69º Festival de Cannes (Dia 3) | Assuntos de Família

O veterano realizador Ken Loach regressou pela 13ª vez com ‘I, Daniel Blake’ a história de um carpinteiro de Newcastle revoltado contra a Segurança Social britânica. Sempre surpreendente o francês Bruno Dumont, reuniu Juliette Binoche e  Fabrice Luchini em ‘Ma Loute’, uma louca e operática comédia policial, passada na costa norte da França no do século XX

I, Daniel Blake de Ken Loach (Reino Unido) com Dave Johns, Hayley Squires (competição)

I, Daniel Blake

A história: Aos 60 anos de idade e depois de um ataque cardíaco Daniel Blake (Dave Johns), um viúvo e simpático carpinteiro é aconselhado pelos médicos a não voltar ao trabalho. Por isso vai procurar receber os benefícios sociais concedidos pelo Estado a todos que estão nessa situação. No entanto, Daniel esbarra com a burocracia instalada no sistema de segurança social, agravada pelo facto de ser incapaz de lidar com computadores e preencher formulários informáticos. Numa de suas várias idas aos departamentos da segurança social Daniel conhece Katie (Hayley Squires), uma mãe solteira com duas crianças, que vinda de Londres mudou-se recentemente para Newcastle e também ela está desempregada e com dificuldades financeiras. Daniel aproxima-se de Katie e apesar das suas próprias dificuldade não hesita em ajudar a mulher.

Vê excerto de I, Daniel Blake

A análise: Quando todos esperavam a reforma de Ken Loach (aliás por ele anunciada), depois de Jimmy’s Hall, eis que o veterano britânico grande amante de futebol e dos valores democráticos regressa com este notavel I, Daniel Blake, seguindo o seu clássico percurso realista e militante. Se Loach não consegue mudar o mundo com seus filmes, através deles toca-nos no coração e faz-nos pelo menos pensar. Por isso, I, Daniel Blake não é apenas uma comovente história de um homem simpático que tira a camisa para dar aos outros, mas é antes uma profunda crítica ao cinismo e às políticas de contenção orçamental que vão batendo nos mais fracos (e protegendo os mais fortes como os bancos) e que pelos vistos estão instalados por essa Europa fora inclusive no Reino Unido.

I, Daniel Blake vai-se desenvolvendo aos pouco num cenário cada vez mais desolador e sem perspectiva sobretudo para o seu protagonista. Loach sabe como ninguém mostrar o lado humano de seus personagens (e também descobrir grandes actores, que não são estrelas) e mesmo para o espectador mais frio é impossível não    se conter e ficar emocionado: é magnífica e de uma tristeza absoluta, a situação de quando Daniel (Dave Johns, uma interpretação notável de um homem que vem da stand-up comedy) descobre a amiga Katie (a bonita e brilhante actriz Hayley Squires, vinda do teatro londrino) num ‘emprego’ muito pouco dignificante, mesmo que seja para dar de comer aos filhos. O mesmo acontece com o final, uma cena carregada de emoção e  bondade onde é impossível evitar as lágrimas nos olhos. I, Daniel Blake é um filme notável, para ver, pensar e traçar um paralelo com o que se está a passar no mundo, uma realidade política e social que está a minar o nosso sistema democrático que é suposto proteger os mais fracos. Afinal para que servem os nossos descontos e porque pagamos os nossos impostos?

Ma Loute

Ma Loute de Bruno Dumont (França), com Fabrice Luchini, Juliette Binoche, Valeria Bruni Tedeschi (competição)

A história: No verão 1910 na Baía de la Slack norte da França, uma série de desaparecimentos misteriosos incendeia a região. O improvável e anafado inspetor Machin e seu sagaz ajudante Malfoy, que mais parecem uma espécie de Dupont & Dupond conduzem a investigação. No meio deste estranho caso há uma história de amor entre Ma Loute, o filho mais velho de uma peculiar família de pescadores locais e Billie Van Peteghem, a bonita e andrógena filha de uma rica e decadente familia de Lille.

Vê trailer de Ma Loute

A análise: Na linha do filme (que deu uma série de televisão de quatro episódios) P’tit Quinquim, Bruno Dumont (Camile Claudel) regressou à competição com este Ma Loute, uma desbragada comédia policial, com muita fantasia e várias referências felinianas e do positivismo. Este regresso fez-se igualmente em forma de uma ópera burlesca com um elenco coral que mistura grandes estrelas e actores profissionais como Fabrice Luchini, Juliette Binoche, Valeria Bruni Tedeschi (que estão todos brilhantes), com não-profissionais e da região onde é rodado o filme, que não ficam nada atrás dos colegas de elenco.

Ma Loute

Ma Loute conta uma história que cruza as fronteiras do real com uma estranha história de amor que pisa a transexualidade e os limites dos géneros com a antropofagia. É curioso para além de todas as referências cinéfilas, encontrar ainda algo de Hergé e das Aventuras de Tintin,  que começa na paisagem (a fotografia é lindassima) e termina nos personagens, num drama surrealista, carregado de diálogos pouco convencionais, milagres voadores e situações absolutamente inesperadas. Aliás uma marca recorrente de outros filmes deste realizador.

JVM


José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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