“Histoires de la Nuit” e, sobretudo, “The Dreamed Adventure” fecharam a Competição com a prova de que este foi um grande ano de cinema: menos Hollywood, mais cinema, e uma Palma ainda por descobrir
Bem avisámos: não era boa ideia fechar já a tenda, apagar as luzes, devolver os smokings — para quem ainda tem tempo e paciência para os vestir, depois de 11 dias intensos, de tanta actividade, entre sessões, conferências de imprensa e reports diários e fingir que a Competição de Cannes 2026 já estava despachada. O último dia ainda teve cinema. E dos bons.

“Histoires de la Nuit”, da francesa Léa Mysius, e sobretudo “The Dreamed Adventure” (“Das geträumte Abenteuer”), da alemã Valeska Grisebach, fecharam ontem à noite a corrida à Palma de Ouro 2026 com casas invadidas, fronteiras podres, fantasmas sociais e uma certeza bastante agradável: Cannes teve este ano uma das suas melhores Competições dos últimos tempos. Sem precisar de Hollywood a fazer muito barulho, o que, convenhamos, também dá descanso aos ouvidos.
Logo à noite, a partir das 20h15 em Cannes — 19h15 em Lisboa —, o júri presidido por Park Chan-wook anunciará o Palmarés 2026. Tilda Swinton entregará a Palma de Ouro e Barbra Streisand receberá uma Palma Honorária, apresentada por Isabelle Huppert, embora sem presença física da própria. Até lá, vive-se aquela coreografia típica da Croisette: toda a gente finge saber quem vai ganhar, mas ninguém sabe nada, e metade do festival já está pronta para discordar antes do primeiro envelope.
“Histoires de la Nuit”: a família como cena do crime
Léa Mysius adapta um romance de Laurent Mauvignier e transforma “Histoires de la Nuit” num thriller rural de combustão lenta. Há uma família no campo francês, uma festa de aniversário, uma vizinha artista, uma criança, uma ideia frágil de normalidade. Depois chegam três homens. E, como sempre que estranhos entram por uma porta que devia estar fechada, a cordialidade dura pouco.

O filme trabalha bem essa tensão entre ameaça exterior e podridão interior. Não é apenas sobre quem invade uma casa; é sobre aquilo que a casa já escondia. A violência vem de fora, sim, mas encontra terreno fértil dentro: dívidas, humilhações, desejo, culpa, feridas antigas e um campo francês que deixa de ser postal agrícola para se tornar aquário sombrio.
Hafsia Herzi, Benoît Magimel, Bastien Bouillon e Monica Bellucci dão corpo a esse mal-estar. Magimel tem aquele dom raro de entrar numa sala e fazer o oxigénio recuar. Bellucci, mesmo antes de falar, parece trazer consigo meia vida de segredos. Nem tudo funciona com a mesma força — a literatura de Mauvignier vive de uma respiração longa que o cinema nem sempre consegue acompanhar —, mas Mysius percebe o essencial: num filme destes, não se filma apenas a intriga. Filma-se a suspeita.
“The Dreamed Adventure”: John Wayne foi à Bulgária e voltou mulher
O verdadeiro golpe do último dia veio, porém, de Valeska Grisebach. “The Dreamed Adventure” é excelente. Discreto, sem foguetes, sem aparato, mas daqueles filmes que começam por parecer pequenos e acabam a ocupar-nos a cabeça inteira.
A história passa-se em Svilengrad, cidade búlgara junto à fronteira com a Turquia e a Grécia. Veska, arqueóloga, reencontra Said, amigo de infância, cujo carro foi roubado num motel de estrada. A partir daí, entra num mundo de contrabando, máfia local, tráfico, jogos clandestinos e memórias dos anos 90, esse momento pós-comunista em que muitos acreditaram que a democracia e o capitalismo iam chegar de mãos lavadas, mas vieram muitas vezes acompanhados de pistolas, inflação, dinheiro sujo e homens convencidos de que o mundo lhes pertencia por decreto testicular.
A grande ideia do filme está em Veska: uma mulher que escava ruínas antigas durante o dia e ruínas morais durante a noite. Grisebach pega no western, no policial de fronteira, no filme de homens duros, e troca-lhe o centro. Aqui, ninguém vem salvar a heroína. Ela salva-se a si própria.

Yana Radeva é uma das grandes presenças deste Cannes: uma espécie de xerife sem chapéu, John Wayne sem cavalo, mulher madura a atravessar um território governado por homens bêbedos de poder e ressentimento sem lhes oferecer sequer o prazer do medo. O filme é longo, talvez longo demais para uma sessão nocturna no fim de uma maratona cannoise, mas respira. E o que respira ali é cinema.
Portugal ainda pode sonhar à beira-rio
Na frente portuguesa, Daniel Soares ainda está na corrida à Palma de Ouro da Curta-Metragem com “Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio”. A curta parte de uma imagem venenosa: adolescentes a descer um rio fingindo estar mortos para as redes sociais. Ou seja, aquilo a que hoje se chama conteúdo, essa forma moderna de transformar estupidez em performance.
Mas o filme parece perceber que o problema não é apenas a imagem: é a nossa relação com ela. O rio torna-se feed, fluxo, corrente, naufrágio contemporâneo. Há ali juventude, precariedade, invisibilidade, trabalhadores imigrantes, cansaço social e uma ideia muito portuguesa — e muito global — de sobrevivência à margem.

Já “Onde Nascem os Pirilampos”, de Clara Vieira, ficou fora dos prémios da La Cinef, e “Lúcido”, de Vier, não venceu na Competição Imersiva. Não é tragédia. Em Cannes, estar seleccionado já é entrar na conversa. Mas claro que queremos sempre mais. Somos portugueses: fazemos pouco, com pouco, e ainda temos a distinta lata de querer ganhar.
Uma grande Competição antes do palmarés
Também já foi anunciado o palmarés da secção “Un Certain Regard”, que não conseguimos acompanhar porque Cannes insiste nessa fantasia cruel de que uma pessoa pode estar em todo o lado ao mesmo tempo. Não pode. Regista-se, espera-se que alguns filmes cheguem a Portugal e segue-se em frente.
O essencial é isto: a Competição de Cannes 2026 foi forte, variada, viva. Houve Hamaguchi, Farhadi, Pawlikowski, Mungiu, Kore-eda, Almodóvar, James Gray, Na Hong-jin, Sorogoyen, Ira Sachs, Jeanne Herry, Léa Mysius, Valeska Grisebach e Los Javis. Houve guerra, família, alcoolismo, desejo queer, fronteiras, culpa, fantasmas políticos, thriller rural, western reinventado e cinema de autor ainda com vontade de falar com o público.
Agora falta a festa dos prémios. Que seja boa, pá. Que haja justiça, surpresa, escândalo q.b. e uma ou outra decisão incompreensível, porque Cannes também vive disso. Chegamos ao fim cansados, mas felizes. E isso, por aqui, já é quase uma Palma. Logo à noite o espaço da escrita vai dar lugar ao Palmarés anunciado e comentado.
JVM

