Top guarda-roupas da TV | 03. Fargo

Na segunda temporada, Fargo move a sua narrativa para o norte dos EUA em 1979. Nesta complicada tragicomédia os figurinos tornam-se tão fulcrais para o sucesso da série como a sua complicada teia de crimes, mentiras e manipulações.

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Logo na primeira cena da segunda temporada de Fargo sabemos, como audiência, que estamos prestes a vislumbrar uma obra de televisão verdadeiramente ousada, tanto a um nível narrativo, conceptual como visual e claro, pontuado por um acídico humor negro. A seguir a um momento passado no cenário de um filme de cowboys e índios, protagonizado por Ronald Reagan, seguimos para a um discurso de Jimmy Carter em que o presidente proclama a existência de uma crise de confiança na América de 1979, uma instabilidade de valores e insegurança. Esta é uma série, por consequência, imensamente dependente da precisa construção dessa específica época passada e dos seus valores, da sua política e da sua sociedade numa crise ideológica e cultural. A construção visual de tal ambiente é algo obviamente essencial.

No que diz respeito aos figurinos, Carol Case foi a responsável pela criação do guarda-roupa da segunda temporada de Fargo. Case concebeu o guarda-roupa maioritariamente a partir de peças vintage, mas muitos dos conjuntos usados pelas personagens tiveram de ser complementados por uma série de peças feitas de raiz, baseadas em fontes da época. Ao contrário de vários retratos da década de 70, como American Hustle, Fargo evita tornar-se uma paródia dos estilos da época, sendo que todos os seus visuais têm uma magistral contenção e veracidade, que mesmo assim permitem a esta abrasiva tragicomédia manter o dinamismo visual que tanto a torna um dos mais indispensáveis programas na televisão contemporânea.

FARGO -- Pictured: Patrick Wilson as Lou Solverson. CR: Mathias Clamer/FX

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FARGO -- “Palindrome” -- Episode 210 (Airs December 14, 10:00 pm e/p) Pictured: (l-r) Kirsten Dunst as Peggy Blumquist, Jesse Plemons as Ed Blumquist. CR: Chris Large/FX

Esta é uma série em que os figurinos assumem uma importância descomunal na dramaturgia e na própria narrativa, onde, por exemplo, uma fivela vistosa em imitação kitsch de estilos do Velho Oeste americano se torna num assombroso agoiro de tragédias futuras.

A um nível cromático a série é caracterizada por tons frios, maioritariamente azuis pontuados por gélidos brancos que refletem tanto a paisagem natural coberta de neve como a desumanidade da maioria das personagens. Neste mundo de frieza absoluta as cores quentes, especialmente o castanho, são um símbolo de conforto e familiaridade, a não ser quando estamos a falar de vermelho vivo, pois esse tom usualmente representa sangue, a apoteose visual da malevolência amoral que impregna a integridade humana das personagens e do espaço como uma praga incurável e demoniacamente contagiosa.

Todas as personagens e figurantes aparecem primorosamente vestidos, mas algumas figuras têm guarda-roupas mais importantes ou grandemente vistosos que outros, sendo que Peggy, interpretada pela maravilhosa Kirsten Dunst é, sem dúvida, a figura que mais se destaca pelas suas roupas.

FARGO -- Pictured: Bob Odenkirk as Deputy Bill Oswalt -- CR. Matthias Clamer/FX

FARGO -- “The Myth of Sisyphus” -- Episode 203 (Airs October 26, 10:00 pm e/p) Pictured: Jeffrey Donovan as Dodd Gerhardt. CR: Chris Large/FX

FARGO -- “Fear and Trembling” -- Episode 204 (Airs November 2, 10:00 pm e/p) Pictured: (l-r) Daniel Beirne as Sonny Greer, Nick Offerman as Karl Weathers. CR: Chris Large/FX

FARGO -- “Fear and Trembling” -- Episode 204 (Airs November 2, 10:00 pm e/p) Pictured: Michael Hogan as Otto Gerhardt. CR: Chris Large/FX

FARGO -- “Fear and Trembling” -- Episode 204 (Airs November 2, 10:00 pm e/p) Pictured: Jean Smart as Floyd Gerhardt. CR: Chris Large/FX

Tal como a rapariga que fugiu do assassinato de Robert F. Kennedy a gritar “We got him!”, Peggy vestia um conjunto num padrão às bolinhas quando fugiu da cena do sangrento crime que despoleta todo o enredo desta temporada. Peggy estava a usar uma blusa branca nesse característico padrão manchada pelo sangue da sua vítima, mas ainda mais simbólico que isso são as luvas que envergava quando conduzia por uma estrada a meio da noite e colidiu com um assassino, luvas de um vermelho intenso que brilha sanguinariamente nas imagens em tons invernais de Fargo. Desde o primeiro episódio que Peggy é uma Lady Macbeth com as mãos cobertas de sangue que nunca conseguirá lavar.

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Mas não é só Peggy a brilhar devido ao seu vestuário. Especialmente no enredo referente às maquinações e políticas do submundo criminal, o guarda-roupa das personagens torna-se um invariável símbolo de alianças e fidelidades mortíferas e de respeito e poder. Numa formidável cena de confrontação entre duas das mais importantes figuras do crime local, o vestuário torna-se um formidável indicador dos jogos de influência serem jogados, com a formalidade das roupas a indicar um desesperado atentado a uma fachada de legitimidade e respeitabilidade. Basicamente vemos um conflito imenso a ser visualizado pelos figurinos, a informalidade familiar dos Gerhardt do Dakota do Norte versus a instituição formal e ostentosa dos mafiosos de Kansas City, que usam fato e gravata como executivos.


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Em Fargo, poder, legitimidade e aspirações de um futuro risonho entram em sangrento conflito numa complicada teia de intrigas, mas mesmo assim os resultados nunca chegam aos níveis de carnificina alcançados pela série que escolhemos como a 2ª mais bem vestida da televisão de 2015. Segue para a próxima página para descobrires mais.


 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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