Orwell: 2+2=5, a Crítica | 1984, de George Orwell, nos dias de hoje
Estreia na próxima quinta-feira 22 de janeiro nas salas de cinema nacionais o novo documentário de Raoul Peck “Orwell: 2+2=5” (2025). Trata-se de uma revisitação à obra do importante escritor inglês George Orwell (1903-1950).
O filme teve estreia mundial no Festival de Cannes de 2025, na secção Cannes Premiere e não é uma mera biografia de George Orwell. É uma revisitação à sua obra e o quão atual a mesma (ainda) é.
Qual a narrativa de Orwell: 2+2=5?

Distribuído em Portugal pela Midas Filmes, “Orwell 2+2=5” é um filme que tem como ponto de partida duas referências fundamentais da escrita de George Orwell. 1) o romance “1984”, publicado em 1949; 2) as cartas e outras notas escritas por Orwell nos seus últimos anos de vida (pela voz de Damian Lewis), que contêm igualmente referências ao seu percurso ao longo dos anos.
“Orwell 2+2=5” é um filme que não só faz referência à vida e obra de Orwell como também reflete sobre a importância da sua escrita na atualidade. Fá-lo ao refletir sobre os regimes autoritários que hoje existem, desde a Rússia, Israel ou mesmo E.U.A.
Uma lição de História? Não, uma lição para hoje!
Raoul Peck é um dos mais importantes documentaristas da atualidade. A par, por exemplo, de Michael Moore que, curiosamente, também faz uma pequena aparição em “Orwell: 2+2=5” num registo de arquivo (o documentário de 2003 “Orwell Rolls in His Grave”, de Robert Kane Pappas). O que torna ainda mais relevante a obra do realizador haitiano é o facto de que pega em materiais de arquivo extremamente relevantes para os enquadrar na atualidade. Peck confirma-nos, assim, que a História é cíclica e está sempre a repetir-se (infelizmente, para nós, no caso reportado neste filme). Não há presente sem uma reflexão no passado e todos somos responsáveis para que os erros do passado não se repitam.
Depois de ter refletido sobre as questões raciais na América e África do Sul em “I Am Not Your Negro – Não Sou o Teu Negro” (2016) a partir dos escritos de James Baldwin e em “Ernest Cole: Perdido e Achado” (2024) através das fotografias de Ernest Cole, Raoul Peck pega em mais um assunto urgente, relevante e contemporâneo: os autoritarismos. Sim, é verdade que o realizador parte de Orwell. Contudo, Orwell avisou-nos que o autoritarismo é intemporal e nasce na democracia (ou melhor dizendo, no seu vazio). Porque, como Orwell diria: “Ignorância é força”.
Se quisermos ser sinceros, “Orwell: 2+2=5” não é um filme que traga nada de novo. No entanto, é o maior grito de alerta que precisamos perante o mundo tão distorcido de 2026.
Dos arquivos para a atualidade

“Orwell: 2+2=5” começa de uma forma brutal. O seu genérico traz-nos imagens microscópicas de várias bactérias e/ou infeções. Se, por um lado, esta referência é direta e clara ao tempo em que George Orwell esteve internado devido à tuberculose, pode também ser vista de forma mais implícita e indireta à ‘infeção’ do mundo pelas ideias totalitárias.
Para o seu filme, Raoul Peck apresenta-nos materiais de arquivo de várias origens. E o que é extraordinário é o facto como todos estes materiais ‘colam’ entre si (quase) sempre bem.
O ponto de partida é o ano de 1946, quando George Orwell se muda para a Escócia e começa a escrever o romance “1984”. Raoul Peck mostra-nos, então, como primeiras imagens de arquivo, o telefilme “Crystal Spirit: Orwell on Jura” (1983, John Glenister) que ficciona esta época temporal entre 1946 e 1949 enquanto preparava o romance e criou a tão emblemática frase-slogan “2+2=5” que se inclui no título deste documentário.
Ao longo do filme vemos adaptações para cinema de “1984” e também de “A Quinta dos Animais” (ou “O Triunfo dos Porcos”, conforme o leitor preferir) mas vemos ainda outros filmes que, acima de tudo, pegaram nas ideias de Orwell para lhes aplicar em lugares ou futuros distópicos como “A Guerra dos Mundos” (2005) ou “Relatório Minoritário” (2002), ambos de Steven Spielberg. Por outro lado, também a falta de ‘compaixão’ dos Estados é uma crítica de Orwell e que foi aplicada, por exemplo, em “Eu, Daniel Blake” (2016, Ken Loach) cujo excerto também aparece neste documentário.
Mas como o cinema ‘copia’ a realidade, nem só de excertos de filmes vive este documentário de Raoul Peck. O realizador pega ainda em materiais de arquivo pessoais de George Orwell mas, fundamentalmente, em imagens de ‘arquivo’ contemporâneas, dos últimos anos, neste século XXI.
Onde é que já vimos isto?

George Orwell não é um escritor de ontem, é um escritor de hoje. É precisamente isso que “Orwell: 2+2=5” nos pretende transmitir – e bem.
Neste seu filme, Raoul Peck estabelece, assim, relações óbvias entre o passado relativamente recente do século XX (com os totalitarismos presentes durante a II Guerra Mundial) e o ‘passado’ extremamente recente do século XXI (com os totalitarismos de Putin, Trump, Netanyahu e outros).
Peck desmistifica, assim, a partir de Orwell a forma como os regimes totalitários (ainda) funcionam. Desde a superioridade de Putin sobre Macron numa emblemática fotografia onde uma extensa mesa os distancia à mentira espalhada por Trump de ter ganho as eleições em 2021, os ditadores têm de ser superiores. Só através da sua ‘grandeza’ podem demonstrar as suas ‘ideias’ e quem não concordar com isso: rua!
Para lá do poder do totalitarismo, Raoul Peck ainda nos mostra a forma como os ricos controlam o mundo e de que forma a inteligência artificial está a transformar a sociedade para a vigiar de forma ‘discreta’. O Grande Irmão está aí e está a ver-nos mais do que nunca!
Perto do final do filme, Raoul Peck traz-nos ainda os diferentes slogans inventados por George Orwell. Os mesmos ainda hoje continuam a ter significado pois demonstram que, para criar mentiras, basta dar novos significados às palavras. O desvio do significado cria a propaganda que o totalitário quer transmitir ao seu povo.
Algumas conclusões sobre Orwell: 2+2=5

“Orwell: 2+2=5” é um documentário ‘militante’ no sentido em que pretende fazer o espectador mais distraído refletir sobre o perigo do totalitarismo à sua volta. Por outro lado, é um documentário lúcido e didático que pretende desconstruir o totalitarismo tomando George Orwell como ponto de partida.
O documentário de Raoul Peck, tal como a escrita de George Orwell, vai – para mal dos nossos pecados – manter-se relevante e intemporal durante muito mais tempo. Se quisesse, Peck poderia ainda hoje estar a acrescentar imagens ao documentário. Contudo, um filme também tem de ter um fim. Assim, as mais recentes imagens do documentário são (ainda assim) bastante recentes: desde o conflito ainda existente em Gaza à entrada apoteótica de Trump num discurso após ter sido atingido com um disparo na sua orelha durante a campanha eleitoral em 2024.
Apesar de ser um documentário denso, com cerca de 2 horas de duração, este é já um filme essencial de 2026. Poderia ganhar um pouco mais se tivesse menos uns minutos – sobretudo na parte dedicada aos ricos que se demonstra algo ‘forçada’. Contudo, “Orwell: 2+2=5” não vai perder tão depressa a sua relevância. Porque se Putin, Trump ou mesmo Ventura (no caso português) disserem que 2+2 é igual a 5, os seus eleitores vão dizer que sim, 2+2 é igual a 5.
Orwell: 2+2=5
Conclusão
- “Orwell: 2+2=5” é um filme imprescindível sobre o passado para refletir o presente.
- Não trazendo necessariamente nada de novo, o mais recente filme de Raoul Peck é um grito de alerta, uma chamada de atenção, para o facto de que o totalitarismo está sempre presente no nosso mundo e que fabrica as suas ideias para ‘orientar’ o povo no seu caminho.
- “Orwell: 2+2=5” é um filme que vai manter a sua relevância ainda durante muitos anos – para mal dos nossos pecados.
- O documentário é bastante denso – dura cerca de 2 horas – e perde um pouco o impacto em certas sequências (como a parte sobre a riqueza). Contudo, é (ainda assim) um filme imprescindível para este início de 2026.

