Cinema Europeu? Sim, Por Favor | José e Pilar

 

Se eu tivesse morrido antes de conhecer a Pilar, tinha morrido muito mais velho do que aquilo que sou.

Quando os grandes pensadores partem, nunca partem inteiramente. Nascido na pacata aldeia de Azinhaga em 1922, José Saramago não almejava vir a ter tanta visibilidade como aquela que arrecadou com o consolidar da sua carreira e a atribuição do Prémio Nobel da Literatura, em 1998. No entanto, José e Pilar – como o título evidentemente o indica – não é um documentário que enaltece o escritor como génio, mas sim o amor como forma de vida.

Foi entre 2006 e 2009 que Miguel Gonçalves Mendes e a sua equipa seguiram o casal nas suas viagens e devaneios, retratando o seu dia-a-dia incomum e a relação digna de poemas de anjos imaculados. O filme, estreado em 2010, é uma profunda vénia à existência e a dois grandes pensadores que confirmam a mística unidade que surge de uma congregação penetrante.

josé e pilar
No âmbito do processo de conceção e lançamento do seu novo romance, A Viagem do Elefante, a pelicula de 120 minutos pretende acompanhar o quotidiano do Nobel, interpolando entre a vida em Lanzarote, para onde se mudou nos anos 90 com a jornalista Pilar del Río, com quem se casou em 1988, e os seus trajetos compartilhados entre conferências, reuniões, congressos e atribuições de graus académicos.

Durante todas as variadas atividades imersas numa espécie de frenesim, José Saramago dá conta das grandes questões da sua vida – onde a morte e o tempo são imperativas – ministrando resultados que parece saber de cor no seu íntimo, como se as tivesse fabricado em primeiro lugar.

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Muitíssimo conhecido pela sua opinião controversa em relação a Deus e à conduta católica, afirmando tratar-se de uma aldrabice completa, Saramago é difícil de contradizer até para os mais céticos. Suportando consigo uma posição de esquerda e ambicionando acima de tudo a liberdade de expressão e ação, que o levou inclusive a sair de Portugal, declara que nunca teve nenhuma crise religiosa e que não consegue alcançar os fundamentos da igreja, inventora do pecado e, consecutivamente, instrumento de domínio sobre o outro.

“Deus… onde está? Antigamente dizia-se ‘está no céu’. Mas o céu não existe… não há céu.”

 

josé e pilar

Além de desejar ter mais tempo para criar, anseia ter mais tempo para amar Pilar, o seu pilar, que conheceu em 1986 e com quem casou dois anos depois. Paixão instantânea e amor eterno, Pilar del Río é o elemento na vida de José – a alegria dos dias, a robustez no decorrer da estrada, a dedicação imensurável. Pilar, que renuncia o cansaço e acredita que existe muito tempo para repousarmos após a morte, é uma exemplo de mulher e ser humano que deveria ser tão (re)conhecido como o seu conjugue. Pilar descomplica, desdramatiza e não suporta hipocrisia ou falsidade – é um fenómeno que não passa despercebido e transluz confiança, intelecto, devoção e muito amor.

Homem sem receios e contemplador da vida em sobriedade – nascer, viver, morrer – José confessa que o pior da morte não é a morte. Para si, o significado de morrer é ter estado e já não estar, e isso sim acumula um fardo extraordinariamente aborrecido. Com 83 anos na altura em que começou a ser filmado o documentário, demonstra uma prematura saudade de viver e uma resoluta sensação de que se está a ir, expondo que, para si, a velhice é sentir como uma perda irreparável o acabar de cada dia.

No passar do 85ª aniversário, Saramago é afligido pela saúde e internado numa clínica, de onde ambiciona sair o mais vivo possível, na pressa de concluir o seu romance e lograr o remanescente tempo na terra, lamentando a meta final e confessando que a única coisa que lhe escasseava era meramente tempo e vida. A sua força interior não quebrou aos 85 anos, e, felizmente, José Saramago viveu até aos 87, terminou A Viagem do Elefante e escreveu ainda um último livro, Caim.

“A dedicatória deste livro, que era outra, substitui-a hoje: ‘A Pilar, que não deixou que eu morresse!’. E foi, e foi… A Pilar, até ao último instante.”


josé e pilar

 

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José e Pilar é, inevitavelmente, uma ode ao talento do escritor e filósofo que acarreta incessantemente uma nostalgia eterna pela vida e o universo. Como comunidade, a espécie humana é um desastre. Mas, e sobretudo, é uma jornada sobre o espaço de dois seres humanos que conservam uma conexão perfeitamente celestial. É o significado de carinho, cuidado, adoração. José tem ideias para romances, Pilar tem ideias para a vida. José tem melancolia, Pilar tem felicidade e, juntos, criaram um mundo irrepreensível onde só eles souberam coexistir e o amor imperava em qualquer parede, em qualquer paisagem, em qualquer livro.

 

No fim, a promessa permanece…

“Pilar, encontramo-nos noutro sítio.”

 

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MJB

Maria João Bilro

Sou doida por cinema - tenho um grave problema em aceitar que a minha vida não é um indie, mas tento fechar os olhos a esse pormenor e continuo a usar óculos escuros à noite e a dançar músicas dos anos 60 de forma (muito) estranha no meio da rua. Licenciada em Ciências da Comunicação, com formação em Realização e Fotografia.

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