O Festival de Cannes 2026 abriu com o filme “A Venús Eléctrica” e com o seu brilho habitual, mas também com uma estranha electricidade política e sentimental: Jane Fonda falou de resistência, Gong Li de humanidade, Peter Jackson recebeu a sua Palma improvável e Pierre Salvadori trouxe uma Vénus feita de mentira, luto e cinema.
A cerimónia de abertura do 79.º Festival de Cannes, ontem à noite além da estreia do filme “A Venús Eléctrica” de Pierre Salvadori, foi um daqueles espectáculos em que a Croisette mostrou que ainda sabe fabricar beleza, pompa, solenidade e aquela espécie de comoção coreografada que só acontece quando uma sala cheia de profissionais do cinema finge, durante duas horas, que não está a pensar nos convites para jantar, nas críticas do dia seguinte ou na probabilidade de conseguir entrar na festa certa. O festival abriu oficialmente com Jane Fonda e Gong Li em palco e no final a abrir esta edição 79, Park Chan-wook à frente do júri, a matriz franco-malaiana Eye Haïdara como mestre de cerimónias, o realizador neo-zelandês Peter Jackson a receber a Palma de Ouro Honorária das mãos de Elijah Wood, e “La Vénus Électrique” ou “A Venús Eléctrica”, de Pierre Salvadori, como filme de abertura. Tudo isto entre política, música, inteligência artificial, fantasmas, Beatles, vestidos, discursos e a eterna capacidade francesa de criar uma cerimónia com charme, bom gosto e consciência política, sem deixar que uma coisa anulasse a outra.
O cinema como acto de consciência do mundo lá fora
Eye Haïdara entrou em cena com energia de um music hall, memória de actriz e pontaria de franco-atiradora. A sua apresentação teve essa qualidade rara de não parecer apenas um guião escrito por uma equipa de comunicação com medo de ofender patrocinadores, governos, plataformas ou marcas de beleza. Houve ali humor, houve nervo, houve consciência do mundo lá fora, na medida certa para uma noite de alegria. Quando saudou os espectadores “em todos os lugares onde a Internet não foi cortada” e onde a inteligência artificial ainda não substituiu a realidade, não estava exactamente a fazer uma piada: estava a lembrar que, em 2026, até a realidade já precisa de pedir acreditação.

Depois vieram para fechar a cerimónia, Gong Li e Jane Fonda, duas presenças que, em palco, valem mais do que muitos manifestos culturais. Gong Li trouxe a ideia do cinema como linguagem que atravessa fronteiras, idiomas e gerações. Jane Fonda, com aquela autoridade de quem já atravessou Hollywood, a política, a guerra do Vietname, os vídeos de ginástica e várias revoluções capilares, disse que o cinema é um acto de resistência. E tem razão. O cinema sempre resistiu: ao esquecimento, à censura, ao tédio, à morte, à estupidez, aos maus produtores, às plataformas que querem transformar filmes em “conteúdo” e ao espectador que acha que ver um clássico no telemóvel, no metro, com uma sandes na mão, é uma experiência audiovisual.
Um júri com peso, nervo e algumas insónias
O júri presidido por Park Chan-wook tem aquela composição tipicamente cannoise: glamour suficiente para a fotografia, prestígio suficiente para a crítica, diversidade suficiente para o comunicado e potencial de conflito suficiente para a deliberação final. Ao lado do realizador sul-coreano estão Demi Moore, Ruth Negga, Laura Wandel, Chloé Zhao, Diego Céspedes, Paul Laverty, Isaach de Bankolé e Stellan Skarsgård. São eles que terão de decidir a Palma de Ouro entre 22 filmes em competição, essa tarefa ingrata de transformar gostos, políticas, cansaço, paixões, vinganças subtis e digestões difíceis num palmarés com ar inevitável. Park Chan-wook, que nunca foi propriamente um cineasta interessado em separar beleza de violência, moral de perversão ou política de desejo, disse antes da abertura que não faz muito sentido opor arte e política. Paul Laverty foi mais longe, como seria de esperar do argumentista de Ken Loach, e falou da violência do mundo, dos conflitos e do genocídio em Gaza. Demi Moore, por seu lado, trouxe a inteligência artificial para a conversa, dizendo que combatê-la como se fosse possível fazê-la desaparecer é uma batalha perdida, sendo mais útil encontrar formas de trabalhar com ela e criar protecções. Ou seja: o júri ainda nem tinha visto os filmes todos e Cannes já tinha conseguido discutir guerra, tecnologia, poder, ética e futuro da criação. Nada mau para uma noite em que muita gente só queria saber quem estava de Dior, Chanel ou Saint Laurent.
Peter Jackson, finalmente na Terra Média da Croisette
A grande emoção da noite foi a Palma de Ouro Honorária entregue a Peter Jackson. E há aqui uma justiça poética curiosa: Cannes, templo histórico do cinema de autor, ajoelhou-se finalmente perante um cineasta que passou anos a filmar hobbits, orcs, aranhas gigantes, macacos apaixonados e cadáveres cómicos antes de se tornar um dos grandes arquitectos do imaginário popular contemporâneo. Jackson disse que nunca imaginou receber uma Palma, até porque não faz filmes “que se prestem” a esse tipo de prémio. E essa frase, dita com modéstia, contém uma verdade deliciosa: durante muito tempo, Cannes comportou-se como se a fantasia, o espectáculo, os monstros e os universos populares fossem parentes afastados do verdadeiro cinema, daqueles que se convidam para o casamento mas se sentam junto à cozinha.

Elijah Wood entregou-lhe o prémio, o que deu à homenagem um toque de reunião familiar da Terra Média. Houve ainda um momento musical ligado aos Beatles, com “Get Back”, lembrando o extraordinário trabalho documental de Jackson sobre a banda. Foi bonito, foi emocional, foi ligeiramente longo — mas, convenhamos, quando se homenageia o homem que transformou “O Senhor dos Anéis” numa epopeia de quase doze horas, ninguém pode fingir surpresa com a duração.
A Vénus, o pintor e a mentira que salva
Depois da cerimónia veio o filme de abertura: “A Venús Eléctrica” de Pierre Salvadori, apresentado fora de competição e lançado em França no mesmo dia. Não é um grande filme de abertura no sentido tonitruante, musculado, americano, cheio de estrelas a entrarem em câmara lenta como se cada plano tivesse sido pago por uma marca de relógios. É antes uma comédia de época, melancólica, irregular, por vezes encantadora, por vezes hesitante, que tenta encontrar electricidade onde há luto, fraude, desejo e uma espécie de fé antiga no poder da ficção.
Paris, 1928. Antoine Balestro (Pio Marmaï), jovem pintor em voga, deixou de pintar depois da morte da mulher, Irène (Vimala Pons). O seu galerista, Armand (Gilles Lellouche), desespera. Numa noite de álcool, dor e credulidade, Antoine tenta contactar a mulher através de uma vidente. Mas quem lhe responde não é o além: é Suzanne (Anaïs Demoustier), uma trabalhadora pobre de um parque de diversões, faminta, esperta e cansada, que entrou ali para roubar comida e acaba a improvisar uma sessão espírita. A mentira funciona. Antoine volta a viver, talvez até a pintar. Armand percebe o negócio. Suzanne percebe o poder que tem. E, como sempre acontece nas boas comédias de engano, a farsa começa por ser uma forma de sobrevivência e acaba por se tornar uma armadilha sentimental.
VÊ TRAILER DE “A VÉNUS ELÉCTRICA”
Salvadori filma este pequeno teatro de sombras como quem conhece os clássicos da comédia americana — Lubitsch, Hawks, Wilder, Cukor —, mas sem tentar imitá-los com a sofreguidão de quem foi à Cinemateca e saiu de lá com tiques. Há portas que se abrem, identidades que se dobram, sentimentos que se disfarçam, mentiras que dizem a verdade melhor do que a própria verdade. A sua comédia não é cínica; é triste com bons modos. A frase do próprio realizador — “mentir é uma forma de se reinventar” — podia servir de epitáfio a metade da história do cinema. Afinal, o que é um filme senão uma mentira colectiva, tecnicamente organizada, para nos fazer acreditar que os mortos falam, os amores regressam, os pobres têm hipóteses e os festivais começam sempre com esperança?
Uma comédia com pouca voltagem, mas com alma
O problema de “A Venús Eléctrica” (“La Vénus Électrique”) é que nem sempre a máquina dá choque. O filme promete faísca, vertigem, velocidade e sofisticação, mas por vezes fica preso na sua própria delicadeza. Há momentos em que a reconstituição de época pesa mais do que devia, em que a intriga hesita, em que a comédia parece pedir autorização ao drama para entrar. Pio Marmaï dá a Antoine essa mistura de luto, vaidade e fragilidade que a personagem exige, mas é Anaïs Demoustier quem melhor percebe o tom: Suzanne é charlatã, vítima, actriz, sobrevivente e mulher apaixonada, tudo ao mesmo tempo, como se tivesse descoberto que a única forma de escapar à miséria é representar melhor do que todos os ricos à sua volta.

Ainda assim, o filme cresce quando aceita a sua dimensão fantasmática. O diário da mulher morta transforma a burla num triângulo amoroso para lá da morte. A comédia torna-se mais funda, a mentira menos mesquinha, a fraude quase piedosa. Salvadori interessa-se por esse território ambíguo onde ninguém é completamente inocente e ninguém é completamente culpado. Quem explora quem? Suzanne engana Antoine ou salva-o? Armand protege o artista ou protege o investimento? Antoine ama Suzanne ou ama apenas a possibilidade de voltar a amar a mulher morta através dela? É aqui, nesta zona de incerteza, que “A Venús Eléctrica”(“La Vénus Électrique”) encontra a sua melhor energia. Como filme de abertura de Cannes, talvez não seja uma entrada triunfal daquelas que fazem levantar a sala inteira. Não inaugura uma nova era, não dá vontade de sair para a Croisette a gritar que o cinema renasceu, não electrifica propriamente a noite. Mas tem uma qualidade que não é pequena: acredita na ficção. Acredita que contar histórias ainda serve para alguma coisa — mote, aliás, dado pelas palavras de Jane Fonda. Acredita que a comédia pode falar da dor sem lhe pôr uma lápide em cima. Acredita que o cinema, mesmo quando falha, ainda pode iluminar os vivos com a corrente roubada aos fantasmas. E talvez isso, numa noite em que Jane Fonda falou de resistência, Gong Li falou de humanidade, Peter Jackson recebeu uma Palma improvável e Cannes voltou a vestir-se de cerimónia para fingir que o mundo ainda cabe numa sala escura, seja suficiente. A Vénus não electrocutou ninguém. Mas piscou o olho. E, em Cannes, às vezes, já não é pouco.
JVM

