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“O Diabo Veste Prada 2”: O Jornalismo Morreu, Mas Ao Menos Veio Bem Vestido

Miranda Priestly regressa vinte anos depois em “O Diabo Veste Prada 2” para descobrir que a moda continua cruel, os jornalistas continuam precários e a imprensa escrita passou de quarto poder a conteúdo optimizado para morrer com bom SEO.

“O Diabo Veste Prada 2” chega com aquele perfume perigoso das sequelas tardias: metade nostalgia, metade operação financeira, metade reencontro sentimental, e sim, eu sei que já vão três metades, mas estamos a falar de Hollywood, onde a matemática sempre foi menos importante do que a bilheteira. David Frankel volta à realização, Aline Brosh McKenna ao argumento, e regressam Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci, acompanhados por nomes como Kenneth Branagh, Justin Theroux, Lucy Liu, Simone Ashley, Caleb Hearon, Helen J. Shen, Pauline Chalamet, B.J. Novak, Conrad Ricamora e Tracie Thoms. A estreia nos cinemas está marcada para amanhã.

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Agora o Diabo veste Excel

Mas o essencial não está apenas no regresso das personagens de Miranda Priestly, Andy Sachs, Emily Charlton e Nigel. O essencial está naquilo que o filme parece perceber muito bem: vinte anos depois, o inferno mudou de roupa. Em 2006, o inferno era uma revista de moda, uma chefe glacial, duas assistentes aterrorizadas, cafés impossíveis, casacos atirados para cima da secretária e a ideia — hoje quase enternecedora — de que uma jovem jornalista podia vender temporariamente a alma para aprender alguma coisa sobre poder, ambição e sapatos. Em 2026, o inferno tem Wi-Fi, investidores, relatórios de tráfego, inteligência artificial, despedimentos por mensagem e uma expressão muito moderna para justificar tudo: “reestruturação estratégica”. Antigamente, o diabo vestia Prada. Agora também usa Excel.

O DIabo Veste Prada 2
Miranda Priestly, Andy Sachs, Emily Charlton e Nigel confromta-se novamente em “O Diabo Veste Prada 2”. ©20th Century Fox/NOS Audiovisuais

A premissa é deliciosa porque troca as cadeiras sem deitar fora a mobília. Andy Sachs (Hathaway), já adulta, experiente e jornalista respeitada, regressa à “Runway” num momento em que Miranda (Streep) tenta sobreviver à crise da imprensa de moda e à erosão do velho poder editorial. Emily Charlton (Blunt), antes assistente magra, faminta, nervosa e maravilhosamente venenosa, aparece agora como uma figura poderosa do luxo, capaz de conseguir o dinheiro de que a revista precisa para continuar viva. Ou seja: a antiga funcionária sacrificada no altar da ambição tornou-se aquilo que todos os assistentes sonham ser quando estão a mandar e-mails às três da manhã: alguém que, um dia, pode comprar o edifício onde antes chorava na casa de banho e, com sorte, roubar o lugar à chefe.

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A redacção foi despedida, mas com muita elegância

O filme acerta particularmente quando coloca Andy no centro da crise da imprensa. Ela já não é a rapariga ingénua que queria ser jornalista como quem queria salvar o mundo com uma caneta, uma bolsa de estágio miserável e uma fé absurda na importância das palavras. Agora conhece o sistema: as redacções emagrecidas, os jornais sem memória, as revistas transformadas em marcas, os editores substituídos por gestores, os repórteres tratados como custos e aquela maravilhosa linguagem corporativa que consegue despedir uma pessoa por SMS enquanto lhe agradece “o contributo extraordinário”. É a humanização do despedimento em versão template. 

Com emojis, se for uma empresa moderna.

E há poucas imagens mais violentas, mesmo dentro de uma comédia, do que ver jornalistas a serem descartados no momento exacto em que são premiados. Aplaude-se a excelência, entrega-se uma placa comemorativa, talvez haja espumante morno e croquetes tristes, e logo a seguir chega a mensagem: acabou. Obrigado. Boa sorte. Levem as plantas, os cadernos, o arquivo, a vocação e essa mania antiquada de confirmar factos antes de publicar. A empresa continua muito comprometida com o jornalismo. Só não está particularmente interessada em pagar a jornalistas.

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VÊ TRAILER DE “O DIABO VESTE PRADA 2”

É por isso que “O Diabo Veste Prada 2” funciona melhor quando deixa de ser apenas uma sequela de moda e se transforma numa comédia amarga sobre a crise da imprensa. Porque a “Runway”, que no primeiro filme parecia um império cruel mas sólido, aparece agora como uma rainha velha a tentar não vender o palácio aos investidores. Miranda continua a mandar, claro. Mas já não manda como antes. A autoridade editorial foi substituída por métricas. O gosto, por dados. A intuição, por apresentações de PowerPoint. O olhar de Miranda, por relatórios com gráficos coloridos feitos por alguém que provavelmente nunca abriu uma revista até ao fim, mas sabe dizer “engagement” com muita convicção.

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A editora já não é imperatriz

E aqui Meryl Streep continua a ser uma força da natureza. Miranda Priestly nunca foi apenas uma caricatura de Anna Wintour, embora a sombra da antiga todo-poderosa directora da “Vogue” continue lá, elegantíssima, fria, de óculos escuros e com capacidade para fazer uma sala inteira pedir desculpa por existir. Miranda é mais do que isso: é a editora como imperatriz, a revista como tribunal, a capa como sentença. Vem de um mundo em que o poder cultural era vertical: alguém escolhia, alguém filtrava, alguém decidia. Hoje, esse poder está espalhado por posts, vídeos virais, influencers, marcas, celebridades, algoritmos e adolescentes com ring light que explicam Balenciaga em 12 segundos enquanto os jornalistas tentam perceber onde deixaram a dignidade.

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Meryl Streep e Anne Hathaway
O regresso das personagens de Miranda Priestly (Streep), Andy Sachs (Hathaway). ©20th Century Fox/NOS Audiovisuais

Durante décadas, as revistas de moda foram máquinas de sonho, exclusão, desejo e consagração. A “Vogue”, a “Harper’s Bazaar”, a “Elle”, a “Vanity Fair”, a “GQ”: cada uma tinha um mundo, uma gramática, uma arrogância própria. Podíamos — e devíamos — criticá-las pelo elitismo, pelos corpos impossíveis que apresentavam, pela reverência perante o luxo, pela capacidade extraordinária de transformar uma mala num acontecimento civilizacional. Mas havia uma arquitectura. Uma edição era pensada, fotografada, paginada, defendida. Hoje, muitas revistas são marcas em estado líquido: site, Instagram, TikTok, YouTube, eventos, galas, listas, vídeos de bastidores, cápsulas, colaborações, newsletters e, talvez, se sobrar tempo entre duas parcerias comerciais, uma peça bem escrita.

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O império das marcas de luxo

O filme percebe essa mudança: as marcas de luxo deixaram de depender humildemente das revistas para serem legitimadas. Agora têm os seus próprios impérios, os seus próprios canais, as suas próprias celebridades, os seus próprios públicos e, sobretudo, o seu próprio dinheiro. A velha editora que antes decidia quem entrava no templo tem agora de negociar com quem paga a luz do templo. É uma inversão cruel e muito moderna: a imprensa deixou de vender influência e passou a pedir financiamento a quem antes precisava dela para parecer importante.

Meryl Streep in O Diabo Veste Prada (2006)
Meryl Streep in O Diabo Veste Prada (2006). ©20th Century Fox/NOS Audiovisuais

Depois há a inteligência artificial, essa estagiária universal que nunca dorme, nunca almoça, nunca pede férias, nunca se sindicaliza e nunca pergunta se pode assinar o texto. Promete eficiência, títulos, resumos, SEO, traduções, transcrições, relatórios e aquele milagre supremo: fazer mais com menos, que é a forma elegante de dizer “despedimos cinco pessoas e comprámos uma licença mensal”. A IA pode ajudar, claro. Mas quando começa a substituir critério, experiência, dúvida, presença, responsabilidade e mundo, deixa de ser ferramenta e passa a ser tesoura.

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O Diabo Veste Prada 2
Meryl Streep na sua Miranda Priestly, parece não envelhecer, mas está mais dócil e conformada.  ©20th Century Fox/NOS Audiovisuais

Uma máquina pode escrever sobre um desfile. Mas esteve lá? Sentiu o ridículo? Percebeu que a celebridade da primeira fila estava a olhar mais para o telemóvel do que para a roupa? Reparou no silêncio embaraçoso depois do aplauso? Teve vergonha? Teve graça? Teve vida? É aqui que Andy pode fazer sentido dentro da “Runway”: não como relíquia romântica do jornalismo de papel, mas como alguém que lembra que uma publicação só sobrevive se tiver alguma coisa para dizer. Não basta brilho. Não basta roupa. Não basta celebridade. Não basta uma capa bonita e um vídeo com boa luz. É preciso reportagem, contexto, nervo, escrita, incómodo. É preciso perguntar. E, hoje, perguntar tornou-se quase um acto subversivo, sobretudo num mundo onde toda a gente responde antes de saber.

Miranda, Andy e o último fecho de edição

O filme, pelo que se percebe, nem sempre tem coragem para morder tão fundo como promete. Há nostalgia, há piscadelas de olho, há frases feitas para circular nas redes sociais, há o prazer óbvio de rever Stanley Tucci — que devia ser obrigatório por lei em todos os filmes, mesmo nos de submarinos —, há Emily Blunt com a sua capacidade magnífica de transformar uma vírgula em agressão diplomática, e há Anne Hathaway a regressar ao lugar onde aprendeu que a inocência não paga renda. Há ainda participações e cameos que transformam tudo numa espécie de Met Gala com argumento. Lady Gaga surge associada ao filme e à canção “Runway”, com Doechii; Heidi Klum regressa em cameo; e David Frankel revelou que houve mesmo uma tentativa de participação de Anna Wintour que acabou cortada porque a própria falhou a deixa e ele não teve coragem de pedir nova repetição, o que, convenhamos, é talvez a história mais “Diabo Veste Prada” de todas. Nem a ficção se atreveria a inventar melhor. Anna Wintour falha uma deixa e ninguém ousa dizer: “Mais uma, por favor.” Isto não é cinema. É teologia. Apesar da máquina de nostalgia, o filme levanta uma pergunta séria: o que resta da imprensa quando deixa de ser uma missão editorial e passa a ser uma linha no Excel? A crise não é apenas económica. É moral, cultural e democrática. Quando se despede um jornalista, não se corta só uma despesa. Corta-se memória, verificação, incómodo, contexto. Corta-se alguém que fazia perguntas. E as sociedades onde já quase ninguém faz perguntas costumam acabar muito satisfeitas consigo próprias, mas pessimamente informadas.

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Uma elegia tragicómica da imprensa

Por isso, “O Diabo Veste Prada 2” pode ser visto como uma comédia de moda, um regresso nostálgico, uma montra de estrelas, roupa e veneno. Mas também pode ser lido como uma elegia tragicómica da imprensa: uma missa de sétimo dia com sapatos de salto alto, vermelhos e caríssimos. O papel já não manda como mandava, as revistas perderam o trono, os jornais perderam leitores, dinheiro, prestígio e, muitas vezes, coragem. Ainda assim, talvez haja qualquer coisa a salvar. Não o romantismo bafiento das redacções cheias de fumo, machismo, telefones fixos sempre a tocar e cinzeiros onde também se apagavam carreiras. Mas a ideia de que a imprensa existe para olhar melhor, perguntar melhor, escrever melhor e incomodar mais.

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Andy Sachs (Hathaway), já adulta, experiente e jornalista respeitada, regressa à “Runway”. @20th Century Fox/Nos Audiovisuais

No fim, Miranda e Andy talvez tenham mais em comum do que parecia. Uma acredita no poder da edição, da imagem, do gosto e da autoridade. A outra acredita na reportagem, na palavra e no mundo para lá dos gabinetes e das redacções. Entre as duas pode nascer uma revista que não seja apenas superfície nem sermão, mas uma forma de olhar para o presente com beleza, inteligência e dentes. A imprensa morreu? Talvez não. Talvez esteja por agora apenas mal vestida, mal paga, maltratada e à espera que alguém lhe devolva orçamento, coluna vertebral e uma boa primeira página. Miranda Priestly voltou. Andy Sachs também. A “Runway” tenta sobreviver. E nós continuamos aqui, a escrever, a ler, a duvidar, a rir e a fingir — alguns de nós já nem isso — que não trememos quando chega uma mensagem de despedimento do patrão.

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JVM


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