72º Festival de Cannes | ‘Sorry We Missed You’: Por Conta Própria

‘Sorry We Missed You’, do veterano britânico Ken Loach, apresentado na competição, denuncia o actual sistema que explora os trabalhadores, colocando-os a trabalhar por conta própria.

Segundo as opiniões da imprensaSorry We Missed You, do veterano Ken Loach, um  drama incisivo e poderoso sobre a ‘uberização’ do trabalho, poderá render-lhe uma terceira Palma de Ouro de Cannes 72. Aos 83 anos e com quatorze seleções no Festival de Cannes, Loach continua em grande forma nas suas propostas cinematográficas, aparentemente simples, mas como uma poderosa carga de denúncia social e política do sistema capitalista que vivemos, na era do digital. Contudo, tal como nos seus filmes anteriores, ‘Sorry We Missed You’, analisa, através de uma história comovente e autêntica, mas desta vez sobre as consequências do liberalismo económico e da uberização do emprego que procura explorar as pessoas, vendendo-lhes uma ideia de liberdade e empreendedorismo.  E tudo isto com consequências muito negativas para a vida privada daqueles quer sobrevivem unicamente do rendimento do trabalho. Mesmo a situação de muitos trabalhadores por contra de outrem, tornou-se hoje cada vez mais incerta, mais mal paga e mais arriscada. E obviamente a pressão exercida nos trabalhadores vai refletir-se na sua vida familiar.

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Ricky (Kris Hitchen), um ex-trabalhador da construção civil desempregado, torna-se motorista.
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Ricky (Kris Hitchen), um ex-trabalhador da construção civil desempregado de longa-duração e pai de família, acredita que finalmente conseguiu arranjar trabalho, tornando-se motorista de entregas, por conta própria. Mas esse pai descobrirá rapidamente que o preço a pagar por este emprego sem salário fixo, sem horário de trabalho, seis dias por semana e de custos imprevistos — acidentes, desaparecimento de pacotes, e folgas —  vão cair-lhe em cima. Este seu novo ‘emprego’ vai igualmente deteriorar o seu relacionamento familiar: com a mulher Abby (Debbie Honeywood) — que carinhosamente dá assistência a idosos — ,com sua filha Liza (Katie Proctor) de 11 anos e o seu filho adolescente Seb (Rhys Stone), que está no ensino secundário e  começa a cometer pequenos crimes e violência escolar. Um conjunto de actores fantástico que tornam extraordinariamente credível esta família em crise.

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Vende-se às pessoas uma falsa ideia de liberdade com trabalho próprio.

‘Sorry We Missed You’ nasceu do espírito de Ken Loach e Paul Laverty, o seu co-argumentista desde 1995, inclusive do se filme anterior, ‘Eu, Daniel Blake’, Palma de Ouro de Cannes 2016. Este novo filme é quase uma consequência e uma continuidade de ‘Eu Daniel Blake’, a história de um desempregado forçado que vai pedir apoio à burocrática segurança social britânica. ‘Ao investigar vários bancos alimentares, descobrimos que estes estão a ser usados por muitos trabalhadores em situações muito difíceis, disse Ken Loach na conferência de imprensa. Durante cerca de um ano, o argumentista Paul Laverty investigou esses trabalhadores por conta própria como o protagonista Ricky de ‘Sorry We Missed You’. Foi para as ruas de Newcastle, Manchester, e para algumas cidades da Escócia, para ouvir essas pessoas: Com os motoristas de entregas, foi bastante difícil porque são pessoas que trabalham geralmente sozinhas, confessava Laverty. Para os conhecer, tive que gastar muito tempo em estacionamentos. Ouvir as pessoas é essencial para se fazer filmes, como aliás se deveria fazer também na política.  A dureza  e a desumanidade das condições de trabalho do Ricky, são brilhantemente dissecadas em ‘Sorry We Missed You’. Nós os espectadores, somos mesmo confrontados sobre estas novas formas de exploração no trabalho. Sobretudo ao pensarmos quando utilizamos a Uber ou nos chega um pacote de uma encomenda da Amazon a casa. Não fazer compras online pode ser uma escolha individual, dizia igualmente Ken Loach. Mas o problema é na verdade estrutural. Se nos basear-mos numa economia de livre concorrência, é evidente que as grandes empresas têm de oferecer o menor preço para poderem sobreviverem. E para isso, têm de reduzir nos custos do trabalho, colocando os riscos nos trabalhadores. Loach acredita que para mudar as coisas teria que haver uma mudança profunda no sistema.

José Vieira Mendes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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