Whiplash – Nos Limites, em análise

 

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 FICHA TÉCNICA

  • Título Original: Whiplash
  • Realizador: Damien Chazelle
  • Elenco: Miles Teller, J.K. Simmons, Melissa Benoist, Paul Reiser, Austin Stowell
  • Género: Drama, Música
  • BIG Picture Films | 2014 | 107 min
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I was perfect.” Andrew (Miles Teller) não o chega a dizer veementemente naquele apoteótico desfecho, mas há frases que não precisam de ser verbalizadas para serem compreendidas. Já em “Cisne Negro”, de Darren Aronofsky, Nina (Natalie Portman) di-lo sem qualquer pudor como resultado de uma jornada de sofrimento físico e quase-delírio mental. É curioso encontrar este paralelismo entre a obra de estreia de Damien Chazelle (vencedor de Sundance em 2014) e o filme de Aronosfy. Se a bateria é a violenta afirmação de posição, a evacuação dos medos e inseguranças ou uma inequívoca manifestação de força, o bailado não poderia ser visto de forma mais díspar: um exercício de equilíbrio, de dor contida, de medos encobertos pela suavidade de um adagio. Em ambos os casos, os respetivos filmes retratam a sua arte com base num trinómio dominante: sangue, suor e lágrimas.

A precursão de Chazelle, tal como o bailado de Aronosky, é a demonstração do poder inabalável da ambição, representada pela incessante vontade do seu protagonista em ser – pura e simplesmente – o melhor. E isso, como devem imaginar, dá um trabalhão do caraças.

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O enredo é, portanto, tão evasivo quanto isto: um baterista jovem e talentoso, Andrew Neiman (Miles Teller), inserido numa das melhores orquestras de jazz do país e sob a direção de um impiedoso professor, Terence Fletcher (J.K. Simmons), procura a perfeição a qualquer custo.

Mas enquanto Andrew procura escalar os degraus que o conduzem ao desejado sucesso, Fletcher prepara uma desumana sabotagem à escadaria. É então sob esta premissa quase simplista que se alicerça um dos melhores argumentos do ano.

A indústria está saturada de histórias sobre escolas artísticas, onde o aluno prodígio tenta ser alguém naquilo que melhor sabe fazer, ao mesmo tempo que vê o professor mauzão a destruir-lhe o caminho que trilhou. Mas “Whiplash” é diferente.  Chazelle esquiva-se aos clichés, aproxima-se da brutalidade psicológica de “Full Metal Jacket” e é incendiário na forma como pretende que o espectador veja por dentro aquilo que ele só está habituado a ver por fora.

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O swing frenético dos sons, a intensidade das cores e os viscerais movimentos de câmara exacerbam o sofrimento dos olhares, colocam in loco o suor patente nas roupas encharcadas, agudizam o efeito das lágrimas de ambição ou do sangue das feridas em carne viva. “Whiplash” é um exercício de estilo cinemático, um monumento aos benefícios da simplicidade e um golpe de mestria da realização de Chazelle.

Beneficia também de um trabalho de montagem magistral que gradualmente vai sendo mais exuberante e enérgico à medida que nos aproximamos do fim (sublinhe-se a genialidade do último frame), bem como de uma rigorosa componente sonora com destaque para a mistura e montagem de som.

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No entanto, por muitas vénias que se façam ao estilo e competência técnica, há duas peças que não ficam isentas de vénias superiores. J.K. Simmons, cuja presença imperial faz lembrar J. Jonah Jameson num dia de muito mau humor, representa a busca contínua pela perfeição e o supra-sumo da competência. Fletcher, apesar de fazer uso de linguagem sexista e homofóbica (Chazelle faz aqui referências ao exploitation) e de recorrer constantemente a ímpetos violentos, só o faz porque é um verdadeiro amante do jazz e, como tal, pretende suprimir todas as falhas para que, a todo custo, a sua competência passe incólume ao teste do tempo. Nesse sentido, J.K. Simmons oferece uma prestação soberba para recordarmos mais tarde com as gerações vindouras.

Também em busca da (utópica?) perfeição, mas caminhando numa rota aparentemente oposta está Andrew, interpretado pelo espantoso Miles Teller, que merecia outro reconhecimento pela temporada de prémios.

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Em dado momento, Flechter partilha com Andrew a história de Charlie Parker, que numa dada altura estava a tocar com o baterista Jo Jones quando cometeu um erro ao qual Jones respondeu com o arremesso de um címbalo que quase o decapitou. Em resposta a este gesto violento, Parker começou um período de prática obsessiva que o tornou num dos maiores génios musicais do século 20. Andrew acredita que pode ser o novo Charlie Parker porque isso significa acreditar que um dia pode ser o melhor. E Fletcher é o novo Jo Jones, porque crê na absoluta necessidade de levar os seus alunos para além daquilo que se espera deles. O mito de Charlie Parker diz-nos que o sucesso só se conquista com trabalho e que o futuro só poderá ser risonho se a competência for a palavra-chave. É isto que está destinado a Chazelle.

No fim de contas, quase podemos imaginar Damien Chazelle a proferir um orgulhoso “I was perfect”. Tal como Andrew, ele deu tudo, a todo o custo, nos limites. E “Whiplash” é já um dos grandes filmes do ano.

Good job.

DR



Sobre Daniel E.S.Rodrigues