69º Festival de Cannes (Dia 5) | Os Males do Amor

O road movie American Honey da britânica Andrea Arnold é até agora um dos melhores filmes da competição, ao passo que Mal de Pierres com Marion Cotillard é apenas uma catarse da realizadora francesa Nicole Garcia.

American Honey

American Honey de Andrea Arnold (Reino Unido) com Sasha Lane, Shia LaBeouf, Riley Keoug (competição)

A história: Star (Sasha Lane), uma adolescente que vive no seio de uma familia disfuncional, decide fugir com uma equipa de vendas de assinaturas de revistas de porta em porta, através do interior dos EUA. Star vai procurar encontrar-se no meio deste grupo de adolescentes, que tal como ela procura a sua independência e um sentido para a vida. Entre eles está Jake (Shia LaBeouf), que a inicia neste estilo de vida, nas noites festivas, no trabalho duro e mal pago e também no amor adolescente.

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A análise: A visionária cineasta britânica Andrea Arnold (Fish Tank), deu uma verdadeira pedrada no charco apresentando aqui este American Honey. Trata-se de um belíssimo filme e a sua primeira obra  produzida nos EUA, com meios muitos escassos à boa maneira do naturalismo do cinema independente, transposto para um cenário norte-americano: paisagens pobres, estradas secundárias desertas ou com camiões, motéis de estrada, famílias disfuncionais; e sobretudo a habitual utilização da câmera à mão como se o filme fosse rodado em tempo real com a luz natural, acompanhado de uma excelente banda sonora, que ajuda a traçar o destino dos protagonistas. O argumento algo errante como o de um qualquer road movie foi escrito pela própria realizadora, mas utilizando os padrões da linguagem juvenil e desse estilo de vida.

American Honey

O elenco de American Honey combina profissionais como Shia LaBeouf ou Arielle Holmes (a estrela de Heaven Knows What dos Irmãos Safdie), com a estreante e carismática Sasha Lane e um conjunto de miúdos que na sua maioria depois deste filme voltaram às sua vidas. Na verdade, Sasha Lane no papel de Star, uma rapariga com futuro incerto, é brilhante e cola na perfeição com a metáfora de uma América profunda e  proletária, o retrato social desse grupo ambulante de miúdos que corre de furgoneta as estradas perdidas, vendendo assinaturas de revistas. Um destaque para a naturalidade da protagonista, Sasha Lane (no seu primero filme), tal como a bela Riley Keough, que emanam luz e conseguem sobrepor-se ao protagonismo e profissionalismo de Shia LaBeouf que contrariamente ao habitual parece mais contido. Até agora um dos melhores filmes da competição.

MAL-DE-PIERRES

Mal de Pierres de Nicole Garcia (França), com Marion Cotillard, Louis Garrel, Àlex Brendemühl (competição)

A história: Gabrielle (Marion Cotillard) cresceu na pequena burguesia rural onde o seu sonho de uma paixão absoluta acaba em escândalo, numa altura em que o papel da mulher é o casamento. Os seus pais acabam por casá-la com José (Alex Brendemuhl), um trabalhador sazonal espanhol, que decide aceitá-la para fazer dela uma mulher respeitável, embora Gabrielle não o ame. Quando Gabrielle vai para umas termas tratar dos suas pedras nos rins, conhece André (Louis Garrel), um tenente ferido na guerra da Indochina, que faz renascer nela a vontade de amar. Gabrielle parece querer ir atrás do seu sonho.

A análise: Mal de Pierres é a história de uma mulher, da sua vida, do seu casamento infeliz e dos seus amores impossíveis. Marion Cotillard estava de facto bem casada com Àlex Brendemühl, e portanto se calhar não havia necessidade de filmar e contar, o que já foi mil vezes contado de Guinevere a Anna Karenina, de Capitu a Thérèse Desqueyroux. E agora só faltava mais esta Gabrielle, de Marion Cotillard. Em Mal de Pierres, o espectador acompanha cada momento do filme com alguma curiosidade, enquanto na tela se desenrola um melodrama muito certinho que deve ser uma espécie catarse, da actriz-cineasta Nicole Garcia (O Adversário), que é uma habitue de Cannes, quer seja à frente ou atrás das câmeras.

Mal de Pierre

Mal de Pierres é sobretudo retrato de um amor inesperado de uma cura termal, não para tratar essa doença nos rins, mas no fundo os males do coração, com outro homem, coxo, doente e casado, que sofre da mesma doença. Então, outros males parecem surgir em Gabrielle (Marion Cotillard), subtilmente: loucura, paixão e sobrevivência de uma mulher instável emocionalmente, num filme digno, mas que mesmo adaptado do romance da italiana Milena Agus, se calhar não faz sentido estar aqui nesta competição.

JVM

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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