71º Festival de Cannes: “Ilha dos Amores”, no Cannes Classics

O clássico português “A Ilha dos Amores”, de Paulo Rocha (1935-2012) vai regressar ao Festival de Cannes, integrado agora no Cannes Classics, 36 anos depois ter tido estreia mundial a concurso no mais importante festival de cinema do mundo.

“A Ilha do Amores”, de Paulo Rocha vai integrar a secção Cannes Classics. Trata-se de uma biografia cinematográfica do escritor português Wenceslau de Morais que foi apresentada a concurso no Festival de Cannes em maio de 1982 e interpretada por Clara Joana, Jorge Silva Melo, Luis Miguel Cintra, Paulo Rocha, Zita Duarte. É um filme falado em português e japonês e estreou no Japão a 12 de março de 1983 e em Portugal só a 8 de março de 1991. A cópia apresentada foi recentemente restaurada pela Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, e teve origem na digitalização 4K com wet gate de interpositivos de imagem e som em 35mm tirados num laboratório japonês em 1996. A correção de cor digital foi feita por La Cinemaquina usando como referência uma cópia de distribuição de 1982. O restauro digital da imagem foi feito pela IrmaLucia Efeitos Especiais.

“A Ilha dos Amores”, retrata a época, a obra, a vida, os amores, e a morte de Wenceslau de Moraes, o grande escritor português nascido em Lisboa em 1854, que viajou pelo Extremo Oriente e faleceu no sul do Japão, (Tokushima), em 1929. Em finais do século XIX, Wenceslau de Moraes, era um oficial da Marinha de Guerra, desencantado com a situação política — a agonia da monarquia e ultimato inglês) — e parte para Macau e não mais regressou a Portugal. O filme mostra o choque entre dois mundos e duas culturas bastante diferentes. O Ocidente encontra o Oriente, num filme inspirado na figura de Wenceslau de Moraes, que fugiu de Portugal nos fins do século XIX para encontrar no Japão uma “arte de viver” que conciliasse o material e o espiritual. “A Ilha dos Amores”, é também um mito contado por Luís de Camões, nos Cantos IX e X d’ Os Lusíadas. Nestes cantos, conta-se a vontade da deusa Vénus em premiar os heróis lusitanos, com um merecido descanso e com prazeres divinos, numa ilha paradisíaca, no meio do oceano: a Ilha dos Amores. Nessa ilha maravilhosa, os marinheiros portugueses podiam encontrar todas as delícias da Natureza e as sedutoras Nereidas, divindades das águas, irmãs de Tétis, com quem se podiam alegrar em jogos amorosos. É mais ou menos  neste mito que Wenceslau de Morais se inspira na sua escrita, e nas suas extravagantes experiências de vida nas ilhas japonesas que procura mostrar “A Ilha dos Amores”, de Paulo Rocha, uma das obras mais belas, complexas e extremas de todo o cinema português. Depois da passagem no Cannes Classics do 71º Festival de Cannes, que decorre de 8 a 19 de Maio de 2018, “A Ilha dos Amores”, de Paulo Rocha, será lançado em DVD, em breve numa edição conjunta da Cinemateca Portuguesa e Midas Filmes.

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QUASE UM FESTIVAL DE CLÁSSICOS

Duas mulheres pertencentes à história do cinema, Alice Guy e Jane Fonda, o filme “2001, Uma Odisséia no Espaço” que completa 50 anos de estreia, visto e comentado por Christopher Nolan, um ensaio de Mark Cousins sobre Orson Welles, um tributo de Margarethe von Trotta ao realizador Ingmar Bergman, Fernando Solanas e “The Hour of as Furnaces”, “Five and the Skin”, de Pierre Rissient são tudo filmes que vão ser apresentados e relançados neste Cannes Classics 2018. Vai ser possível também ver filmes do cinema patrimonial africano, tesouros desconhecidos da cinematografia mundial e obras de arte reconhecidas internacionalmente como é o caso de “A Ilha dos Amores”, de Paulo Rocha.

cenas de abertura

Os clássicos em versões restauradas de 2K e 4K ou numa recriação de filmes fotoquímicos excepcionais e num número de sessões que por si só dava um outro festival. Além disso a Cannes Classics vai continuar a mostrar a história do cinema e a vida de algumas das suas figuras como Alice Guy ou Jane Fonda, apresentado os melhores documentários produzidos em 2018. Todos os filmes e documentários serão introduzidos na grande Sala Buñuel, pelos produtores, distribuidores, fundações, cinematecas, titulares dos direitos de autor, que trabalham para proteger a história do cinema, ajudar a revivê-la, e ainda pelos realizadores, artistas ou especialistas responsáveis pelas restaurações, seja por profissionais do mundo do arquivo ou das cinematecas.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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