Festival de Cannes 2026: Está em Dieta Americana, Com “La Vénus électrique” na Abertura
Quando Hollywood Falta à Festa e Frémaux Faz de Chef com o Que Há no Frigorífico. Já com a certeza de sem os pesos pesados de Hollywood e com “La Vénus électrique” a abrir o festival, o Festival de Cannes 2026 transforma uma ausência num manifesto e levanta a dúvida: será isto um regresso ao cinema de autor…ou uma elegante forma de disfarçar a falta de estrelas?
Sem Spielberg, sem Nolan, sem Cruise — e com muito discurso, filosofia, patriotismo cinéfilo e fé quase mariana na sala escura — o Festival de Cannes 2026 promete provar que talvez não precise de Hollywood, mas também não consegue parar de falar dela. E agora já sabemos uma coisa importante: o filme de abertura será “La Vénus électrique”, nova longa-metragem de Pierre Salvadori, apresentada em estreia mundial no Grand Théâtre Lumière a 12 de maio, depois da cerimónia conduzida por Eye Haïdara, e exibida ou melhor estreada em simultâneo nas salas francesas no próprio dia. O anúncio é tudo menos neutro: Cannes 2026 abre este ano com uma comédia romântica burlesca francesa, de época, assumidamente autoral e popular ao mesmo tempo. É uma bela notícia para o cinema francês, mas também um pequeno sinal de trânsito para quem ainda fingia não ver o óbvio: talvez esta edição esteja mesmo a entrar em modo contenção no capítulo da grande produção norte-americana.

Menos glamour, mais gestão de danos
Há anos em que Cannes parece um cruzamento entre uma feira internacional de vaidades, um conclave cinéfilo e um desfile onde toda a gente jura que está ali “só pelos filmes”. E depois há anos como este, em que a Croisette começa a dar a sensação de jantar elegante com menos champanhe, mais conversa e um ligeiro aroma a gestão de danos. Em vez de abrir com uma máquina de estúdio, um título americano de músculo promocional ou um brinquedo cintilante vindo de Hollywood, o festival entrega a chave da festa a Pierre Salvadori, cineasta francês querido, inteligente, sofisticado e muito mais associado à precisão sentimental e ao humor melancólico do que à histeria industrial do marketing global. A escolha é charmosa, coerente e até bonita. Mas também levanta a pergunta incómoda: isto é liberdade curatorial ou administração elegante da escassez?
Uma comédia sobre impostores para abrir o jogo
“La Vénus électrique” passa-se em Paris, em 1928. Antoine Balestro, jovem pintor em voga, deixa de conseguir trabalhar depois da morte da mulher e desespera o galerista Armand. Numa noite de bebedeira, tenta contactá-la através de uma médium. Só que, sem saber, está na verdade a falar com Suzanne, uma pequena ladra oportunista que entrou ali apenas para roubar comida. Descobre-se então que a falsa vidente tem um raro dom para a impostura e, com a ajuda de Armand, começa a encadear sessões fraudulentas. Aos poucos, Antoine recupera a inspiração; ao mesmo tempo, Suzanne complica a própria vida quando começa a apaixonar-se pelo homem que está a manipular. Ou seja: espiritismo, desejo, fraude, luto, boémia, mentira, romance e equívoco sentimental. Traduzido para linguagem menos académica: parece o tipo de filme capaz de agradar tanto à senhora que lê a Télérama como ao espectador que só queria “uma comédia com classe”.

O próprio festival apresenta o filme como uma comédia romântica “deliciosamente burlesca” e sublinha que Salvadori, no seu 11.º longa-metragem em 34 anos, se aventura pela primeira vez numa fábula de época, embora mantendo os seus temas recorrentes: a mentira, a ambiguidade, os fingimentos, a melancolia e o humor. A organização insiste ainda na inspiração vinda da comédia sofisticada de Hollywood — Lubitsch, Billy Wilder, Blake Edwards —, mas filtrada pelo universo muito pessoal de Salvadori, onde a leveza nunca dispensa a fragilidade humana. É um detalhe delicioso e até irónico: Cannes abre com um filme francês que homenageia, em parte, a velha sofisticação da comédia americana, precisamente no ano em que os grandes americanos parecem estar a faltar à chamada. Como quem diz: já que eles não vêm, fazemos nós o serviço, mas com melhores diálogos e menos testosterona.
Crença, amor e… um certo nervosismo
Também Pierre Salvadori, naturalmente radiante, ajudou a pôr a escolha em registo de declaração amorosa. “Cannes celebra tudo o que eu amo no cinema”, disse o realizador, citando “a encenação, a ousadia, a liberdade e os autores”, acrescentando ainda que o seu filme carrega “toda a crença e todo o amor” que tem pela profissão e que está “tão orgulhoso e feliz” por ver o filme abrir o festival. A frase é bonita, sincera e até comovente, mas também encaixa como uma luva no momento político-cinematográfico da Croisette: menos pirotecnia industrial, mais religião de autor. Menos “vejam o nosso produto”, mais “acreditem ainda no cinema”. É comovente, sim. Mas também revela uma certa necessidade defensiva. Quando se fala tanto em crença, em amor, em liberdade e em missão, é porque alguém, algures, já percebeu que o mercado está a tremer.
Frémaux, o diplomata do apocalipse elegante
E é aqui que entra Thierry Frémaux, esse grande poeta da diplomacia festivaleira, o homem que consegue falar de crise com o tom de quem apresenta um bom vinho da Borgonha. Na longa entrevista à Variety, Frémaux reconhece que o cinema atravessa um período de “grande fragilidade”, entre a crise da exibição em sala, a mudança de hábitos das novas gerações, a omnipresença de outros ecrãs, as fusões nos estúdios americanos, a pirataria e até a inteligência artificial, que ele chega a descrever como podendo ser “uma outra forma de pirataria”. É uma formulação brilhante, meio apocalíptica, meio paternal, como se dissesse: o mundo está a arder, os miúdos já não sabem sentar-se numa sala escura, os estúdios andam aos caixotes, as máquinas estão a aprender a imitar-nos, mas nós ainda temos Cannes.

Frémaux insiste que não há razão para pessimismo e garante que haverá filmes americanos na Croisette, mesmo sem um “Top Gun” ou um “Missão: Impossível” no horizonte. Diz ainda que os estúdios vêm quando consideram que Cannes lhes é útil, e admite, com uma franqueza rara, que hoje produzem menos blockbusters e menos cinema de autor do que antes. Pelo caminho, confirma que “Digger”, de Alejandro González Iñárritu com Tom Cruise, e “The Odyssey”, de Christopher Nolan, não estarão prontos; quanto a “Disclosure Day”, de Steven Spielberg, remete tudo para “muitos factores estratégicos”, incluindo calendário e estratégia de lançamento. Em bom português: não foi Cannes que lhes fechou a porta; foram eles que acharam que não compensava entrar.
Uma abertura francesa com sabor a manifesto
É por isso que a escolha de “La Vénus électrique” vale mais do que parece. Não é apenas um filme de abertura; é quase uma declaração estética e geopolítica. Cannes abre com um título francês, produzido por Philippe Martin e Les Films Pelléas, distribuído pela Diaphana, pensado para ser lançado no mesmo dia nas salas francesas, com retransmissão da cerimónia pela France Télévisions e pela Brut, e com mobilização da Federação Nacional dos Cinemas Franceses para fazer do arranque do festival um verdadeiro evento nacional. Isto não é apenas cinema: é política cultural com verniz de gala. É França a dizer, com a elegância de quem nunca levanta muito a voz, que ainda leva a sério a ideia de cinema como arte, indústria, exibição pública e ritual colectivo. E convenhamos: há aqui qualquer coisa de deliciosamente francês em responder à rarefação de Hollywood com uma comédia romântica passada na Paris de 1928, povoada por pintores, galeristas, vigaristas sentimentais, falsas médiuns e um cheiro geral a espiritismo, boémia e artifício. Enquanto os americanos tratam calendários, sinergias, janelas de lançamento e relatórios de risco como se estivessem a desactivar uma bomba, os franceses dizem: muito bem, nós abrimos com uma farsazinha melancólica sobre mentira, luto, desejo e impostura. E fazem-no com Pio Marmaï, Anaïs Demoustier, Gilles Lellouche, Vimala Pons e Gustave Kervern, nomes sólidos, queridos do público e da crítica, ainda que incapazes, coitados, de provocar o mesmo frenesim planetário de um Brad Pitt a pôr óculos escuros num iate.
Cannes sem Hollywood: escolha ou necessidade?
Isto reforça, então, a tese da “dieta americana”? Em parte, sim. Não porque um filme francês de abertura seja, por si só, novidade escandalosa — Cannes sempre foi também isto —, mas porque o contexto o torna eloquente. Se este anúncio tivesse surgido num ano cheio de estreias de Spielberg, Nolan, PTA, Iñárritu e mais duas ou três máquinas de estúdio prontas a incendiar a Croisette, seria lido apenas como uma bela escolha nacional-popular. Neste contexto, porém, “La Vénus électrique” parece quase a resposta educada do festival a uma ausência que não quer dramatizar demasiado. É como servir uma tarte tatin impecável quando os convidados mais mediáticos cancelaram à última hora: continua a ser um grande jantar, claro, mas toda a gente percebe que houve desistências na lista.

A ironia maior é esta: Frémaux repete que Cannes “não depende de nada além dos filmes”, mas passa boa parte da entrevista a explicar a relação com Hollywood, a defender o interesse dos estúdios em Cannes, a elogiar os benefícios simbólicos e comerciais da Croisette e a lembrar aos produtores americanos que uma passagem pelo festival pode ampliar a vida de um filme, tanto em bilheteira como nos Óscares. Tem razão, aliás. Os filmes de Cannes continuam a circular melhor no mercado americano e a aparecer cada vez mais em categorias importantes da Academia. Só que, quando um homem passa meia hora a garantir que não precisa de alguém, geralmente é porque pensou muito nesse alguém. Cannes não está dependente de Hollywood, mas claramente não é indiferente à sua ausência.
Menos Hollywood, mais fé (e talvez mais verdade)
Talvez seja isso que torne esta edição do Festival de Cannes 2026 particularmente interessante. Em vez da velha narrativa do festival como passerelle do império americano com legendas europeias, 2026 pode tornar-se o ano em que Cannes reforça um outro lado da sua identidade: o de grande máquina de legitimação internacional, sim, mas ancorada numa ideia francesa e europeia de cinema, de sala, de prestígio cultural e de resistência simbólica. “La Vénus électrique” encaixa nessa lógica com uma precisão quase matemática. É cinema de autor acessível, é comédia, é reconstituição de época, é cinefilia popular, é defesa da sala e é também uma forma subtil de dizer que a festa continua, mesmo sem os primos barulhentos da América. A questão é saber se o público global, os jornalistas, os distribuidores e os algoritmos partilham o mesmo entusiasmo. No fim de contas, pode até ser que esta abertura francesa não denuncie fraqueza nenhuma, mas antes uma espécie de contra-ataque elegante. Quando Hollywood abranda, Cannes responde com convicção, charme e um filme sobre a arte da impostura. O que, pensando bem, não deixa de ser apropriado para um festival que vive há décadas entre a fé absoluta no cinema e a encenação muito calculada dessa fé. E talvez seja isso o mais divertido nesta história toda: num ano em que toda a gente discute a ausência das grandes produções norte-americanas, Cannes abre precisamente com um filme sobre aparências, manipulações, fantasmas e sentimentos que se confundem com truques. Parece piada escrita pelo destino ou por um assessor de imprensa francês particularmente inspirado. Para já resta-nos esperar pela próxima quinta, 9 de abril para o anúncio da Selecção Oficial 2026.
JVM

