O japonês Hirokazu Kore-eda em “Sheep in the Box” mete um filho-robô dentro de uma família e a francesa Jeanne Herry em “Garance”, entrega Adèle Exarchopoulos aos copos, ao palco e ao amor possível.
Hirokazu Kore-eda, esse grande especialista mundial em crianças perdidas, pais confundidos, mães em culpa e famílias que parecem montadas com peças sobrantes de outras famílias, trouxe “Sheep in the Box”, uma fábula japonesa de ficção científica com coração de melodrama doméstico. Do outro a francesa, Jeanne Herry apresentou “Garance”, retrato de uma actriz alcoólica, instável, intensa, às vezes luminosa, às vezes em queda livre, interpretada por uma Adèle Exarchopoulos num daqueles papéis em que uma actriz parece estar a trabalhar sem rede, sem maquilhagem emocional e sem seguro contra acidentes interiores e emocionais.
São dois filmes muito diferentes, mas ambos olham para pessoas que tentam substituir aquilo que perderam. Em Kore-eda, uns pais recebem uma réplica andróide do filho morto. Em Jeanne Herry, uma mulher tenta substituir o vazio com vinho branco, festas, teatro, sexo, amizade, amor e, quando tudo falha, mais vinho branco.
O filho que veio numa caixa
“Sheep in the Box” parte de uma ideia que podia ter saído de Spielberg, de um episódio melancólico de “Black Mirror” ou de uma reunião de investidores demasiado entusiasmados com inteligência artificial: num futuro próximo, um casal que perdeu o filho de sete anos aceita receber uma cópia robótica da criança. A empresa chama-se ReBirth — porque nestas empresas tecnológicas ninguém sabe vender desgraça sem lhe pôr um nome refinado para ricos — e promete devolver aos pais aquilo que a morte levou. Ou pelo menos uma imitação muito convincente.

Kore-eda, que já ganhou a Palma de Ouro com “Assuntos de Família”, não se atira à ficção científica como quem quer reinventar o género. Usa-a antes como uma espécie de casaco novo para vestir os seus temas de sempre: a filiação, a adopção, o luto, a culpa, a infância, a família como lugar onde se ama muito e se falha ainda mais. O pequeno Kakeru regressa como máquina, mas também como pergunta: quando se ama uma cópia, está-se a amar o original, a mentira ou a própria necessidade desesperada de continuar a chamar alguém de filho?
A mãe, Otone, agarra-se imediatamente ao milagre tecnológico. O pai, Kensuke, olha para o rapaz como se estivesse diante de um aspirador inteligente com olhos tristes. Ela quer acreditar. Ele quer desconfiar. E entre os dois instala-se esse desconforto tão kore-ediano: ninguém está completamente errado, ninguém está completamente certo, e todos parecem precisar de uma criança — viva, morta ou montada em laboratório — para descobrir aquilo que nunca disseram em vida.
O filme é mais interessante quando deixa a “fofura” à porta e aceita a perturbação da sua própria premissa. Há qualquer coisa de profundamente inquietante num miúdo que sabe horários de comboios, responde como o filho perdido, chama “mãe” e “pai” aos seus novos donos, mas pode ser aberto, desmontado, reparado, reprogramado. A certa altura, quando a pele perfeita cede lugar aos circuitos, percebe-se que a ternura de Kore-eda tem aqui uma pequena lâmina escondida: a criança envelhece, mas é sempre criança. O problema é que o cineasta, tantas vezes mestre da delicadeza, também gosta demasiado de arredondar as esquinas. E quando o filme podia tornar-se verdadeiramente incómodo, prefere muitas vezes tornar-se adorável.
VÊ TRAILE DE “SHEEP IN THE BOX”
Ainda assim, “Sheep in the Box” tem uma bela ideia: a criança-robô não quer ser apenas substituição, terapia ou brinquedo de luxo para adultos em luto. Quer emancipar-se. Quer sair da caixa, literalmente e metaforicamente. Junta-se a outras figuras infantis, humanas e artificiais, num movimento que aproxima o filme de uma fantasia utópica, quase como se “O Principezinho” tivesse sido reescrito por engenheiros emocionais e terapeutas familiares dos finais do século XXI. Nem tudo resulta. Há zonas pouco desenvolvidas, atalhos narrativos e uma tendência para transformar a dor em algodão doce filosófico. Mas Kore-eda continua a filmar crianças como poucos: não como símbolos, nem como anjos, mas como seres que vêem melhor do que os adultos aquilo que os adultos insistem em complicar.
“Garance”, ou o copo cheio de vinho branco
Se “Sheep in the Box” pergunta se uma máquina pode substituir uma criança, “Garance” pergunta se uma pessoa pode sobreviver à sua própria sede ou adição. Jeanne Herry abandona o dispositivo coral de “Eu Hei-de Ver Sempre os Vossos Rostos” e concentra-se numa mulher só, embora rodeada de gente, ruído, festas, palcos, quartos, bares, vizinhos, amantes, irmãs e pequenas humilhações profissionais. Garance é actriz, mas não é estrela. Trabalha, tenta trabalhar, faz teatro, castings, dobragens, papéis pequenos, vidas provisórias. E bebe. Bebe muito.

O álcool, aqui, não aparece como grande espectáculo de degradação. Jeanne Herry evita o sórdido de vitrina, a lama moral, o grande número de circo da actriz em ruína. O vinho branco começa como combustível social: um copo antes de entrar em cena, outro numa festa, outro porque o dia foi mau, outro porque o dia foi bom, outro porque sim, outro porque não. A tragédia do alcoolismo também é essa banalidade: raramente começa com música dramática. Começa muitas vezes com uma desculpa perfeitamente aceitável.
Adèle Exarchopoulos é o centro nervoso do filme. Depois de ter vencido o César de melhor actriz secundária por “Eu Hei-de Ver Sempre os Vossos Rostos”, reencontra Jeanne Herry num papel que lhe pede tudo: fragilidade, insolência, graça, exaustão, humor, vergonha, desejo, ressaca, medo e aquela estranha surpresa de quem ainda não percebeu porque é que alguém a quer amar. A actriz nunca transforma Garance num caso clínico ambulante. Faz dela uma mulher concreta, cheia de contradições, às vezes irritante, às vezes irresistível, tantas vezes perdida que até a lucidez lhe chega com ar de acidente.
O encontro com Pauline, interpretada por Sara Giraudeau, abre outra porta no filme. Não uma porta milagrosa — Jeanne Herry sabe que o amor não cura dependências, se curasse bastava distribuir paixões nos hospitais — mas uma possibilidade. Pauline ama Garance inteira, “com ou sem garrafa”, e essa disponibilidade tem tanto de bonito como de perigoso. Porque amar alguém em queda é uma forma de coragem, mas também pode ser uma forma requintada de entrar no abismo pela mão de outra pessoa.

“Garance” interessa-se por essa zona instável entre o cuidado e a impotência. Jeanne Herry, fiel ao seu cinema humanista, documentado, atento aos mecanismos sociais e íntimos, olha para o alcoolismo como problema de saúde pública, mas filma uma alcoólica singular, não um dossier médico com pernas. Há família, há uma irmã doente, há culpas, há recaídas, há trabalho, há corpo, há desejo. E há sobretudo uma actriz a tentar representar a sua própria vida sem saber o texto.
O cinema de Jeanne Herry pode parecer demasiado arrumado para alguns paladares mais viciados em caos. É clássico, frontal, muito bem escrito, por vezes quase demasiado consciente da sua vontade de fazer bem às pessoas. Mas quando funciona, funciona porque acredita nas personagens sem as santificar. “Garance” vê o copo meio cheio, sim, mas desta vez tenta enchê-lo de água. E talvez isso, em Cannes, onde há sempre muito glamour regado com muito champanhe a correr e juízo a menos, este filme já seja uma pequena provocação.
JVM

