Saltitões: a crítica
A Pixar viveu anos de glória de uma maneira que qualquer estúdio sonharia. Pois, desde a sua primeira longa metragem, com “Toy Story”, o estúdio apostou sobretudo em contar histórias puras e originais, dando voz a cineastas com uma criatividade única. Porém, após alguns anos com um foco em fazer sequelas ou spin-offs, a Pixar regressa com um filme original. Será “Saltitões” o regresso do estúdio à glória?
O que é Saltitões?
O filme “Saltitões”, primeira longa metragem do realizador Daniel Chong, conta-nos a história de Mabel Tanaka (voz de Piper Curda), uma jovem apaixonada por animais e que luta para que o seu habitat não seja destruído. Mabel descobre uma tecnologia desenvolvida pela sua professora que permite transferir a consciência humana para animais robóticos que se fazem passar por reais. Desta forma, Mabel infiltra-se no mundo animal para tentar proteger o seu habitat, e garantir que os humanos não destroem parte da floresta.
Não é a primeira vez que vemos a Pixar a abordar temas ambientais (temos em “Wall-E” o maior e melhor exemplo). Assim como também não é a primeira vez que o estúdio nos conta uma história em que uma rapariga jovem vive num corpo animal (“Turning Red” já nos contou essa história em 2022). Sendo esta a maior falha no argumento de Daniel Chong e Jesse Andrews. Pois, por vezes, o filme revela-se como uma história de defesa do ambiente e dos direitos dos animais que já vimos milhares de vezes em outras obras, até dentro da própria Pixar. Logo, a falta de originalidade no conceito que o filme usa como ponto de partida é bastante clara. Desde a sua protagonista irreverente e revolucionária que quer salvar os animais e o lugar onde vivem. Até ao governador que não se preocupa com a vida animal e quer construir uma auto-estrada no lugar da floresta.
Histórias em repetição

Porém, estamos a falar de um dos melhores estúdios de animação de sempre. E mesmo passando uma má fase, a Pixar habitua-nos sempre com o seu toque especial. Sendo que a maioria das tentativas do estúdio em garantir a sua marca é em tentar emocionar o público, o que muitos dos filmes da Pixar fazem muito bem, já outros, como o recente “Elio”, nem tanto.
Mas é aqui que “Saltitões” se difere e se torna numa obra muito mais original do que a sua sinopse faz parecer. Pois é extremamente diferenciado na sua abordagem à comédia, através de personagens únicas e com um timing cómico excelente. Destaque também para os atores que dão vozes a estas personagens. Bobby Moynihan é um destaque do elenco, que brilha ao interpretar King George, um castor ingénuo e humilde que desenvolve uma bonita amizade com Mabel. Dave Franco também se destaca ao dar voz ao Rei dos Insetos, uma personagem que marca o terceiro ato bizarro e de certa forma perturbador deste “Saltitões”, que é surpreendente de uma forma que a primeira hora do filme falha em ser. Outro ator que se destaca é a estrela Jon Hamm, que interpreta o governador Jerry, uma personagem que parece ser um retrato genérico do político malvado dos filmes de animação. Porém que também acaba por surpreender graças aos twists inteligentes do argumento no decorrer do filme.
A comédia em destaque

O filme brilha sobretudo nos momentos em que é original e bizarro. Quando coloca as suas personagens únicas em circunstâncias cómicas constrangedoras e originais. Um grande exemplo que podemos dar é a maneira extremamente criativa como o filme trabalha a perspetiva. Única e simplesmente através da mudança dos olhos dos animais, de profundamente negros, a brancos com um ponto negro. São nestes pormenores onde conseguimos ver que a verdadeira Pixar ainda respira, nem que seja com alguma dificuldade.
Porém, no momento em que o filme está a ganhar a sua identidade própria, chegamos ao final, que é extremamente apressado e não tem o peso emocional que deveria e que a Pixar nos habituou. É rápido e simples, quase como que aparecida do céu a resolução apresentada para encerrar um filme que ficava cada vez mais interessante.
“Saltitões” funciona como um bom regresso sólido da Pixar aos filmes originais. Embora esteja longe de ser tão marcante e criativo como outras obras do estúdio. Principalmente na história, que é algo genérica e desinteressante, até entrar em ação o humor absurdo de Daniel Chong, que dá uma nova vida a este projeto, diferenciando “Saltitões” de outros filmes com uma mensagem ambiental semelhante.
O novo filme de animação “Saltitões” estreia amanhã, no dia 5 de março, nos cinemas portugueses
Conclusão
Em suma, “Saltitões” está longe de ser uma obra prima extremamente original e emocionante como o estúdio nos habituou no ínicio do milénio. Porém, o filme chega à sua identidade própria através de um argumento cómico e perspicaz, personagens únicas e um elenco muito bem enquadrado.

