Carlos Saboga (1936-2026): O Argumentista que Escreveu o País à Distância
Exilado por Salazar, consagrado em Paris, Carlos Saboga deixa-nos um cinema feito de memória, História e inquietação
Morreu Carlos Saboga. E com ele desaparece uma das vozes mais discretas — e mais decisivas — do cinema português. Tinha 89 anos. Viveu entre Portugal e França, entre o exílio e o regresso, entre a pertença e a estranheza. Talvez por isso tenha sido sempre um estrangeiro lúcido: dentro e fora do seu próprio país.
Carlos Saboga nasceu na Figueira da Foz, em 1936, no Portugal de Salazar. Filho de um operário comunista que passou 15 anos preso, conheceu cedo o peso da repressão. Ele próprio foi detido pela PIDE. Em 1965, fugiu clandestinamente com uma equipa francesa que filmava em Portugal. Era assistente de realização. Sonhava realizar. Tornou-se exilado. Viveu em Roma, passou por Argel, fixou-se em Paris.
Naturalizou-se francês, mas nunca deixou de escrever com o nervo da memória portuguesa. Carlos Saboga, dizia que a condição de estrangeiro era determinante na sua vida. Nota-se no sotaque, dizia ele. Notava-se, sobretudo, na forma como olhava para a História: sempre com distância crítica, sempre atento aos anónimos esmagados pelos grandes acontecimentos. Foi um dos grandes argumentistas do nosso cinema.
Em O Lugar do Morto (1984), com António-Pedro Vasconcelos, ajudou a criar um marco do pós-25 de Abril. Em Jaime (1999), voltou a explorar as fracturas íntimas de um país em mudança. Mas foi com Raúl Ruiz que o seu nome ganhou projecção internacional. Mistérios de Lisboa (2010), adaptação monumental de Camilo Castelo Branco, venceu o Prémio Louis-Delluc e confirmou Carlos Saboga como um dos mais importantes argumentistas europeus da sua geração.
Trailer de “Ordem Moral”
Seguiram-se As Linhas de Wellington, com Valeria Sarmiento, e várias colaborações com Mário Barroso, como Um Amor de Perdição e Ordem Moral. Ao lado do produtor Paulo Branco, com quem manteve uma cumplicidade de cinco décadas, construiu uma obra coerente, literária, profundamente marcada pela relação entre indivíduo e História.
Aos 75 anos, Carlos Saboga estreou-se finalmente como realizador. Photo (2012) e A Uma Hora Incerta (2015) revelam o seu universo: exílio, culpa, deserção, memória. Filmes pensados, sem ruído, onde a História não é decoração, mas matéria viva. Em 2023 recebeu o Prémio Sophia Carreira. Tarde, talvez. Justo, seguramente. Carlos Saboga pertenceu a uma geração que acreditava que a cultura era uma forma de resistência.
Morreu em Paris, como viveu: estrangeiro. Mas deixou-nos histórias que ajudam a compreender quem fomos e quem ainda somos. Não era vedeta. Era algo mais raro: um arquitecto invisível do nosso cinema. E esses são os que ficam.
JVM

