Olha Que Duas, em análise

Olha Que Duas, a nova comédia protagonizada por Amy Schumer, marca o inglório regresso de Goldie Hawn ao cinema, após 15 anos ausente do grande ecrã.

olha que duas critica snatched

Oh, como os grandes caem. Há poucos anos, Amy Schumer era vista como uma das comediantes mais originais e socialmente relevantes da atualidade. As suas paródias sobre os privilégios e injustiças sentidos por um público feminino numa sociedade que celebra narcisismos vácuos e é dominada por uma perspetiva masculina pareciam quase revolucionárias. Aliás, o seu sucesso foi tão grande que resultou na criação de uma série aclamada, múltiplas nomeações para os Emmys e até num filme escrito e protagonizado pela comediante que, para além de ter sido um sucesso de bilheteiras, também conquistou a crítica e valeu a Schummer uma indicação para o Globo de Ouro de Melhor Atriz.

Com isso dito, os últimos anos têm vindo a revelar sérias rachas na fachada bem-sucedida de Amy Schumer e, ainda mais notoriamente, na sua autoproclamada relevância sociocultural. Num clima politico onde xenofobia e racismo são legitimados pelas estruturas de poder nos EUA, o humor politicamente incorreto da comediante começou a denotar algumas incoerências éticas, e os seus pedidos de desculpas por comentários inapropriados, piadas ofensivas e sketches controversos começaram a acumular-se a alarmante ritmo, transformando esta heroína de humor desenvoltamente feminista em mais um símbolo de problemática insensibilidade social. Gradualmente, as personagens narcisistas, egocêntricas e cronicamente privilegiadas que o seu humor tanto critica, começaram a parecer um reflexo direto da própria Schumer.

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Nada disso invalida a qualidade das primeiras temporadas de Inside Amy Schumer, por exemplo. No entanto, é difícil defender o segundo grande esforço cinematográfico desta comediante, Olha Que Duas. Realizado por Jonathan Levine e escrito por Katie Dippold, este é provavelmente um dos projetos mais racistas e xenófobos a entrar no mercado mainstream em 2017. Duvidam da veracidade de tal julgamento? Então reflitam sobre o facto de que, em termos de estrutura macro, o grande arco cómico do filme depende do modo como todos os medos que turistas brancos e abastados têm sobre viagens a destinos na América do Sul (raptos, cartéis, doenças exóticas, completa falta de infraestruturas, ausência de civilização e pessoas que não sabem falar inglês) não são uma mera manifestação de preconceitos injustos, mas acabam por se revelar como sendo uma realidade para as duas protagonistas.

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Mais especificamente, esta é a história de Emily e Linda Middleton, mãe e filha que embarcam juntas numa viagem ao Equador. A sua proximidade nestas aventuras turísticas não é algo planeado, sendo que, originalmente, Emily tinha concebido estas férias para si e o namorado, que acaba o relacionamento com ela na primeira cena do filme. Como a viagem e a estadia tinham sido já pagas sem hipótese de reembolso, Emily lá conseguiu arrastar a mãe que preferia ter ficado em casa com os seus gatos e o seu outro filho, um professor de piano agorafóbico cujos problemas psiquiátricos são uma das mais desconfortáveis fontes de humor do filme.

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Ao contrário de Emily que quer viver aventuras exóticas em terras estrangeiras e partilhar tudo nas redes sociais, Linda mostra-se, desde inicio, temerosa em relação aos perigos que podem esperar um par de turistas americanas num país como o Equador. Efetivamente, os medos de Linda são justificados pelos desenvolvimentos narrativos de Olha Que Duas. Afinal, quando Emily se depara com um sedutor estranho de sotaque ambíguo, ela deixa-se levar pelos seus desejos hedonistas sem refletir nos avisos da mãe, o que acaba por resultar no rapto das duas mulheres por criminosos colombianas.

Sozinhas e aparentemente indefesas, mãe e filha acabam por conseguir escapar após matarem um dos seus captores (uma das piadas recorrentes do filme) e escapam-se pela selva amazónica, onde cruzam caminho com um pseudo explorador americano sem qualquer conhecimento sobre a selva e com uma comunidade de indígenas que o filme emprega para mostrar como Emily afinal não é uma pessoa assim tão má. Afinal, ela sacrifica cinco minutos do seu tempo para ajudar o trabalho manual de um grupo de camponesas que nunca têm sequer direito a uma fala.

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Há que se esclarecer algo antes de prosseguirmos com esta análise. Olha Que Duas é indubitavelmente racista e xenófobo, baseando muito do seu humor em estereótipos nojentos sobre a América Latina e reduzindo as suas personagens não caucasianas a figuras periféricas ou vilanescas, que são sempre ameaças, adereços ou fontes de humilhação para as duas protagonistas. No entanto, essa insensibilidade e ignorância não implicam necessariamente uma obra cinematograficamente incompetente. O que implica isso é o desenvolvimento de personagens nulo, a incoerência narrativa, má montagem, feia fotografia, péssimo uso de cenários naturais do Havai assim como uma panóplia de problemas rítmicos que destroem todo o humor que o filme poderia ter, não obstante a sua natureza politicamente incorreta.

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A tornar a situação ainda pior está o trabalho do elenco que, preso a um argumento tão mau e a uma direção de ator tão displicente como a de Jonathan Levine, depende do seu próprio engenho e charme para fazer a história de Olha Que Duas funcionar. Alguns dos intérpretes como Christopher Meloni, Randall Park e Wanda Sykes conseguem impor as suas personalidades cómicas de tal modo que a estupidez textual deixa de ter importância. Convém dizer que, mesmo assim, todos eles são desperdiçados aqui.

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Amy Schummer, pelo contrário, é completamente destruída pelo argumento que, ao contrário dos trabalhos escritos pela própria comediante, a prende a uma personagem repugnante e irredimível. Sem oportunidade de injetar o seu charme irreverente nesta múltipla homicida viciada no Instagram, o centro emocional e narrativo de Olha Que Duas é ineficaz e nefasto para a experiência do público.  No papel de Linda, Goldie Hawn, que regressa ao cinema após 15 anos, ainda consegue dar uso ao seu carisma natural, mas as inconsistências estereotipadas da personagem provam ser demasiado poderosos até para esta veterana vencedora de um Óscar. A cereja putrefacta no topo deste bolo intragável, é mesmo a falta de química familiar entre as duas atrizes, cuja dinâmica de mãe e filha nunca convence.

 

Olha Que Duas, em análise
olha que duas

Movie title: Snatched

Date published: 2017-08-10

Director(s): Jonathan Levine

Actor(s): Amy Schumer, Goldie Hawn, Ike Barinholtz, Tom Bateman, Wanda Sykes, Joan Cusack, Christopher Meloni, Randall Park,

Genre: Comédia, Ação, 2017, 90 min

  • Claudio Alves - 30
30

CONCLUSÃO

Depois de anos como uma das comediantes mais socioculturalmente relevantes da atualidade, Amy Schumer protagoniza em Olha Que Duas, uma das comédias mais reacionárias e dissimuladamente conservadoras do ano. Desde incompetência formalista a humor sem graça, o filme é um desastre do principio ao fim. O trabalho colorido do elenco secundário e o carisma de Goldie Hawn são distrações prazerosas, mas inconsequentes no esquema geral deste horror cinematográfico.

O MELHOR: A presença luminosa e profundamente desperdiçada de Goldie Hawn. Esperemos que a receção critica deste filme não a afugente dos grandes ecrãs por mais 15 anos.

O PIOR: A piada recorrente de Emily matar pessoas acidentalmente. No final, se analisarmos bem a situação, é difícil não estarmos do lado do criminoso cujos familiares foram dizimados por uma turista que, nas palavras do próprio antagonista, vai a países exóticos para olhar as pessoas locais como se elas fossem animais de jardim zoológico.

CA

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