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A Voz de Hind Rajab, a Crítica

“A Voz de Hind Rajab”, nomeado para os Óscares 2026 na categoria de Melhor Filme Internacional, como submissão da Tunísia, chegou às salas portuguesas, trazendo a trágica história da menina Hind Rajab, uma criança de seis anos que faleceu após o carro em que circulava, com os seus primos e tios, ter sido atingido, a 29 de janeiro de 2024, por 355 balas israelitas, provenientes de um tanque de guerra.

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“The Voice of Hind Rajab” estreou no Festival de Veneza, onde a Magazine.HD viu o filme, e onde o mesmo recebeu uma ovação recorde de 23 minutos, repleta de lágrimas e de apelos expressivos ao cessar fogo em Gaza.

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Uma história real dramatizada no grande ecrã

Hind Rajab
©Biennale Cinema

Esta é a história dramatizada de uma menina real, entre tantas outras crianças que foram assassinadas desde o início da ofensiva israelita em Gaza, em outubro de 2023. Os números certos são difíceis de apurar, mas as autoridades de saúde de Gaza indicam que mais de 16 000 crianças foram assassinadas desde o início da “Guerra”.

A pequena Hind Rajab torna-se um símbolo importante, a personificação e humanização da história de todas estas crianças. Hind Rajab circulava num carro com os seus tios e primos, a fugir dos bombardeamentos na cidade de Gaza, quando o carro onde circulava foi atingido centenas de vezes pelo exército israelita, o que resultou na morte dos 5 familiares com quem seguia no carro.

Por sorte ou, antes, por ordem do acaso, a pequena Hind Rajab não morreu de imediato, e conseguiu telefonar para os Voluntários do Crescente Vermelho da Palestina. Este centro de ajuda, a cerca de 80km da frente de guerra, é responsável por coordenar os esforços de resgate e conseguiu, neste dia 29 de janeiro de 2024, ficar em linha com a pequena Hind durante muitas horas, a maioria do dia, e os responsáveis por a manter em linha guardaram as gravações deste dia, as quais se tornaram públicas, e foi essa a base para criar esta dramatização ou docuficção.

A voz de Hind Rajab: um timbre que nos atormentará durante anos

Festival de Veneza 2025
©Biennale Cinema

Assim, “A Voz de Hind Rajab” é um misto curioso, uma ficção dramatizada, mais uma recriação de um momento no tempo do que um filme de ficção propriamente dito. As conversas entre o Crescente Vermelho e a pequena Hind Rajab servem como base para toda a narrativa, reproduzindo-se uma cena extremamente tensa em que quatro funcionários desta organização tentam enviar uma ambulância para socorrer a pequena Hind, sem contudo colocar em risco os socorristas no terreno, que poderiam acabar por ser eles próprios abatidos se não obtivessem a devida luz verde para avançar.

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O filme vive muito dessa tensão – a tensão de ouvirmos o desespero na voz da menina, enquanto os funcionários da organização de socorro procuram desesperadamente conseguir uma rota segura de salvamento, uma em que tanto Hind como a ambulância enviada para a socorrer pudessem ficar em segurança.

A narrativa de “A Voz de Hind Rajab” tem uma estrutura quase de “resgate de último minuto”, ligeiramente hollywoodesca, e por várias vezes sentimos a esperança real de que a pequena menina venha de facto a ser socorrida. Na realidade, os dois socorristas, mesmo depois de lhes ter sido prometida passagem segura via uma ação coordenada entre vários organismos, foram abatidos mal chegaram perto do carro onde seguia a menina e pouco tempo depois, a própria criança acabou por deixar de responder e foi, subsequentemente, encontrada sem vida no carro 12 dias depois.

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A sua voz, a sua força, a sua determinação a pedir socorro ao longo de todo um dia de chamadas telefónicas em que permaneceu em linha serve para nos lembrar da brutalidade da ofensiva israelita e de todo o terror que a Palestina tem sofrido perante o genocídio causado pelos seus vizinhos. Hind Rajab, e a sua voz, ficam agora imortalizadas no cinema.

Seria um documentário uma melhor ferramenta de narração?

Festival de Veneza 2025
Os quatro actores: Saja Kilani, Motaz Malhees, Clara Khoury, Amer Hlehel. ©Biennale Cinema

O filme, esse, não é grande cinema, mas é importantíssimo como documento histórico. A História é tendenciosa, narrada pelos mais poderosos e facilmente manipulada. Por isso, documentos como “A Voz de Hind Rajab” têm um lugar cimeiro para estimular a memória e a verdade. E sim, este filme pode não ser cinema com “C” maiúsculo, pode não ser visualmente muito estimulante, pode ser até uma mistura um pouco infeliz entre documentário e ficção, mas o que importa, ao fim de contas, é a força do seu relato.

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Todos os atores presentes no filme são oriundos da Palestina, o que é particularmente importante. Além disso, de acordo com a realizador e argumentista tunisiana Kaouther Ben Hania (“Quatro Filhas”), não existe uma criança a representar Hind Rajab por respeito à vida da pequena menina. Além disso, a cineasta revelou também ter tido o apoio da mãe de Rajab para fazer o filme, a qual também aparece no filme, numa parte final que se torna mais plenamente documental.

Estes detalhes e pequenas chamadas de atenção são muito importantes para preservar a dignidade dos intervenientes da história, uma história que é narrada com a assistência do Ocidente. Entre os produtores contamos com nomes familiares como: Alfonso Cuarón, Jonathan Glazer, Joaquin Phoenix, Rooney Mara ou Brad Pitt. O envolvimento destes nomes permite um alcance internacional para uma história com dimensões humanas importantíssimas. Uma narrativa que é naturalmente comovente, e que com a ajuda da cineasta Kaouther Ben Hania é narrada de forma relativamente sóbria e com sucesso.

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Será que “The Voice of Hind Rajab” teria ganho se fosse pura e simplesmente um documentário? Será errado transformar em “entretenimento” uma história tão trágica? Será que uma ainda maior sobriedade iria beneficiar esta narração? São questões com as quais nos debatamos, e é provável que a resposta para todas elas seja “sim”. Não obstante, este é um esforço valoroso e que merece ser visto pelo máximo possível de pessoas. Um filme para lá de urgente que, desconfiamos, não ficará muito tempo nas salas de cinema nacionais.

A Voz de Hind Rajab, a Crítica

Conclusão

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  • “A Voz de Hind Rajab” é um filme que dança na corda bamba entre documentário e ficção, utilizando ferramentas variadas para, sem grande sensacionalismo, narrar a emotiva história de uma menina, mas também a história de um povo e do seu genocídio.
Overall
7/10
7/10
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