A Metamorfose dos Pássaros | ©Primeira Idade

70ª Berlinale | As Metamorfoses de um Festival

Entregue a uma nova direcção a 70ª Berlinale arranca esta quinta (20) e vai decorrer até 1 de Março, entre os seus habituais compromissos de activismo político e a projecção do cinema de autor do mundo. A realizadora Catarina Vasconcelos junta-se no programa geral do festival ao novo projecto da artista visual Filipa César, nas únicas representações portuguesas desta edição.

Sem grandes estrelas de Hollywood e sem pôr em causa o seu habitual figurino de festival de cinema político e comprometido e de grande montra do ‘cinema social’ do mundo, a redonda 70ª Berlinale, com nova e rejuvenescida direcção ainda não parece ser na realidade uma coisa nem outra. Para já tem desculpa, porque a concorrência é cada vez mais forte dos festivais da temporada de verão europeia e os lançamentos parecem cada vez mais ficar para mais tarde, não se adequando com o frio de Berlim, que ao contrário das décadas anteriores em que nevava a potes em fevereiro, há 2 dias ao meio-dia em Berlim estamos com sol e com temperaturas a chegar 15ºC. Talvez fruto das alterações climáticas, o que não deixa de ser muito preocupante. Entretanto a chuva chegou e já está mais fresco. De qualquer modo vamos encontrar na enorme programação, filmes que alertam de uma forma directa ou indirecta também para a emergência climática.

My Salinger Year
‘My Salinger Year’ | ©70ª Berlinale

Mesmo assim, na programação mais importante, a competição dos candidatos ao Urso de Ouro são cerca de 16 estreias mundiais e duas estreias internacionais que começam a ser lançados a partir da próxima quinta-feira, 20 de fevereiro e termina no domingo, 1 de março. A nova direcção dos ex-Festival de Locarno (Suíça) Mariette Rissenbaek e Carlo Chatrian procurou requisitar para a sua competição — e não foi decerto fácil — o melhor possível dos filmes disponíveis e prontos no momento e as obras de cineastas como Kelly Reichardt, Abel Ferrara, Christian Petzold, Hong Song-soo, Philippe Garrel, Rithy Panh, Tsai Ming-Liang. Assumidamente é certo e quase num gesto de militância cinéfila, não quiseram filmes da Netflix: ‘Acreditamos na experiência de ver um filme em sala,’ disse Carlo Chatrian há cerca de duas semanas atrás, na conferência de imprensa de anúncio da programação, reforçando que nenhum dos 18 filmes escalados para a competição foi produzido por ou para serviços de streaming; e sublinhando ainda que apesar de não ter sido esse o critério central da selecção oficial da Berlinale 70, que desde o desde o início, do seu mandato e da colega Mariette Rissenbaek, que ficou decidido que os filmes em competição teriam de estar disponíveis para distribuição em sala. Tem havido efectivamente algumas mexidas na  estrutura do festival. A mais politicamente correcta foi mesmo o fim do Prémio Alfred Bauer para a Maior Contribuição Artística (que aliás o cineasta português Miguel Gomes, recebeu em 2012, com ‘Tabu’), depois das recentes e polémicas revelações sobre a militância nazi do fundador do festival, aliás nada que já há muito não fosse suposto; mas há igualmente novidades ao nível da programação e secções paralelas e, a mais importante é uma nova secção competitiva (juntando-se às competições oficiais de longas e curtas-metragens), intitulada Encounters (Encontros), que segundo a organização pretende ‘apoiar novas vozes do cinema e dar mais espaço a uma diversidade de formas narrativas e documentais’, onde estará ‘A Metamorfose dos Pássaros’, a primeira longa-metragem da portuguesa Catarina Vasconcelos.

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AS METAMORFOSES DA BERLINALE

O festival inaugurará amanhã à noite com uma Sessão Oficial de Abertura entregue já não a ‘Pinóquio’, de Matteo Garrone como anteriormente tinha sido anunciado, mas antes com ‘My Salinger Year’, do canadiano Philippe Falardeau (‘Monsieur Lazhar’),   um filme protagonizado por Margaret Qualley e Sigourney Weaver, apresentado fora da competição na Berlinale Special e baseado no livro de Joanna Rakoff sobre o ano que trabalhou com a agente literária do escritor norte-americano J. D. Salinger (‘Uma Agulha no Palheiro’). Contudo a competição da 70ª Berlinale, mais uma vez sem grandes estrelas na passadeira vermelha do Berlinale Palast que segundo as previsões atmosféricas vai entretanto arrefecer, — vai ser avaliada por um júri presidido pelo actor Jeremy Irons  (acompanhado por Bérénice Bejo, Bettina Brokemper, Annemarie Jacir, Kenneth Lonergan, Luca Marinelli e pelo cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho), não inclui cineastas de grande peso e de grande projecção mundial — distanciando-se em parte dos Festivais de Cannes e Veneza. Mas tenta obviamente recentrar-se em alguns realizadores que têm demonstrado visões particulares e únicas e, que têm algo para dizer ao público e à crítica, com mensagens de alerta sobre o perigoso mundo em que vivemos actualmente. São o caso da norte-americana Kelly Reichardt (‘Wendy & Lucy’, ‘O Atalho’) que apresenta o seu novo filme ‘First Cow’, uma estreia europeia vinda do Festival de Sundance; o veterano francês Philippe Garrel (‘O Amante de Um Dia’) estreia-se com ‘Le Sel des Larmes’; o cambojano Rithy Panh (‘A Imagem que Falta’), apresenta o único documentário na competição, intitulado ‘Irradiés’; o praticamente desconhecido Mohammad Rasoulof, com ‘There Is No Evil’, representa o lado clandestino do cinema iraniano, normalmente figurado pelo ilustre Jafar Panahi. Depois há alguns dos cineastas habituais da Berlinale incluindo os alemães: Christian Petzold (‘Barbara’, ‘Phoenix’), com o seu novo filme ‘Undine’, protagonizado pela sua dupla de actores fetiche, Paula Beer e Franz Rogowski (ambos protagonistas de ‘Em Trânsito’) e por uma nova adaptação do romance clássico ‘Berlin Alexanderplatz’, do escritor Alfred Döblin, que foi adaptada em série por Reiner Werner Fassebinder e agora apresentada numa versão contemporânea realizada pelo alemão de origem turca Burhan Qurhami e protagonizada pelo actor luso-guineense Welket Bungué, num filme a ter muito em conta já que a cidade volta também a ser uma das personagens principais e Portugal está em parte representado. Na competição vão estar ainda Hong Sangsoo com ‘The Woman Who Ran’, numa altura em que o cinema coreano está em alta, mas com um  cineasta que tem um estilo bem diferente do de Bonj Joon-ho; o italo-americano e sempre irreverente Abel Ferrara, com ‘Siberia’, que apresenta segundo ele próprio um filme ‘não-linear’ com a habitual cumplicidade do actor Willem Dafoe; o regresso do taiwanês-malaio Tsai Ming- Liang (‘Cães de Palha’), com a ficção ‘Days’, um cineasta que tem andado algo arredado dos circuitos internacionais dos festivais; e ‘My Little Sister’, da dupla suíça Stéphanie Chuat e Véronique Reymond com Nina Hoss e Lars Eidinge, num filme ambientado na cena teatral berlinense. A vertente mais activista na competição está representada pelo filme ‘Todos os Mortos’ de Caetano Gotardo e Marco Dutra, uma história sobre as sequelas da escravatura que marcam ainda hoje a  sociedade brasileira, ou por ‘Never Rarely Sometimes Always’, da norte-americana Eliza Hittman, que pretende ser um novo filme-modelo do cinema feminista. A ver vamos!

‘Berlin Alexanderplatz’
‘Berlin Alexanderplatz’ com o actor luso-guineense Welket Bungué. |©70ª Berlinale

Outra vertente da selecção de candidatos aos Ursos está representada num cinema mais radical e experimental: é o caso de ‘DAU’, um megalómano projecto do cineasta-artista visual russo Ilya Khrzhanovsky, inspirado na vida do físico soviético Lev Landau e que, depois de quase 15 anos de concepção, foi revelado ao público numa instalação multimédia em Paris em 2019. São 12 longas-metragens diferentes mas na competição de Berlim só será apresentado o segmento ‘DAU.Natasha’, mais o documentário ‘DAU. Degeneratsia’ este último será mostrado na Berlinale Special, (fora de competição). A selecção de competição incluirá ainda algumas novidades que se aguardam com expectativa, é o caso de ‘Effacer l’historique’, da dupla franco-belga Benoît Delépine e Gustave Kervern, ‘El Prófugo’, da argentina Natalia Meta, ‘Favolacce’, dos irmãos italianos Damiano e Fabio d’Innocenzo, e o filme ‘Volevo Nascondermi’ do também italiano Giorgio Diritti. Para terminar e dar mais forma esta competição de valores consolidados com ‘The Roads Not Taken’, mais uma obra da veterana britânica Sally Potter, (‘A Festa’) com Javier Bardem e Elle Fanning, algumas das poucas estrelas de Hollywood (se quiser considerar também o espanhol!) na passadeira vermelha e com mais interesse mediático para quem cobre o festival. Fora de competição, na Berlinale Special estarão ainda e são absolutamente a não perder ‘Swimming Out Till the Sea Turns Blue’, o novo documentário do chinês Jia Zhang-ke (‘Um Toque de Pecado’, ‘As Cinzas Brancas Mais Puras’) e ‘Speer Goes to Hollywood’, da produtora, realizadora e argumentista belga, Vanessa Lapa, descendente de sobreviventes do Holocausto, um filme sobre o famoso arquitecto nazi Albert Speer, conselheiro de Hitler, e uma série documental de Nanette Burstein sobre Hillary Clinton. No entanto como para colorir o Carnaval berlinense, o festival anunciou a antestreia, também fora da competição de uma produção norte-americana: a nova animação dos estúdios Pixar, intitulada ’Bora Lá’, realizada por Dan Scanlon e com Chris Pratt e Tom Holland a dar voz às personagens principais, numa fábula ambientada numa civilização mágica, que chegará às salas portuguesas a 5 de Março.

Catarina Vasconcelos
Catarina Vasconcelos a realizadora de ‘A Metamorfose dos Pássaros’ | ©70ª Berlinale

ENCONTRAMO-NOS NA BERLINALE

‘A Metamorfose dos Pássaros’ a primeira longa-metragem de Catarina Vasconcelos — a realizadora de ‘Metáfora ou a Tristeza Virada do Avesso’, que venceu em 2014 o prémio de Melhor Curta no Festival Cinéma du Réel —, é a única representante portuguesa na nova secção competitiva da Berlinale 70. Precisamente intitulada Encouters (Encontros), constituída pela primeira vez por 15 filmes, e que segundo a nova direcção do festival vai ‘apresentar uma forma diferente de interpretar uma história cinematográfica: autobiográfica, íntima, política, social, filosófica, épica, surreal’. A juntar às novas obras de cineastas ‘já consagrados’, como é o caso de Cristi Puiu (‘Malmkrog’), Josephine Decker (‘Shirley’, com Elisabeth Moss como protagonista), Heinz Emigholz (‘The Last City’), Victor Kossakovsky (‘Gunda’), Alexander Kluge/Khavn (‘Orphea’), Matías Piñeiro (‘Isabella’), Ivan Ostrochovský (‘Servants’), Camilo Restrepo (‘Los Conductos’), Tim Sutton (‘Funny Face’), entre outros a direção do festival destacou novos cineastas, que ‘o festival descobriu’, entre os quais coloca precisamente Catarina Vasconcelos, com ‘A Metamorfose dos Pássaros’. Trata-se de uma produção da produtora Primeira Idade, que parte da história da família da realizadora e que foi desenvolvida no âmbito da oficina Arché do Doclisboa e do programa de escrita Archidoc da escola de cinema parisiense La Fémis. É um documentário ficcionado que conta a história dos avós até chegar à do seu seu pai, Jacinto, o mais velho de seis irmãos, que perdeu a mãe subitamente, e do encontro da realizadora com o pai no dia em que também a sua própria mãe: ‘Nesse dia, eu e o meu pai encontramo-nos na perda da mãe e a nossa relação deixou de ser só a de pai e filha’, escreveu Catarina Vasconcelos numa nota de intenções que revela o registo pessoal do filme. ‘Beatriz e Henrique conhecem-se,  apaixonam-se e casam-se quando Beatriz tinha 21 anos. Henrique é oficial da Marinha e vai para o mar. Beatriz cuida dos seis filhos em casa. Um dia ela morre inesperadamente. O filho mais velho é Jacinto. Desde a infância, que ele sonha transformar-se em pássaro. Jacinto é o pai da realizadora Catarina Vasconcelos, cuja mãe também morreu quando ela tinha 17 anos. Após a perda das sua mãe, Catarina começou a trabalhar num filme chamado A Metamorfose dos Locais, que entretanto mudou de nome. Com empréstimos de Manoel de Oliveira e Agnès Varda, Catarina Vasconcelos deu vida à história de sua família num filme íntimo e muito pessoal, que mais parece um diário polifónico a muitas vozes.  A lembrança e o luto fundem-se numa narrativa poética na qual pai e filha falam sobre sua história e o filme está emerso nessa história de uma família como outra qualquer com as suas alegrias e dramas. Como as duas mães falecidas, as imagens do filme oferecem uma espécie de proteção contra a implacável passagem do tempo. E com os protagonistas vivos cujas vozes ouvimos,  vamos  percebendo, quanto a separação é o início de um recomeço’.

‘Quantum Creole’
‘Quantum Creole’, de Filipa César | ©70ª Berlinale

Esta nova secção competitiva Encounters, que parece uma espécie de ‘Un Certain Regard’ do Festival de Cannes, vem juntar-se à Competição e às Berlinale Shorts — que não tem este ano nenhum filme português, numa ruptura, com o que se tinha tornado já um hábito nos últimos anos, desde que Leonor Teles, em 2016, e Diogo Costa Amarante, em 2017, venceram o Urso de Ouro — atribuirá três prémios: Melhor Filme, Melhor Realizador e Prémio Especial do Júri. Ao filme de Catarina Vasconcelos junta-se igualmente no programa da Berlinale 70, — mas numa secção paralela (não competitiva e mais expositiva), o Forum Expanded —, o filme ‘Quantum Creole’, a nova obra conceptual de Filipa César, apresentado como um ‘documentário experimental, e uma co-produção com França, Alemanha e Espanha, que prolonga a exposição/instalação que a artista visual apresentou na Fundação Calouste Gulbenkian em 2019.

A Berlinale 70, trata-se de exactamente de uma edição cheia de novidades num festival inaugurado em 1951 e de aniversários redondos como o da secção paralela Forum que irá comemorar os seus 50 anos de existência, com um programa especial com todos os filmes seleccionados na sua edição inaugural de 1971: ‘Monangambé’, de Sarah Maldoror, ‘Les Mots ont un sens’, de Chris Marker, ‘Cerimónia Solene’, de Nagisa Oshima, ‘Reconstrução’, de Theo Angelopoulos, ou ‘W. R. – Os Mistérios do Organismo’, de Dusan Makavejev. Haverá ainda e numa verdadeira overdose de programação e eventos, uma secção intitulada On Transmission, que coloca sete realizadores emblemáticos e habituées da Berlinale a desafiarem frente-a-frente, sete cineastas contemporâneos para com eles conversarem em palco, acompanhados pela projecção das obras de ambos: Claire Denis, Ildikó Enyedi, Margarethe von Trotta, Ang Lee, Jia Zhang-ke, Paolo Taviani e Roy Andersson são os nomes agendados para estes talk shows, acompanhados de projecções. A habitual retrospectiva clássica, desta Berlinale 70 será dedicada ao realizador americano King Vidor (1894-1982), abrangendo cerca de 35 filmes exibidos a maioria em cópias de 35mm, e a veterana actriz britânica Helen Mirren vai receberá um Urso de Ouro Honorário de Carreira.

José Vieira Mendes (em Berlim)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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