Kill Bill: Toda a Obra Sangrenta: A Crítica
Algo a que os grandes cineastas nos habituaram durante a década de 80 foi a apresentarem novos cortes das suas obras. Ridley Scott fez isso com o seu filme “Blade Runner”, Francis Ford Coppola remontou “Apocalypse Now” três vezes e recentemente fez o mesmo com “O Padrinho Parte III”. Porém, existe sempre uma questão entre os cinéfilos quando estes casos ocorrem: O que tornará uma versão definitva?
Quando o jovem Quentin Tarantino pensou em “Kill Bill”, jamais o fez imaginando que o filme seria dividido em dois volumes diferentes. Isto até o produtor Harvey Weinstein perceber que o filme seria demasiado longo para ser um sucesso comercial, e com esse propósito, obrigou Tarantino a tornar este projeto em duas partes.
Olhando para cada um dos volumes individualmente, a divisão parece ser coerente com as próprias escolhaas de Tarantino. Já que enquanto a primeira parte (“Kill Bill: Volume 1” (2003)) aprsenta-se como uma homenagem aos filmes japoneses de artes marciais e lutas com espadas de samurais. O segundo filme (“Kill Bill: Volume 2”(2004)) é um contrapeso, sendo muito mais uma homenagem aos western spaghetti, com um maior foco nos diálogos e na lentidão dos planos, algo que contraria a tendência da primeira parte.
Uma fusão de referências
Porém, olhando para as duas obras deste ponto de vista, é seguro dizer que faz sentido elas existirem individualmente. Já que a sua identidade é tão característica, distinguindo-se assim tão bem uma da outra. Até que em 2006, no Festival de Cannes, Quentin Tarantino remonta “Kill Bill” de modo a torná-lo num épico de 4 horas e 35 minutos. Adicionando novas cenas e alterando outras. O filme chama-se “Kill Bill: Toda a Obra Sangrenta”, e depois de 20 anos de espera, finalmente a versão dfinitiva de “Kill Bill” chegou às salas de cinema portuguesas.
“Kill Bill” conta-nos a história de A Noiva (Uma Thurman), uma ex-assassina profissional, que acorda de um coma de quatro anos após ser traída e baleada no dia em que ensinava o seu casamento pelo seu antigo chefe e amante, Bill (David Carradine), e pela sua equipa de assassinos. Determinada a vingar-se, ela acorda com um único objetivo: matar todos os que causaram tudo isto.
O filme foi um sucesso após a sua estreia, sendo o exemplo perfeito do que é um cineasta no auge da sua auto confiança. Tarantino parece não ter quaisquer dúvidas nesta fase da sua carreira, e isto transpõe-se na tela em “Kill Bill”. Nunca nenhum cineasta roubou tanto de outros realizadores de forma tão estilosa. Porém, Tarantino nunca escondeu isso, assume-o e usa isso a seu favor, misturando tudo aquilo que gosta e tornando-o numa amálgama de referências cinéfilas que é “Kill Bill”.
Roubar como um artista

Tarantino parece realmente não estar preocupado com as acusações de plágio que assombram a sua carreira desde o seu começo, em que foi acusado de plagiar o filme de crime japonês “CIty on Fire”. Desta vez, o realizador parece ter assumido que roubar faz parte do trabalho do artista, e nenhum cineasta em Hollywood rouba tão bem quanto Tarantino. De “Lady Snowblood” a “Ms. 45”, as referências são muitas. Porém, neste épico de 4 horas e 35 minutos, sobra identidade própria, a prova de um realizador que sabe o que quer.
“Kill Bill: Toda a Obra Sangrenta” não é só uma nova versão para levar os que não conhecem a obra original aos cinemas. Pelo contrário. É um filme sobretudo para os que nunca viram “Kill Bill”, e a montagem do filme deixa isso muito claro. Isto porque, no final do primeiro volume, é revelado ao espectador algo, um clássico cliff hanger. Porém, nesta nova versão, já que não há necessidade de se vender mais bilhetes, a revelação passa para o final das 4 horas de duração. O que deixa tudo muito mais impactante para quem vai ao cinema no privilégio do desconhecimento.
Esta mudança é definitiva e prova que Tarantino não vê esta nova versão apenas como uma prenda para os fãs. Mas sim como a versão que será vista e revista nos próximos anos e que as próximas gerações de cinéfilos irão conhecer. Porém, as mudanças não ficam por aqui. “Kill Bill: Toda a Saga Sangrenta” tem uma nova sequência em anime, que complementa a que já existe no primeiro volume, aprofundando a origem de O’Ren Ishi (Lucy Liu). E embora a cena esteja no mesmo nível de qualidade da já existente excelente cena. A existência deste novo capítulo parece um pouco redundante quando pensamos na primeira vingança de O’Ren, esta acaba por parecer mais como um brinde para os fãs mais fiéis que desejavam ver algo mais.
O que faz de uma versão definitiva?

Enquanto fã de “Kill Bill”, sempre pensei que o primeiro volume era mais consistente que o segundo. Já que a aposta nas cenas de ação tão bem coreografadas parecia conquistar-me mais do que o lado mais sentimental imposto pelos diálogos do segundo filme. Mas ao ver “Kill Bill: Toda a Obra Sangrenta”, a minha opinião mudou drasticamente. O que eu pensava ser um capítulo mais oscilante em termos de tom, fluiu muito melhor enquadrando-se nesta nova versão. As 2 horas e 16 do Volume 2 passaram a correr, algo que me apanhou de surpresa, já que as mudanças significativas desta nova versão estão todas no primeiro volume.
O equilíbrio entre os dois volumes sente-se nesta versão. E o seu contraste acaba por não ser tão gritante quando colocados um a seguir ao outro da forma que Tarantino faz aqui. O confronto final com Bill sempre me pareceu insatisfatório após uma jornada tão épica. Desta vez, isso mudou, já que a mudança da revelação que falei anteriormente acrescenta à dinâmica familiar da cena um peso melodramático muito forte. Algo que funciona muito bem com os diálogos excelentes que Tarantino escreve para David Carradine interpretar de maneira fenomenal.
É realmente difícil dizer qual será a versão que os fãs irão adotar como a verdadeira e definitiva daqui em diante. Mas é impossível não destacar “Kill Bill: Toda a Obra Sangrenta”, por não só compilar as duas obras, mas sim melhorá-las coletivamente. Em particular ao elevar o segundo filme ao valor do primeiro, mesmo não alterando quase nada.
Conclusão
Em suma, “Kill Bill: Toda a Obra Sangrenta” não é apenas uma prenda de Quentin Tarantino aos seus fãs. Mas sim uma tentativa do realizador em aproximar-se da sua visão original para este épico, que é, de facto, a visão ideal e definitiva.

