tão enamorados de Itália que, independentemente das suas nacionalidades, passam aí grande parte da sua vida.

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O mais interessante de tudo isto é que o projeto descrito acima não é somente o que os cineastas propõem ao seu público, mas também o que eles propõem aos seus financiadores, um processo que é também mostrado no filme final. Ou melhor, um processo cuja dramatização humorística chega aos cinemas ao lado das quatro narrativas dos artistas contemporâneos e onde os papéis do realizador e outros intervenientes são interpretados pelos seus análogos reais. Não é certamente um documentário factual, mas também não é completa ficção – um híbrido portanto, como tantos outros filmes no panorama mais estruturalmente ousado do cinema atual.

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Através dessa sua comparação paralela de abordagens e eventual polinização cruzada das duas facetas de My Italy, esta é uma obra portadora de um discurso interno impossivelmente complicado. Por exemplo, temos uma litania monumental de possíveis considerações sobre a relação complicada entre arte e comércio, entre as ambições artísticas do criador e o método pela qual ele tem de comercializar o seu produto final e efetivamente vendê-lo. Mas, por outro lado, temos também uma comédia sem quaisquer pretensões de realismo ou densidade intelectual.

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Na verdade, na mesma medida em que os criadores de My Italy levantam uma série de fascinantes questões com a mera descrição sumária do seu projeto, o resultado final está muito mais interessado em profanar qualquer tipo de indagação metatextual em nome da comédia. Os próprios artistas não mostram problemas ou reticência em personificarem versões de si mesmos que foram exagerados ao ponto de se tornarem em caricaturas grotescas trespassadas por um jocoso pretensiosismo ciente de si mesmo. A balança cai sempre para o lado da comédia fácil, impedindo o filme de se tornar num marco genial ao estilo de F for Fake, mas permiti-lhe ser uma peça de entretenimento surpreendentemente acessível.

Considerando essa mesma questão de equilíbrio concetual e tonal, é interessante verificar que o filme funciona sempre melhor nos seus momentos mais absurdos e estrambólicos do que naqueles em que as suas piadas imitam cânones da comédia mainstream. Veja-se, por exemplo, a gloriosa insanidade de um encontro paranormal que o artista dinamarquês sofre ao ser acolhido por um sedutor fantasma que lhe oferece queijo e vinho, ou a peregrinação do pintor americano a um centro científico em ruínas com um retrato de Sophia Loren debaixo do braço. Por vezes, o humor fácil junta-se ao absurdismo, como é o caso de algumas piadas desconfortáveis à custa de um casal de dois homens efeminados que vivem numa caverna cheia de quinquilharia ou a cacofonia de crimes e loucuras numa zona com uma grande população imigrante, e é nesses instantes que o filme mostra a sua maior fragilidade.

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Em termos formais, My Italy caracteriza-se pela sua aparência extremamente low-fi. Veja-se a qualidade da imagem digital ou a sonoplastia com peculiares traços de amadorismo ou indisciplinada experimentação. Noutros casos semelhantes, tais decisões poderiam ser vistas como uma tentativa de alcançar uma estética de mockumentary, mas o acrescento de técnicas como o green screen leva a que todos estes mecanismos se tornem em mais uma forma do filme sublinhar a sua falta de seriedade, a sua qualidade intrinsecamente artificial, a sua deliberada falsidade e insinceridade que nunca nos permitem encarar o filme como nenhum tipo de grande manifesto.

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Apesar de se poder mostrar frustrante para alguns espetadores cativados pelas possibilidades concetuais de um filme feito à volta de vários artistas contemporâneos, My Italy merece algum respeito, mesmo no que diz respeito à sua própria falta de ambição. O que é imperdoável é a sua duração e tendência para anestesiar a audiência com ciclos de repetição desnecessária e estupidamente cansativa. No final, temos aqui uma agradável confeção cómica, cujos ingredientes concetuais podem ser muito densos e complicados mas cujo resultado final prima principalmente pela sua leveza.

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O MELHOR: O momento em que, a meio de uma reunião, um produtor polaco abre o que parece ser um altar a uma estrela do cinema erótico italiano dos anos 70 e o espetador se apercebe finalmente que nem mesmo a parte mais “documental” do filme está presa a quaisquer noções de realismo ou plausibilidade.

O PIOR: A duração excessiva e o teor relativamente homofóbico de alguns dos seus momentos de humor mais forçados.



Título Original:
 My Italy
Realizador:
Bruno Colella
Elenco:
Bruno Colella, Krzysztof Bednarski, Thorsten Kirchhoff, Mark Kostabi, H.H. Lim
Comédia | 2016 | 121 min

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Ana Rodrigues
Ângela Costa
Catarina d'Oliveira
Cláudio Alves
Daniel Rodrigues
José Vieira Mendes
Filipa Machado
Maria João Bilro
Marcos Mendes
Miguel Simão
Rui Ribeiro
Virgílio Jesus
 


CA



Sobre Cláudio Alves