Festival de Cannes 2026 | Espanha Joga a Titular na Selecção Oficial, Portugal Vai ao Torneio de Juniores
Temos felizmente duas curtas-metragens na Seleção Oficial do Festival de Cannes 2026, o que é bom e respeitável. Só não convém fingir que isso tapa o buraco maior: zero longas portuguesas nas grandes ligas de Cannes, enquanto Espanha aparece com três filmes na Competição e a pose tranquila de quem já sabe jogar em pleno este campeonato. Espera-se no entanto, que nos próximos dias irão ser anunciadas mais longas-metragens a concurso e fora de competição mas arrisco, nada de cinema português.
Deixem-me começar pelo futebol, que sou de facto um grande adepto, quase tanto como do cinema. Desculpem-me os artistas, mas um homem não é perfeito, e em ano de Mundial há sempre qualquer coisa de especialmente deliciosa em transformar o Festival de Cannes 2026 numa espécie de clássico ibérico com árbitro francês, bancada internacional e comentários em várias línguas. Mas já lá vamos. E, já agora, convêm lembrar que Cannes até parece ter querido entrar também nesta conversa futebolística. A programação oficial inclui pelo menos dois filmes ou melhor dois documentários ligados ao futebol: “The Match”, de Juan Cabral e Santiago Franco, na secção Cannes Premiere, e “Cantona”, de David Tryhorn e Ben Nicholas, nos Special Screenings. Ou seja, Cannes este ano tem bola, tem Maradona, tem Eric Cantona, tem mitologia futebolística, tem a “Mão de Deus”, tem Inglaterra-Argentina de 1986 e tem o velho cheiro épico da Guerra das Malvinas a pairar sobre um relvado ecrânico. O que não tem, por enquanto, é uma longa portuguesa nos lugares onde o prestígio se transforma em capital internacional.

Porém, o Festival de Cannes 2026, logo em maio, antes de a bola começar a sério em junho, já nos serviu uma espécie de dérbi cinematográfico, com a Espanha a entrar em campo, ou melhor na Croisette, com três longas na Competição Oficial, enquanto Portugal não leva nenhuma. E nós ficamos outra vez a tentar perceber se isto é apenas azar de calendário, capricho curatorial ou o retrato persistente de um país onde o talento cinematográfico continua a jogar muito acima daquilo que o sistema lhe permite. Convém, no entanto, corrigir desde já uma coisa importante: Portugal não está ausente do Festival de Cannes 2026. Está, isso sim, representado na Seleção Oficial de curtas-metragens e na La Cinef, e aí surgem dois nomes portugueses: Daniel Soares, na Competição de Curtas, com “Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio”, e Clara Vieira, na La Cinef — secção dedicada a filmes de escolas de cinema —, com “Onde Nascem os Pirilampos”, filme da ESTC — Escola Superior de Teatro e Cinema. Portanto, há presença portuguesa, e ainda por cima numa zona do festival que costuma funcionar como radar de futuro, o que não é nada despiciendo. Só que, convenhamos, uma coisa é dizer que Portugal está em Cannes; outra, bem diferente, é fazer de conta que duas curtas-metragens resolvem o problema político, simbólico e industrial da ausência de longas portuguesas nas secções que verdadeiramente definem a temperatura cinematográfica de um país.
Dois portugueses em Cannes, mas não onde a fotografia conta mais
A diferença é essa no Festival de Cannes 2026. Portugal aparece, sim, mas aparece no campeonato júnior do festival, no território das promessas, da formação, do “vamos acompanhando”. Espanha aparece na montra principal, no relvado onde se distribuem manchetes, vendas internacionais, capas de revistas, passadeiras vermelhas, conversas de mercado e legitimação imediata. Na Seleção Oficial de 9 de abril, o Festival de Cannes 2026 anunciou para já 21 filmes na Competição — nos próximos dias parece que vão anunciar mais — e nenhum deles é português. “Amarga Navidad” (Pedro Almodóvar), “La Bola Negra” (Javier Calvo e Javier Ambrossi) e “El Ser Querido” (Rodrigo Sorogoyen) estão lá por Espanha; Portugal, nem na Competição, nem em Un Certain Regard, nem nas outras secções paralelas de longas e curtas anunciadas depois dessa data (Quinzena dos Cineastas, Semana da Crítica e L’Acid). E isto, por muito que se tente dourar a coisa, continua a ser um resultado pesado.

Portanto, se quisermos ser rigorosos — e convém ser —, o marcador no já não é 3-0 seco. Agora, o placard real do Festival de Cannes 2026 seria qualquer coisa como Espanha 3, Portugal 2. Mas com uma nota de rodapé muito importante: os três golos espanhóis foram marcados na primeira divisão, e os dois portugueses aconteceram num campeonato paralelo de juniores, respeitável, necessário, até entusiasmante, mas que não tem o mesmo peso. É a diferença entre estar no onze titular da final da Champions e aparecer muito bem no Europeu de sub-21. Ninguém despreza o segundo caso, mas também não convém confundi-lo com o primeiro. E é aqui que a conversa começa realmente a doer. Porque uma coisa é um país ter jovens cineastas-autores em ascensão, curtas fortes, escolas ainda capazes de produzir talento e cineastas a entrar no radar internacional. Isso Portugal tem. Outra é conseguir converter essa energia em longas-metragens consistentes, com circulação forte, acabamento competitivo, estratégia internacional sólida e presença recorrente na elite do festival de cinema mais importante do mundo. E aí a distância para Espanha continua a ser evidente.
O momento espanhol não nasceu por geração espontânea
Posto de forma simples: o cinema espanhol está a viver um momento de força. Não digo isto por patriotismo emprestado à outra margem da fronteira, mas porque os factos estão à vista. Depois do impacto de “Sirât” em 2025, Espanha volta ao Festival de Cannes 2026 com três longas na Competição, e não três longas quaisquer. Volta com Almodóvar, que é um clássico vivo do cinema europeu; com Sorogoyen, que consolidou uma assinatura autoral musculada, nervosa e exportável; e com os Javis, que conseguiram fazer a travessia, raríssima, entre cultura pop, televisão, melodrama queer e prestígio cinematográfico sem perder a identidade pelo caminho. A própria composição da competição de 2026, dominada por autores reconhecidos e por uma forte aposta em cinema de autor internacional, favorece justamente países e cineastas que já entram em Cannes com reputação montada e sistema por trás. Almodóvar, claro, não entra só porque se chama Almodóvar, embora isso ajude como um cartão black ajuda numa sala VIP. Entra porque é um autor de escala mundial, com distribuição, crítica, história e mercado. Sorogoyen já não é promessa nenhuma: é um nome estabelecido, com cinema e televisão, nervo formal, reconhecimento crítico e prestígio doméstico. E os Javis são talvez o exemplo mais interessante dos três, porque mostram uma coisa que em Portugal continua a parecer quase heresia: é possível vir da televisão, do fenómeno popular, da cultura queer, do excesso pop, e ainda assim chegar ao altar máximo da legitimação cinéfila sem hesitações dos programadores ou curadores.
VÊ TRAILER DO FESTIVAL DE CANNES 2026
Portugal tem talento mas continua sem sistema táctico
Portugal, pelo contrário, continua a ter um cinema singular, talentoso, autoral e muito mais respeitado lá fora do que muitos espectadores portugueses gostam de admitir. O problema é que continua a não ter, de forma consistente, uma verdadeira indústria cinematográfica. Tem autores. Tem obra. Tem prestígio crítico. Tem até um certo fascínio exótico junto de alguma crítica internacional, sobretudo francesa e italiana. O que não tem é volume, regularidade, escala e capacidade de converter excepções brilhantes em sistema estável. Quando aparece um Miguel Gomes — e “Grand Tour” ganhou mesmo o prémio de Melhor Realização em Cannes em 2024 —, ou quando um Pedro Pinho, uma Teresa Villaverde, um Pedro Costa, um João Pedro Rodrigues ou um João Salaviza — não esquecer o malogrado João Canijo — entram no circuito dos grandes festivais, o país entusiasma-se, enche o peito, cita o Libération, o Le Monde, os Cahiers du Cinéma, a La Repubblica, faz-se aquela pose entre a elegância pobre e a auto-estima tardia, e depois regressa-se ao costume: produção intermitente, pouca co-produção internacional, financiamento frágil, distribuição escassa, pouquíssima ligação orgânica ao público e uma dificuldade estrutural em transformar talento em continuidade.

É por isso que as duas seleções portuguesas agora anunciadas para o Festival de Cannes 2026 devem ser celebradas sem ingenuidade. O realizador e fotógrafo Daniel Soares — que nasceu na Alemanha e reside actualmente em Nova Iorque nos EUA — regressa à Competição de Curtas de Cannes, depois de “Bad For A Moment” (2024), e confirma-se como um dos nomes mais interessantes da nova geração. A jovem Clara Vieira entra na La Cinef pela ESTC, o que também diz qualquer coisa de útil sobre a persistência de algum talento emergente e sobre o papel das escolas e do ensino do cinema em Portugal, sendo que já não é a primeira vez que uma curta é selecionada para a La Cinef: “O Pássaro de Dentro” (2025), de Laura Anahory, e “Mistida” (2002), de Falcão Nhaga. Tudo isso é bom. Tudo isso merece atenção. Mas tudo isso também reforça, ironicamente, a pergunta maior: se Portugal continua a formar, a produzir e a revelar jovens cineastas, porque raio é que essa energia aparece tantas vezes bloqueada quando chega o momento de competir em longa-metragem ao mais alto nível?
O cinema português chega quase sempre em esforço
Convém também meter algum gelo na velha tentação portuguesa de transformar cada ausência num manifesto moral. Cannes não distribui lugares por compensação afectiva. Não há quota ibérica, nem sorteio entre melancólicos. A seleção depende do estado dos filmes, do momento dos autores, da vontade curatorial, da geopolítica do prestígio e, claro, das famosas engrenagens invisíveis: co-produções francesas, agentes de vendas, distribuidores, redes de confiança, relações acumuladas. O festival é cinema, sim, mas também é mercado, diplomacia cultural, hierarquia informal e poder. E aí a França continua a mandar muito mais do que aquela conversa romântica sobre “o melhor filme vence” gosta de admitir. MK2, Goodfellas, The Match Factory, co-produções certas, alianças certas, circulação certa: tudo isso conta e vai voltar a contar no Festival de Cannes 2026. Talvez conte até mais do que muitos realizadores gostam de dizer em voz alta. Mas a verdade é esta: mesmo sabendo tudo isso, Portugal continua a chegar demasiadas vezes a Cannes em esforço. Em esforço financeiro, em esforço logístico, em esforço promocional, em esforço quase ontológico. Como aquele clube simpático de meio da tabela, que de vez em quando surpreende na Europa, mas continua sem orçamento, sem banco e sem relvado digno. Espanha, pelo contrário, já não chega em esforço. Chega com máquina, com rotação, com repertório e com capacidade de jogar em várias frentes ao mesmo tempo.

Entre o festival e o público, continuamos com o mesmo fosso
Depois há a questão do costume, aquela que em Portugal irrita muita gente, mas ninguém consegue resolver: a relação entre cinema e público. Ou, mais exactamente, a falta dela. O cinema português continua esmagado entre dois fantasmas. De um lado, a suspeita de existir sobretudo para festivais, críticas elogiosas e pequenos círculos de consagração. Do outro, a tentação de, quando quer comunicar com mais gente, cair na comédia frouxa, na televisão alargada ou no humor de sketch esticado a metro e meio. Entretanto, Espanha foi fazendo outra coisa: foi construindo pontes. Entre cinema de autor e televisão. Entre prestígio e popularidade. Entre festival e mercado interno. Entre a cultura pop e a legitimação crítica. Almodóvar é visto pelo público e amado pelos festivais. Sorogoyen faz thrillers, dramas, séries e cinema de autor sem se preocupar com rótulos e sem preconceitos ideológicos. Os Javis saem das séries de televisão “Paquita Salas” ou “Veneno”, da cultura queer e do melodrama televisivo, e aparecem agora na Competição Oficial do Festival de Cannes 2026 sem que ninguém lhes peça para renegar o percurso. Isso, para um país, chama-se maturidade do sistema. Em Portugal ainda se olha demasiado para estas travessias como se fossem traições ideológicas ao cinema de autor. Como se trabalhar para televisão, comunicar com o público ou tocar géneros mais populares fosse uma espécie de pecado de classe dentro da cinefilia nacional. E enquanto esse preconceito meio bafiento continuar a mandar mais do que a curiosidade, vamos continuar a ter talento a mais a circular num sistema pequeno demais.
JVM

