“Moulin”, de László Nemes, parte da figura monumental de Jean Moulin. ©Studio TF1

Com “Moulin”, “Notre Salut”, “La Bataille de Gaulle: L’Âge de Fer” e também “La Troisième Nuit”, Cannes mostra uma França da Resistência e da Ocupação, que continua a procurar no passado os fantasmas que hoje lhe voltam a bater à porta.

A França chegou ao Festival de Cannes 2026 com uma mala pesada: Vichy, a Ocupação nazi, a Resistência, os colaboracionistas, os heróis que se calaram sob tortura e os pequenos funcionários que assinaram papéis como quem carimba recibos. Em diferentes secções da Selecção Oficial, quatro filmes regressam à II Guerra Mundial: “Moulin”, de László Nemes, e “Notre Salut”, de Emmanuel Marre, ambos em Competição; “La Bataille de Gaulle: L’Âge de Fer”, de Antonin Baudry, Fora de Competição; e “La Troisième Nuit”, de Daniel Auteuil, na Cannes Première.

Pub
Moulin
Entre Moulin e Barbie, interpretados por Gilles Lellouche e Lars Eidinger. ©Studio TF1

O mais fácil seria chamar a isto uma moda. Mas não é apenas isso. A guerra vende, os nazis continuam a ser os vilões mais universais do cinema e de Gaulle é património nacional com queixo de mármore. Só que esta concentração de filmes parece sobretudo um sintoma. A França contemporânea olha para o crescimento da extrema-direita, para a normalização do discurso reaccionário e para a nostalgia da autoridade, e percebe que nada disto nasceu ontem. Já lá estava. Chamava-se Vichy. Chamava-se colaboração. Chamava-se “ordem”, “trabalho”, “pátria”, “eficiência”, “realismo”, “sentido de Estado”. Palavras muito limpinhas, capazes de esconder lama até ao pescoço.

O silêncio de Jean Moulin

“Moulin”, de László Nemes, parte da figura monumental de Jean Moulin, símbolo da Resistência francesa, preso em Caluire, em Junho de 1943, e torturado por Klaus Barbie, o chefe da Gestapo de Lyon. Nemes, que já tinha filmado o horror concentracionário em “O Filho de Saul”, evita o biopic convencional e concentra-se nos últimos dias do resistente, no confronto físico, psicológico e quase metafísico entre Moulin e Barbie, interpretados por Gilles Lellouche e Lars Eidinger.

Pub

O filme é mais forte quando se afasta da estátua e mostra o homem: alguém que tem medo, que duvida, que sabe que o corpo é frágil e que a dor também é uma forma de política. Aqui, resistir não é uma palavra bonita para placas comemorativas. É não falar. Não entregar nomes. Não ceder. Não colaborar nem sequer com a própria fraqueza.

Há momentos em que o filme se aproxima demasiado da estetização do martírio, devolvendo a Moulin uma aura crística que parecia querer evitar. Ainda assim, o duelo tem força. Gilles Lellouche trabalha na contenção. Lars Eidinger torna Klaus Barbie ainda mais assustador porque não o transforma num ogre de feira: é culto, elegante, manipulador. O Mal, aqui, não começa aos gritos. Começa por conversar.

Pub

O homem pequeno de Vichy

Mais incómodo é o filme “Notre Salut”, de Emmanuel Marre. Porque “Moulin” ainda nos dá o conforto moral do herói. “Notre Salut” tira-nos essa segurança. Inspirado na história do bisavô do próprio realizador, Henri Marre, interpretado por Swann Arlaud, o filme acompanha um engenheiro falhado, quase arruinado, que chega a Vichy em Setembro de 1940 com um manifesto político auto-publicado e uma vontade muito actual de ser útil, reconhecido, promovido, integrado.

Lê Também:
“Fjord” e “L’Inconnue”: Pais, Corpos Trocados e Outras Formas de Não Sabermos Quem Somos | Festival de Cannes 2026
Notre Salut
O filme mais incómodo dos três é “Notre Salut”, de Emmanuel Marre. © KIDAM & MICHIGAN FILMS/CONDOR

Não é um génio do mal. Não é um grande ideólogo. É pior: é plausível. Um homem pequeno, ambicioso, inseguro, desesperado por encontrar um lugar na nova administração.

Pub

Emmanuel Marre percebe que Vichy não foi criada apenas por fanáticos. Foi feita também por carreiristas, técnicos, burocratas, homens de gabinete, especialistas em eficiência enquanto a máquina se tornava criminosa. Henri Marre quer salvar a França, claro. Mas quer sobretudo salvar-se a si próprio. Quer uma secretária, uma mesa, um gabinete, estatuto, admiração da mulher, fotografias ao lado dos importantes. E, enquanto sobe devagarinho, participa na engrenagem: trabalho obrigatório, linguagem técnica, decisões aparentemente menores, consequências monstruosas.

É a banalidade do mal sem pose intelectual. Aqui é mesmo banalidade: a mediocridade a fazer carreira.

Pub

O melhor do filme é não tratar Vichy como museu de cera. Marre aproxima 1940 de 2026, usa linguagem quase contemporânea, energia documental, músicas anacrónicas, humor negro e absurdo. Quando se fala de gestão, produtividade, optimização e utilidade, sentimos que o passado está a usar gravata moderna. O filme não diz que hoje é igual a 1940. Faz uma pergunta mais venenosa: quantas palavras de ontem continuam vivas no nosso vocabulário político?

De Gaulle ainda de pé

“La Bataille de Gaulle: L’Âge de Fer”, de Antonin Baudry, joga noutra escala. É o grande retrato nacional, o primeiro capítulo de um díptico sobre Charles de Gaulle e a França Livre. Simon Abkarian interpreta-o em 1940, em Londres, quase sozinho, quase sem país, quase sem legitimidade, mas já com aquela convicção granítica de quem decidiu que a História acabaria por lhe dar razão.

Pub

O risco era transformar De Gaulle numa estátua com diálogos. E, por vezes, a rigidez quase congela o filme. Mas essa rigidez também é o seu tema. De Gaulle não se permite dobrar porque tudo à sua volta se está a dobrar: a França capitula, Vichy instala-se, os aliados hesitam, Churchill apoia e desconfia. Ao lado de “Moulin”, que filma o silêncio como resistência absoluta, Baudry filma a palavra como insubmissão. Um não fala para não trair. O outro fala para que a França derrotada não desapareça.

La Bataille de Gaulle: L’Âge de Fer
“La Bataille de Gaulle: L’Âge de Fer”, de Antonin Baudry, joga noutra escala.©(PATHÉ FILMS / TF1 FILMS PRODUCTION / BELVÉDÈRE / AUVERGNE RHÔNE ALPES CINÉMA / PHOTO MALGOSIA ABRAMOWSKA)

O filme que ficou fora da agenda

“La Troisième Nuit”, de Daniel Auteuil, ficou-me fora do caminho. Cannes também é isto: escolher uma sessão é abandonar outra. Mas o seu lugar nesta constelação é evidente. O filme parte da grande rusga de Agosto de 1942 e do salvamento de crianças judias ligadas ao campo de Vénissieux. Mesmo sem o ter visto, percebe-se que pertence ao mesmo movimento: o cinema francês a perguntar o que faz uma pessoa dentro de uma máquina criminosa. Obedece? Desvia? Atrasa? Salva? Assina? Rasga? Finge que não percebe?

Pub

A Ocupação não foi feita apenas de grandes resistentes e grandes traidores. Foi feita também desses momentos intermédios em que uma decisão administrativa podia ser uma sentença de morte ou uma oportunidade de fuga.

Lê Também:
Nova temporada de White Lotus reforça elenco com três nomes surpreendentes

A pergunta que fica

Esta vaga de filmes chega num momento em que a extrema-direita francesa deixou de ser susto episódico para se tornar presença estrutural, com as presidenciais de 2027 já no horizonte. Por isso Vichy regressa ao ecrã com outra temperatura.

Pub

Durante décadas, a França contou a guerra a partir da Resistência: narrativa nobre, necessária, mas também confortável. O problema é que a História é menos asseada. Vichy não foi uma anomalia meteorológica. Foi uma possibilidade francesa. Autoritária, xenófoba, antissemita, burocrática e socialmente organizada.

“Moulin” acredita ainda na grandeza trágica do sacrifício. “Notre Salut” desmonta a mediocridade funcional da colaboração. “La Bataille de Gaulle: L’Âge de Fer” procura o momento fundador de uma França que se recusou morrer às mãos dos nazis. “La Troisième Nuit”, pelo tema, lembra que salvar alguém pode ser mais radical do que muitos discursos sobre humanidade.

Juntos, estes filmes dizem uma coisa simples e e ao mesmo tempo incómoda não só para os franceses: a extrema-direita não caiu do céu. Tem raízes, vocabulário, métodos, fantasmas, funcionários, arquivos e avós. O cinema francês voltou a abrir a gaveta de Vichy. E lá dentro não encontrou apenas passado. Encontrou presente. A pergunta já não é só: “O que fizemos durante a Ocupação?” A pergunta, muito mais desagradável, é: “O que faríamos agora?”

JVM


About The Author


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *