Projecto Global, a Crítica
Estreia no próximo dia 23 de abril nos cinemas portugueses o novo filme de Ivo M. Ferreira “Projecto Global” (2026). O filme chega até nós após ter estreado no Festival de Cinema de Roterdão em janeiro e depois de ter tido uma sessão especial na nova sala da NOS dedicada ao cinema português no Centro Comercial Amoreiras.
Trata-se de um drama de época cuja ação decorre no início dos anos 1980 e é um retrato das FP-25 (Forças Populares 25 de Abril).
Qual a narrativa de Projecto Global?
O novo filme de Ivo M. Ferreira – realizador, entre outros, de “Cartas da Guerra” (2016) e “Hotel Império” (2018) pretende ser o primeiro retrato sobre as FP-25 (Forças Populares 25 de Abril).
“Projecto Global” é, assim, um filme ‘quente’ que pega no pós-Revolução do 25 de Abril, numa espécie de PREC (Processo Revolucionário em Curso) tardio, como, aliás, uma das personagens do filme reflete.
Se estás à espera de ver um retrato fiel e verídico das FP-25 não vale a pena ires com essa expectativa porque sairás defraudado. As FP-25 foram – como é do conhecimento comum – um grupo muito polémico e onde existem muitas dúvidas sobre os seus membros (desde logo, a dúvida que sempre pairou sobre o envolvimento ou não de Otelo Saraiva de Carvalho que, obviamente, não é mencionado).
“Projecto Global” pega, assim, em personagens concretas e ficcionais para nos dar um retrato quente e próximo – espiritual até – do que foram as FP-25. Desde logo, a protagonista Rosa (numa brilhante e exímia interpretação de Jani Zhao) que carrega todo o filme ‘às costas’. À volta de Rosa temos ainda o seu marido Queiroz (Isac Graça), o seu amigo Jaime (Rodrigo Tomás) e ainda o ‘chefe’ transitório Capitão (Hugo Bentes).
Um filme rápido e tenso

Se ainda és daqueles que acredita no ‘cliché’ do cinema português parado e lento, “Projecto Global” vai ser uma bela surpresa. É claro que o contexto histórico do mesmo também influencia muito a própria adrenalina da narrativa.
Arrisco-me a dizer – apesar de ainda estarmos em abril – que “Projecto Global” pode vir a ser um dos melhores filmes portugueses de 2026. Mete o dedo na ferida de um conturbado período, com um ritmo quase sempre frenético, sem criar grandes juízos de valor. Poderei mesmo afirmar que traz uma mensagem universal de luta pela liberdade mesmo que, neste âmbito, as FP-25 fossem, muitas vezes, para lá dos limites razoáveis.
O argumento e o contexto de Projecto Global

O facto de “Projecto Global” ser um filme que mostra os dois lados (as FP-25 e a polícia que os cercava), faz com que tenha um equilíbrio ainda melhor e mais interessante. Porque ninguém “é uma pirâmide” como diz a certa altura o jornalista interpretado por Adriano Luz. E “Projecto Global” é sempre um filme tenso. Sabemos que grande parte destas personagens estão condenadas à morte. Contudo, sofremos com elas. Especialmente considerando o suspense que sentimos em várias cenas do filme sendo o funeral de Capitão, quiçá, o momento-alto de suspense na longa-metragem. No entanto, a tensão entre Rosa e Marlow (José Pimentão) é igualmente um ponto alto deste argumento e da construção da narrativa e personagens.
É um filme onde não se sentem praticamente falhas nenhumas e a época de 1980-1986 está presente no filme (ainda que, por exemplo, me tenha apercebido de um anacronismo com um poste da Carris Metropolitana num breve plano do filme que terá passado despercebido à equipa de pós-produção). A única ‘falha’ que se pode dizer que “Projecto Global” tem é o facto de não pensar verdadeiramente no espectador não-português que não conheça este contexto histórico. Afinal, as FP-25 não são a mesma coisa que a Revolução dos Cravos… A sua divulgação internacional é muito mais reduzida. Assim, o facto de só no final do filme aparecer o contexto histórico é um fator negativo. Sim, é uma ficção, mas é inspirada em acontecimentos reais. Muito embora o filme tenha uma linguagem / tratamento universal da narrativa, o assunto não é 100% universal…
A técnica de Projecto Global

Do ponto de vista técnico não há propriamente falhas relevantes a apresentar. Há, até, características a elogiar (sobretudo, no som). O som de “Projecto Global” tem um forte tratamento dramático que o torna muito mais poderoso. Destaco, por exemplo, a cena em que Rosa pede para abandonar as FP-25 e o som da chuva traz toda uma tensão que se cruza com o sentimento da personagem. A chuva marca uma reviravolta em Rosa.
Do mesmo modo, também a cena em que Capitão está às portas da morte é muito bem trabalhada do ponto de vista do tempo e da montagem. Ficamos ‘presos’ com a personagem que tem o seu destino já traçado.
“Projecto Global” é, em certa medida, um épico português onde nos identificamos diretamente com estas personagens. Isto mesmo que possamos não concordar em absoluto com as suas ações. “Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição” diz-se a certa altura no filme. Pois bem, se calhar, precisamos mesmo deste “Projecto Global” para acordarmos sobre o mundo negro que nos rodeia… Sejamos revolucionários com a liberdade e a democracia.
Projecto Global
Conclusão
- “Projecto Global” é um filme eletrizante que pretende ser um retrato das FP-25 (Forças Populares 25 de Abril).
- É uma obra coesa e bem conseguida, quer do ponto de vista técnico, quer do ponto de vista de reconstrução de época.
- Sendo um retrato ficcional, convivemos com estas personagens e vivenciamos as suas emoções, apesar de muitas delas estarem condenadas à partida.

