75º Festival de Veneza (2) | Os Eleitos do Lido

“O Primeiro Homem na Lua”, a viagem à Lua, de Damien Chazelle, é um épico espacial, que conta a história da missão da NASA de levar um homem à lua. O filme foca-se na figura de Neil Armstrong e nos anos entre 1961 e 1969.

“O Primeiro Homem na Lua” é um relato visceral baseado no livro de James R. Hansen, e um filme que explora os sacrifícios, os custos pessoais de Armstrong e também dos seus companheiros para levar por diante uma das mais perigosas missões da história da humanidade. Neil Armstrong — o astronauta, não confundir com o polémico ex-ciclista — interpretado no filme por Ryan Gosling, faleceu em 2012 com 82 anos e a ele se deve a famosa frase, ao pisar o solo da Lua: ‘Este é um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade’.

First Man
A história da primeira missão da NASA que pousou e levou um homem à Lua.

Efectivamente “O Primeiro Homem na Lua”, é talvez um salto demasiado grande e muito diferenciado para um cineasta que apesar do seu grande talento, assinou — e até ganhou Óscares — com um bom par de filmes independentes, quase sempre com temas relacionados com a música: “Guy and Madeline on a Park Bench”, “Whiplash – Sem Limites”, ou mesmo o musical “La La Land: Melodia de Amor”. “O Primeiro Homem na Lua” é no entanto outra música e outra dança, apesar da banda sonora mais uma vez ser muito bem assinada pelo seu habitual colaborador, Justin Hurwitz. A história é tempestiva e fascinante mas o filme de Chazelle, não conseguiu entusiasmar por aí além na sessão de imprensa, desta manhã.

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TRAILER | “O PRIMEIRO HOMEM NA LUA”  COM RYAN GOSLING

“O Primeiro Homem na Lua”, procura contar essa história de sucesso de uma conquista lendária retratando de alguma forma a fragilidade, loucura e perigo dessa iniciativa, que se tornou um desafio sobretudo para toda a nação americana. Os custos financeiros e humanos foram talvez demasiado elevados para os resultados, sendo que a NASA, parece ter abandonado completamente a exploração lunar. Por isso, “O Primeiro Homem na Lua” funciona mais como uma homenagem simbólica, não só a Neil Armstrong, mas a todas as pessoas envolvidas, inclusive os seus colegas e familiares mais próximos, a sua mulher, numa magnífica interpretação de Claire Foy.

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Damien Chazelle e o actor Ryan Gosling voltam a trabalhar juntos.

Para entendermos melhor o que leva um engenheiro aeronáutico não-militar,  que perdeu de uma forma trágica a filha pequena, a arriscar tanto a vida na aventura espacial, Chazelle faz-nos entrar na vida privada de Armstrong. A questão é que essa história aparentemente intimista, apesar da longa duração de 135 minutos, é muito superficial e nem sempre parece muito bem articulada, entre a missão para a Lua e o quarto das crianças, entre a imensidão do espaço e a simples vida quotidiana dos personagens. Se essa era de facto essa a intenção? Talvez também porque Ryan Gosling, apesar da cumplicidade que já existe com o realizador, não seja muito convincente no papel de Armstrong. Por isso, “O Primeiro Homem na Lua”, funciona como uma versão de reportagem verídica — parece um docudrama — que tenta capturar tanto a missão espacial quanto os momentos mais íntimos e privados da família Armstrong. Consegue-o em parte, pois o filme mostra tragédia, tormento, alegria, heroísmo e os momentos da vida vividos e perdidos em nome de uma das realizações mais famosas da história: o pouso na lua, curiosamente num registo sonoro original, das comunicações de Armstrong com o Centro Espacial de Houston.

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No entanto, não chega para emocionar, entusiasmar ou criar grande tensão e efectivamente não é tão convincente e fascinante como muitos outros filmes sobre a conquista do espaço como por exemplo “Os Eleitos” (1983), de Philip Kaufman, que aliás faz recordar muito, em mais do que uma cena. Mas é um filme bem feito dirigido ao grande público que quanto mais não seja pela sua dimensão histórica recente, vai fazer carreira e entrar na corrida dos Óscares, aliás como os seus antecessores filmes de abertura de Veneza.

José Vieira Mendes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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