Nuestro Tiempo

75º Festival de Veneza (9) | ‘Nuestro Tiempo’: Amor e Vacas

O mexicano Carlos Reygadas apresentou na competição ‘Nuestro Tiempo’, um filme  poderoso sobre a crise de um casamento e uma relação aberta.

‘Nuestro Tiempo’, do mexicano Carlos Reygadas é um filme que não vai passar despercebido, na hora dos jurados atribuírem os prémios e não é porque este seja presidido por um mexicano, Guillerme del Toro. À crítica não passou, embora como sempre tivesse dividido opiniões. ‘Nuestro Tiempo’ é o verdadeiro filme dirigido ao público dos festivais e que o comum espectador terá dificuldade em entender, a razão da sua existência. No entanto, é um filme que faz a diferença neste festival.

Nuestro Tiempo

Carlos Reygadas, desde o início da sua carreira internacional como realizador — antes foi jurista e diplomata — e desde ‘Japón’ (2002) pelo menos, que dividiu opiniões, criou debate, rasgou distâncias, e chegou mesmo a chocar o público mais cinéfilo e algum sector da crítica, quando no Festival de Cannes em 2005, apresentou ‘Batalha no Céu’, o filme da sua afirmação internacional, onde retrata uma Cidade do México quente e desesperada, e com personagens que fazem cenas de sexo cruas e realistas. O mesmo quando ‘Post Tenebras Lux’, vencedor do Prémio de Melhor Realização, novamente no Festival de Cannes 2012, desafiava o espectador a fazer uma viagem sensorial e imaginativa no quotidiano do interior rural mexicano e de uma família também com uma relação muito aberta. Aliás Carlos Reygadas é um acarinhado de Cannes e a estreia de ‘Nuestro Tiempo’, nesta Veneza 75, só vem reforçar a ideia já defendida da cada vez maior importância do festival do Lido.

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TRAILER | ‘NUESTRO TIEMPO’

‘Nuestro Tiempo’ a sexta longa-metragem de ficção do realizador, conta a história de uma família que vive numa grande herdade no campo, e faz criação de gado. Juan (interpretado pelo próprio Reygadas), é um poeta famoso internacionalmente, que seleciona os animais enquanto a sua (também na realidade) esposa, Esther, trata da administração do rancho. No entanto, a serenidade e solidez conjugal do casal começa a ficar ameaçada pela ‘paixoneta’ da mulher por um treinador de cavalos americano chamado Phil, que trabalha temporariamente no rancho. ‘Nuestro Tiempo’ não é um filme convencional sobre uma crise do casamento, apesar do filme questionar um dilema tão universal como a nebulosidade dos sentimentos. E não seria a mesma coisa se fosse realizado no contexto de uma família citadina.

Nuestro Tiempo

O rancho, a luz, a paisagem — quase se faz sentir o odor a sexo e do gado — e a relação livre com a natureza e os animais cria o ambiente ideal para se desenvolver uma trama onde se cruzam emoções, instintos e um racionalismo amoral, que põe em causa as convenções mais tradicionalistas do casamento. Na verdade, quando amamos alguém, o que mais queremos realmente é a sua felicidade. Ou é apenas na medida em que esse ato implícito de generosidade não exija muito de nossa parte? Há muitas maneiras de amar e amor é um assunto relativo e complexo, sobretudo nos nossos dias. E este é o tema de ‘Nuestro Tiempo’, que como o titulo indica está mais actual do que nunca.

José Vieira Mendes (em Veneza)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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