© Risi Film

19.ª Festa do Cinema Italiano | Arsa, a Crítica

A MHD está sempre nos grandes eventos nacionais de cinema. Desse modo, temos estado a acompanhar a 19.ª Festa do Cinema Italiano que começou em Lisboa a 9 de abril com “La Grazia” (2025, Paolo Sorrentino) e termina este domingo 19 com “Três Vezes Adeus” (2025, Isabel Coixet). A Festa decorrerá ainda até junho em diferentes cidades portuguesas. Hoje damos destaque a “Arsa” (2024, MASBEDO), exibido no sábado 11.

“Arsa” é o primeiro filme de ficção dos MASBEDO – dupla composta pelos artistas visuais e realizadores Nicolò Massazza e Iacopo Bedogni – e é uma história visual sobre uma rapariga que ficou órfã na ilha de Stromboli.

Pub

A sessão no Cinema São Jorge decorreu com a presença dos realizadores e, no dia anterior, a MHD entrevistou-os a propósito do filme. Para já, ainda não há data para a estreia comercial – ainda que o filme já seja de 2024 – mas irá acontecer pois já tem distribuição assegurada pela Risi Film. Em todo o caso, vais poder ainda (re)ver este filme em Coimbra no dia 8 de maio às 15h.

Lê Também:
Arsa e Teorema da Falta | Entrevista aos MASBEDO

Qual a narrativa de Arsa?

“Arsa” conta a história da jovem de 18 anos que dá nome ao filme e que vive sozinha na ilha de Stromboli.

Pub

O seu trabalho é recolher o lixo que fica à beira da praia. Nesse âmbito, com algum do lixo que recolhe transforma-o em esculturas, num legado que o seu pai lhe deixou.

A narrativa do filme decorre entre as memórias de Arsa e o tempo atual onde um grupo de rapazes vem destabilizar a sua rotina, nomeadamente, Andrea que fica atraído por ela.

Pub

Fazem parte do elenco deste filme nomes como Gala Martinucci (que interpreta Arsa), Jacopo Olmo Antinori (Andrea), Lino Musella (Pai de Arsa), Giovanni Cannata (Pietro), Luca Chikovani (Tommaso), Anna Di Luzio (Anna), Matilde Schiaretta (Jovem Arsa), entre outros.

Entre memórias e a atualidade, num cenário idílico

Arsa, dos MASBEDO
© 2024 Eolo Film Productions S.r.l. and Alcion S.r.l_

“Arsa” é um filme que vive bastante do lado visual, algo que é ainda mais evidente devido ao facto de ser filmado na ilha de Stromboli. Sendo a primeira obra de ficção dos MASBEDO, há, em certa medida, uma continuação do trabalho dos autores na videoarte.

Pub

Assim, “Arsa” começa logo com o mar em grande destaque fazendo com que o espectador entre no filme de forma ‘mágica’ e despreocupada. Por entre o nevoeiro rente ao mar e as memórias de Arsa percebemos a ligação que a protagonista ainda tem com o seu pai, apesar de desaparecido.

Arsa é uma alma solitária. Contudo, ela olha para os visitantes da ilha com entusiasmo. Fica como que enfeitiçada por eles porque sabe que, enquanto estiver presa nas suas memórias, nunca vai ser tão livre como aqueles visitantes. Ainda assim, Arsa é livre à sua maneira. Vive o seu dia-a-dia de forma repetitiva mas certa, cozinha aquilo que arranja da natureza e recolhe a sujidade do mar. Ao mesmo tempo, Arsa cultiva a sua felicidade no seu espaço ‘à margem’, um silo onde constrói e guarda pequenas esculturas. As esculturas são, para Arsa, uma forma manter vivo o espírito do seu pai que construía esculturas como forma de vida. A presença de Arsa no silo é pretexto para os realizadores nos levarem, através das memórias de Arsa, ao passado, onde a nossa protagonista acompanha o seu pai nos seus trabalhos.

Pub
Lê Também:
Hey Joe, a Crítica | Festa do Cinema Italiano

A proximidade entre Arsa e o pai

Arsa, dos MASBEDO
© 2024 Eolo Film Productions S.r.l. and Alcion S.r.l_

“Arsa” é um filme passado entre dois tempos: a infância e o início da vida adulta da nossa protagonista. Na infância, Arsa acompanha o seu pai e ajuda-o a fazer esculturas. Deliberadamente, os realizadores tem uma diferença algo marcada no modo de filmar estas cenas. Se, no tempo contemporâneo do filme os MASBEDO utilizam muito mais planos gerais e com a câmara fixa, o mesmo não acontece no tempo passado da narrativa. Assim, as cenas entre Arsa e o pai abundam muito mais em planos de escalas mais aproximadas e com bastante câmara à mão.

Nicolò Massazza referiu: “Procuramos ter uma relação com intimidade e manter a câmara próxima dos atores, sim.”

Pub

A relação entre as cenas do passado e as cenas contemporâneas em “Arsa” não é estanque. Assim, ao longo do filme os diferentes tempos cruzam-se na montagem. Isto também porque, na verdade, apesar da protagonista ter entrado na sua fase adulta, ainda se mantém presa às memórias do seu pai e tudo aquilo que ela faz – nomeadamente, com as esculturas – é para manter viva a memória do seu pai.

Entrar noutra rotina?

Arsa, dos MASBEDO
© 2024 Eolo Film Productions S.r.l. and Alcion S.r.l_

Quando, entretanto, um grupo de três rapazes chega de férias à ilha, o mundo de “Arsa” fica frágil. Especialmente, na relação que Andrea tenta estabelecer com ela. Há um certo fascínio entre os dois jovens. Ambos perderam os pais e, por isso, parecem compreender-se. No entanto, os mundos de Andrea e Arsa são muito diferentes. Ela é uma adulta presa na infância, no seu próprio mundo interior – até tem um relógio no seu quarto preso sempre na mesma hora. Ele é um jovem aberto ao mundo que fuma, bebe, diverte-se numa festa e tem um telemóvel. Tudo isto não combina com o mundo de Arsa.

Pub

Debaixo do mar eles têm o seu primeiro contacto mais íntimo. É algo mágico, entre os bonitos azuis e os seus corpos com os peixes a passarem entre eles. Mais tarde, Andrea cruza-se com Arsa entre a vegetação e convida-a para ir à sua festa de aniversário. Ela recusa mas ambos sentem uma ligação profunda.

Andrea insiste, de qualquer forma, e dá-lhe inclusive um telemóvel. Andrea e Arsa estão distantes mas próximos. Ele no barco, ela na sua casa. Estabelecem uma ligação através de uns óculos luminosos e divertem-se. Nunca se sentiram tão livres e completos. É uma cena íntima e carregada de desejo, ainda que as personagens estejam fisicamente distantes. Por fim, passam a noite juntos.

Pub
Lê Também:
La Grazia, a Crítica

O início do fim para Arsa

Contudo, Arsa está insegura. O telemóvel é um utensílio estranho para ela e sente que pode perder a sua ligação com o seu pai. Desse modo, mergulha até à escultura que está afundada na areia para reestabelecer o contacto com o pai. Começa a ter visões da destruição do seu local de trabalho e corta a relação com Andrea. No entanto, já era tarde demais. Enquanto Andrea conta à polícia sobre a escultura afundada, ela queima o telemóvel. Andrea vai embora e o mundo de Arsa desaparece. A escultura é retirada do mar e a ligação com o seu pai cortada. Como irá Arsa sobreviver agora?

Algumas conclusões sobre Arsa

Arsa, dos MASBEDO
© 2024 Eolo Film Productions S.r.l. and Alcion S.r.l_

“Arsa” é um filme visualmente forte e passado num mundo entre a magia e a realidade. A paisagem de Stromboli permite ao filme adquirir uma aura de leveza que faz com que o espectador pertença a este mundo.

Entre a escuridão da areia na praia, adquirida pelas cinzas de um vulcão, até ao azul do mar, passando pela vegetação circundante e, por exemplo, a natureza morta na casa onde os rapazes ficam alojados, a natureza neste filme é extremamente importante e atinge um certo contraste com a nossa protagonista porque é, em certa medida, uma extensão do seu estado de espírito leve e profundo.

“(…) É fantástico porque, realmente, na natureza trabalhamos com a incomunicabilidade, o silêncio e o vazio. E, por exemplo, o mundo da Arsa, ela permanece o tempo todo numa solidão com esta natureza muito forte, uma natureza muito primitiva.”, referiu Nicolò Massazza.

Visualmente impactante, o filme tem também uma planificação muito bem pensada com os planos mais abertos na contemporaneidade e mais fechados no passado. Há, claramente, uma relação entre a protagonista e os planos. Enquanto vivia com o pai, a proximidade dos dois era inquestionável. Agora, ela tenta abrir-se para o mundo e não consegue. Inclusive, tem a necessidade de usar binóculos para se ‘aproximar’.

Em termos gerais, “Arsa” é um filme bem conseguido e espiritualmente cativante. Contudo, o clímax poderia ter sido trabalhado de outra forma pois o final acaba por ser demasiado brusco, tanto para nós como para a personagem.

Arsa

Conclusão

  • “Arsa” é o primeiro filme de ficção da dupla de artistas visuais e realizadores Nicolò Massazza e Iacopo Bedogni – mais conhecidos como MASBEDO.
  • Trata-se de um filme com um forte teor visual onde a natureza transmite uma aura de incomunicabilidade e pertença com as personagens, substituindo, em certa medida, os seus sentimentos.
  • Um filme entre as memórias e o presente com uma história íntima e bonita onde só temos alguma tristeza com o seu trágico desfecho.
Overall
8/10
8/10
Sending
User Review
0 (0 votes)

About The Author


Leave a Reply