68º Berlinale | Dia 1 “Ilha dos Cães”

A história dos animais que falam de “O Fantástico Sr. Raposo” (2009), foi transportado novamente por Wes Anderson, para este “Ilha dos Cães”, num futuro, daqui a 20 anos, onde os cães raivosos são os homens. 

Depois d’ “O Fantástico Sr. Raposo”, este “Ilha dos Cães”, marca o segundo filme de bonecos em animação stop motion, do realizador norte-americano Wes Anderson. Mais uma vez, Anderson criou um universo meticulosamente detalhado que funciona com suas realidades e regras muito próprias de contar histórias sérias com muitos toques de ironia e humor. Além de um universo plástico, muito influenciado pelos comics, novamente em “Ilha dos Cães”, os protagonistas são animais, mas desta vez os cães.

Dando paradoxalmente um intenso realismo aos personagens utilizando um notável elenco de vozes: Bryan Cranston, Koyu Rankin, Edward Norton, Liev Schreiber, Bill Murray, Bob Balaban, Jeff Goldblum, Scarlett Johansson, Kunichi Nomura, Tilda Swinton, Ken Watanabe, Akira Ito, Greta Gerwig, Akira Takayama, Frances McDormand, F. Murray Abraham, Courtney B. Vance, Yojiro Noda, Fisher Stevens, Mari Natsuki, Nijiro Murakami, Yoko Ono, Harvey Keitel y Frank Wood.

"Isle of Dogs"
A história de Atari à procura do seu cão Spots.

Imaginem agora em “Ilha dos Cães”, uma fábula ecológica e subtilmente critica com a política narrada pelo nosso Bruno Aleixo — curiosamente o cão narrador parece-se muito com o cão coimbrão — sobre o capitalismo selvagem e a corrupção. Trata-se efectivamente de um fenómeno, que como é sabido está espalhado pelo mundo inteiro — das sociedades mais ricas aos países mais pobres —  e que chegou em “Ilha dos Cães” num país oriental, com laivos de regime totalitário e racista (neste caso ao arquipélago japonês) daqui a uns vinte anos. Aliás o filme começa mesmo ao som dos tambores japoneses. A história conta-se mais ou menos assim. A população canina atingiu proporções enormes, numa terra com tão pouco espaço. Um surto de raiva atinge a cidade de Megasaki. E essa doença dos cães ameaça as outras espécies, além de poder entrar no grupo de doenças humanas.

"Isle of Dogs"
O Senhor Kobayashi, presidente do município a expulsão dos cães.

O Senhor Kobayashi, presidente do município exige uma quarentena apressada: a expulsão e contenção de todas as raças não humanas, tanto as espécies em liberdade, como as domésticas. Por decreto oficial, a Ilha do Lixo torna-se assim numa colónia dos exilados, e passa a Ilha dos Cães. Seis meses depois desta polémica decisão, um pequeno avião bimotor aterra na vasta para o vasto lixo. Um grupo de cinco cães abandonados, famintos, mas ferozes, correm para os destroços e descobrem um jovem piloto de doze anos que cambaleia pela fuselagem ainda ardente depois da queda precipitada. O miúdo chama-se Atari, uma criança adoptada pelo Senhor Kobayashi. Com a ajuda de seus novos amigos caninos, Atari procura Spots, o seu cachorro guarda-costas, entretanto desaparecido. É neste processo, que se inicia uma jornada épica, do grupo que vai descobrir uma estranha conspiração que decidirá o destino e o futuro da cidade de Megasaki.

"Isle of Dogs"
Atari e o seu grupo de amigos caninos descobrem uma conspiração.

Quando os maus aparecem no filme e procuram caçar brutalmente os nossos amigos de quatro patas, como num filme de ação “Ilha dos Cães”, continua a ser essencialmente uma fábula, sobre o heroísmo e a resistência, mas também sobre o mundo real em que vivemos das enormes desigualdades e descriminação. Curiosamente, o filme leva-nos mesmo a entender e a vestir a pele dos animais, enquanto sociedades manipuladas pelos media: quase tudo o que os humanos e os noticiários da televisão — como um permanente Big Brother — dizem é traduzido por uma tradutora-humana de serviço. É assim que esta pequena história de Atari (Koyu Rankin), e dos seus peculiares companheiros caninos, King (Bob Balaban), Duke (Jeff Goldblum), Rex (Edward Norton), Chief (Bryan Cranston) e Boss (Bill Murray) acabam por nos divertir, mas sobretudo confrontar-nos com questões tão actuais como: quem somos como seres humanos? que nos distingue dos animais? Que mundo queremos para o futuro das gerações que aí vêm?

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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