Valor Sentimental: Com os Skarsgård, o cinema torna-se uma arte de família?
Do teatro sueco a “Dune”, de Cannes à HBO: como um actor sueco Stellan Skarsgård (“Valor Sentimental”) construiu um império emocional, artístico, familiar e ainda teve tempo para criar uma equipa inteira de jovens estrelas na sua própria casa.
Stellan Skarsgård o protagonista de “Valor Sentimental” — apesar de ter ganho o Golden Globe 2026 e os Oscar insistirem em nomeá-lo como secundário — é daqueles actores raros que não se limitam a construir uma carreira: constroem um ecossistema inteiro à sua volta. Aos 73 anos, com mais de cento e cinquenta filmes no currículo, um pé em Hollywood, outro no cinema de autor europeu, e vários tentáculos espalhados pelas séries mundiais de prestígio, Stellan não é apenas um grande actor — grande também em altura, presença e autoridade natural —, é uma verdadeira instituição europeia. É uma espécie de ministério informal do talento escandinavo, uma multinacional emocional sediada em Estocolmo, um patriarca que, sem querer, criou a mais eficiente linha de montagem artística da história recente do cinema Sem powerpoints, sem coaches motivacionais, sem TED Talks sobre “liderança criativa”, apenas com trabalho, curiosidade, alegria, generosidade e uma prole numerosa. Em “Valor Sentimental”, de Joachim Trier, interpreta precisamente um pai, um cineasta envelhecido, emocionalmente desalinhado, a tentar recompor relações com as filhas, num papel crepuscular, melancólico, cheio de silêncios e rugas morais, daqueles que parecem escritos para actores que já viveram muito.

Uma família transformada em ecossistema
Mas a ironia é deliciosa: ao contrário da personagem, Stellan Skarsgård é tudo menos um pai ausente. Vive rodeado de filhos, netos, projectos, ideias, discussões políticas e jantares improvisados. Todos moram a cinco minutos de distância. Uma aldeia artística em versão Ikea, com menos manual de instruções e mais caos criativo. Seis filhos do primeiro casamento com My Skarsgård, dois do segundo com a argumentista, escritora de livros infantis e produtora de cinema norte-americana Megan Everett. Oito descendentes. Quatro actores de primeira linha. Uma directora de casting. Um médico. Dois adolescentes já creditados em filmes e séries. Parece ficção científica, parece distopia sueca, mas é apenas Estocolmo e o seu estilo de vida organizado, funcional e discretamente excêntrico. É apenas uma família que transformou o cinema numa profissão doméstica, como outras transformam a advocacia, a medicina ou a pastelaria.
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De Bergman a Hollywood, sem perder a alma
Na Suécia, “Skarsgård” não é apelido: é categoria profissional. Stellan Skarsgård começou cedo, como adolescente-prodígio na televisão pública, tornou-se estrela nacional aos 16 anos, integrou o mítico Dramaten (Teatro Dramático Real Sueco) e foi discípulo relutante de Ingmar Bergman, que respeitava profundamente, mas detestava como homem, chamando-lhe ditador. Preferia trabalhar com o dinamarquês Lars von Trier: caos, improviso, provocação, liberdade. Com Lars fez seis filmes. Com Joachim Trier encontrou outro cúmplice. O fio condutor é claro: Stellan nunca quis ser estátua, nunca quis ser busto de bronze, nunca quis ser monumento. Quis ser jogador. Jogar com os realizadores, com os colegas, com o texto, com a vida. E jogou em todo o lado: do Urso de Prata em Berlim a “Will Hunting”, de “Amistad” a “Mamma Mia!”, da Marvel a “Dune”, de “Breaking the Waves” a “Andor”. Cinema de autor, blockbusters, musicais, dramas históricos, ficção científica, televisão premium. Sempre sólido, sempre mutante, sempre humano. Miloš Forman dizia que nunca se lembrava da sua cara. Era o maior elogio possível. Stellan desaparece nos papéis. Não impõe ego. Não impõe marca. Impõe verdade. É por isso que envelhece bem. Porque nunca foi bonito de catálogo, nunca foi estrela inflacionada, nunca foi produto, nunca foi influencer. Foi actor. Trabalhador da emoção. Operário do sentimento.

Os filhos: herdeiros sem facilitismos
E talvez seja isso que Stellan Skarsgård passou aos filhos. Alexander Skarsgård, o mais velho, começou por querer fugir. A fama precoce quase o destruiu, a adolescência sob holofotes deixou marcas, houve serviço militar, fuga estratégica, recomeço. Depois vieram “Generation Kill”, “True Blood”, “Big Little Lies”, “Succession”. Emmy, Globo de Ouro, respeito crítico. O vampiro sexy tornou-se monstro psicológico, o galã virou personagem perturbador. Cresceu, arriscou, herdou a coragem do pai: a coragem de ser antipático quando o papel exige. Bill Skarsgård seguiu outro caminho: vilões, marginais, figuras inquietantes. Pennywise, o palhaço dançarino de “It – A Coisa”, “Nosferatu”, Clark Olofsson, o criminoso da série “Clark”, da Netflix. Um rosto elástico, quase expressionista, capaz de seduzir e assustar ao mesmo tempo. É o Skarsgård mais pop, o mais reconhecível, e talvez o mais perigoso, porque nunca se acomoda à simpatia. Gustaf Skarsgård é o actor de teatro, o mais “clássico”, o mais disciplinado: no Dramaten, na série “Vikings”, no filme “Wallander”. Menos Instagram, mais texto. Menos hype, mais técnica. Um herdeiro directo da tradição europeia. Valter move-se nos bastidores, em papéis secundários, no cinema sueco e na televisão local, com menos barulho e mais constância, encarando a carreira como maratona, não como sprint. E depois há os mais novinhos Ossian (16) e Kolbjörn (13), do seu segundo casamento com Megan Everett, em fila de espera, em estágio artístico, a próxima vaga, a próxima geração.

Nepobabies? Mas só até certo ponto
Chamam-lhes “nepobabies” de Skarsgård. E, sim, o nome abre portas: abre audições, abre reuniões, abre cafés com produtores. Mas não mantém carreiras. O apelido ajuda na entrada, não ajuda na permanência. Nenhum deles sobreviveu por favor. Sobreviveram por talento, trabalho, risco e, sobretudo, resiliência. Na pandemia, a HBO Nordic criou mesmo uma série de conteúdos de formato curto lançada com o título “Com a Família Skarsgård”. É talvez o maior elogio possível. Viraram género cinematográfico. Viraram marca cultural. Viraram património audiovisual. O mais curioso é que Stellan nunca empurrou ninguém. Nunca montou estratégia familiar, nunca fez lobby, nunca telefonou a produtores, nunca organizou dinastias. Limitou-se a trabalhar com alegria, a voltar para casa com energia, a mostrar que a arte pode ser profissão sem ser doença.

Sombras, política e resistência
Stellan Skarsgård também teve sombras: alcoolismo, crises, fragilidades. Não escondeu. Não fingiu. A família falou. O país ouviu. A Suécia gosta de honestidade. E ele nunca se vendeu como santo. Politicamente, é um tipo incómodo. Contra a NATO, contra a erosão do Estado social, contra o cinismo neoliberal, contra a transformação da cultura em produto financeiro. Não faz carreira de opinião, mas não se cala, não se alinha, não se rende. Hoje, ri-se dizendo que recebe “dez papéis de Alzheimer por ano”. Usa peruca às vezes. Lê muito. Escolhe melhor. Trabalha menos. Mas não pára. Porque Stellan não sabe parar. Porque parar seria morrer artisticamente.

Uma cultura, não um clã
Stellan Skarsgård representa aliás uma ideia quase extinta: o actor como artesão, como trabalhador da emoção, como servidor da história, sem vedetismo, sem Instagram histérico, sem culto da personalidade, sem marketing existencial. E, ao mesmo tempo, construiu a maior família artística do nosso tempo. Os Skarsgård provam que o talento pode ser hereditário, desde que venha acompanhado de ética, humildade, trabalho e coragem. Sem isso, vira apenas privilégio. Com isso, vira cultura. Os Skarsgård não são celebridades. São operários do imaginário. Numa indústria viciada em hype, marketing e efémero, esta família sueca lembra-nos que o cinema ainda pode ser feito de pessoas reais, corpos imperfeitos, vozes tremidas, falhas assumidas e trabalho sério. Stellan Skarsgård não criou um clã. Criou uma ‘cultura cinematografica’. E isso, num tempo de estrelas descartáveis, é mais raro do que qualquer Oscar. É quase uma espécie de família real (sueca).
JVM

