Do FEST em Espinho ao Bairro em Setúbal, do Curtas de Vila do Conde ao MIMO, MED e Cinalfama, os festivais de cinema de Verão transformam o país também numa grande sala de cinema, espaços de cinema ao ar livre, com música, comunidade, formação e aquela teimosia portuguesa de fazer cultura apesar de tudo.
Portugal tem uma relação curiosa com o Verão e também com o cinema, o melhor com o Cinema de Verão. Assim que aparece o primeiro calor a sério, o país inteiro decide que já não aguenta paredes. Fugimos das salas, das reuniões, dos escritórios, dos centros comerciais, dos noticiários, dos grupos de WhatsApp da família e, em casos mais graves, até de nós próprios. Mas depois, como não sabemos viver sem histórias, levamos o cinema atrás. O cinema sai das salas escuras, tira a gravata, desaperta o colarinho, põe-se em mangas de camisa e começa a circular por praias, bairros, largos, igrejas, museus, escadinhas, centros históricos, sociedades musicais e cidades onde ainda se acredita que a cultura pode servir para alguma coisa mais do que apenas decorar discursos oficiais, embora em alguns casos também estejam incluídos.

É por isso que os festivais de Cinema de Verão em Portugal interessam tanto. Não são apenas uma sucessão de datas, cartazes e convidados para os comunicados de imprensa fingirem entusiasmo com adjectivos reciclados. São, quando funcionam, pequenas máquinas de respiração cultural. Uns olham para a indústria, outros para a comunidade. Uns trazem nomes internacionais, outros sentam moradores no lugar de programadores. Uns juntam cinema e música como quem junta sardinha e broa, outros insistem na pedagogia, na formação, no público jovem, na rua, no bairro, na possibilidade quase revolucionária de alguém ver um filme que não lhe foi empurrado por um algoritmo com tiques de porteiro de discoteca.
Espinho: novos realizadores, velhos mestres e a indústria
O arranque simbólico dos Festivais de Cinema de Verão faz-se já este fim-de-semana em Espinho, com o FEST – Festival Novo Cinema, Novos Realizadores, que regressa entre 20 e 28 de Junho. O nome continua a prometer juventude, descoberta e futuro, mas o programa já percebeu há muito que não se formam novos realizadores apenas atirando-lhes uma câmara para a mão e dizendo “agora sofre, que isto é cinema”. O FEST é hoje um festival, uma escola informal, um mercado possível, uma zona de contacto entre quem começa e quem já tropeçou várias vezes no mundo real da profissão.
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Este ano, a dimensão profissional ganha músculo com nomes como Asghar Farhadi, Danis Tanović, Alexander Nanau, Dan Laustsen, Katie Spencer, Sarah Greenwood, John Warhurst ou Harry Escott. Ou seja: gente que sabe que o cinema não se faz só de inspiração, mas também de método, som, luz, direcção de actores, produção, montagem, espaço, dinheiro, paciência e capacidade de não enlouquecer antes do terceiro acto. Num país onde ainda se acha muitas vezes que “ter uma ideia” equivale a “ter um filme”, convém lembrar que o cinema também se aprende. E o FEST, nesse aspecto, presta um serviço que devia ser considerado de utilidade pública, com direito a pulseira, café e ansiolítico.
A homenagem a Andrzej Wajda, no centenário do seu nascimento, dá ao festival a gravidade histórica necessária para não ficar apenas na espuma dos novos talentos. Wajda é daqueles nomes que lembram que o cinema europeu nasceu muitas vezes da guerra, da memória, da ferida política, da culpa nacional e da vontade de transformar a História em imagens que não pedem licença. Ver ou rever “A Generation”, “Man of Marble” ou “Man of Iron” em Espinho é lembrar que a juventude cinematográfica precisa de antepassados. Sem eles, corre o risco de confundir rebeldia com pose de Instagram.
Festival do Bairro em Setúbal: o ovo escolhe e o cinema desce à rua
Quase ao mesmo tempo, Setúbal estreia mais Cinema de Verão com o Festival do Bairro, entre 19 e 21 de Junho, e aqui a história muda de escala, de tom e de ambição. Não se trata de trazer o mundo a uma cidade através de mestres consagrados, mas de devolver o cinema a quem normalmente é tratado como “público-alvo”, essa expressão horrível que transforma pessoas em alvos e cultura em dardo promocional. No Festival do Bairro, os moradores da União das Freguesias de Setúbal participaram na escolha dos filmes e continuam a ter poder durante o festival, votando nas obras em competição. Isto parece simples, mas não é. Num país onde demasiadas programações ainda descem de cima para baixo, com ar de quem traz a civilização às aldeias e aos bairros, o gesto tem qualquer coisa de democraticamente inconveniente. O povo escolhe. O povo vê. O povo vota. O povo discute. O povo talvez se engane. Mas também se enganam júris de smoking, críticos com crachá e directores artísticos com frases longas sobre a cartografia do olhar contemporâneo. A diferença é que aqui o erro, se existir, pertence a quem estava mesmo dentro do processo.

Com sessões em lugares como os Edifícios Montalvão, o Largo da Misericórdia e a Sociedade Musical Capricho Setubalense, o festival não usa a cidade como postal: usa-a como corpo vivo cinematográfico. “Bairro do Povo”, “A Memória do Cheiro das Coisas”, as curtas em competição e o documentário “Festival do Bairro – Uma História de Outros Olhares de Cinema” compõem uma programação que vale pelo que mostra e pelo modo como foi construída. A presença de Anabela Moreira como madrinha acrescenta rosto, mas a verdadeira estrela é outra: uma comunidade a perceber que também pode escolher o que vê. Parece pouco. É imenso.
Guimarães (Mimo) e Loulé (Med): o cinema começa a dançar
Depois vem a música e o Cinema de Verão. Ou melhor: a confirmação de que o cinema e a música nunca estiveram propriamente separados. O MIMO chega a Guimarães num ano simbólico, celebrando dez anos de presença em Portugal e abrindo uma etapa de cinema entre 27 de Junho e 2 de Julho, antes da explosão musical de 3 a 5 de Julho. O Largo Condessa do Juncal transforma-se numa sala de cinema ao ar livre, com entrada gratuita e uma programação dedicada à música como memória, identidade, resistência, festa, arquivo e corpo.
A ideia é bonita porque não se limita a exibir documentários musicais como quem passa videoclipes com mais minutos. O programa aproxima filmes, artistas, concertos e cidade. Dona Onete, Fernanda Abreu, Alaíde Costa, Amadou & Mariam, o kuduro, o hip hop da Margem Sul, os fantasmas de William S. Burroughs, Patti Smith e Frank Zappa em Nova’78: tudo isto compõe um mapa onde o cinema não explica a música, mas a escuta. E isso faz diferença. A música, quando é bem filmada, não precisa de ser domesticada pela biografia televisiva, com infância difícil, sucesso, queda, redenção e créditos finais. Pode ser território, política, idade, desejo, migração, língua, suor e comunidade.

Em Loulé, o Cinema MED assume sem pudor essa promiscuidade feliz entre filmes, concertos, cineconcertos e DJ sets ou seja Cinema de Verão + Músicas do Mundo. A curadoria de Rui Pedro Tendinha reforça a ligação à Loulé Film Office e ao desejo de fazer do Algarve mais do que praia, bolas de Berlim e estrangeiros a perguntar onde fica “Loulé” como se fosse uma marca de água mineral. O MED que se realiza de 25 a 28 de junho, no Centro Histórico de Loulé, sempre foi um festival de música do mundo, expressão que por vezes quer dizer tudo e nada, mas que ali ganha corpo no centro histórico, entre palcos, comidas, ruas e idiomas. A entrada do cinema nesse ambiente funciona como uma espécie de contrabando cultural: o espectador vem pelo som, fica pela imagem; vem dançar, tropeça numa curta restaurada; vem para a festa, descobre que a festa também pensa.
Vila do Conde: as curtas continuam a ter pernas longas
Em Julho, o Curtas Vila do Conde volta a provar que a curta-metragem é apenas curta na duração, não na ambição. É o mais antigo e mais prestigiado festival de Cinema de Verão. Entre 17 e 26 de Julho, o festival chega à 34.ª edição com 86 sessões, conversas, oficinas, Competições Nacional e Internacional, Curtinhas, Take One!, My Generation, Cinema Revisitado, Cinema Expandido, Stereo e aquela energia rara de quem nunca aceitou que o formato curto fosse uma sala de espera para a longa-metragem. O destaque este ano para Todd Haynes é particularmente feliz. Haynes é um cineasta que sempre filmou identidades em combustão, melodramas envenenados, corpos deslocados, desejos vigiados, mulheres presas em casas demasiado bonitas e homens a desfazerem-se dentro da própria imagem. A presença de Christine Vachon, sua produtora de longa data, permite ainda lembrar uma coisa que o cinema independente às vezes esquece no entusiasmo romântico da precariedade: sem produtores inteligentes, corajosos e teimosos, muitos autores ficariam apenas a escrever manifestos magníficos em cafés com má iluminação.

Miranda Pennell leva ao festival outra zona de risco: arquivo, memória, história, representação, gestos de amor e violência. O Curtas tem essa virtude antiga de não separar demasiado as coisas. Cinema pode ser sala, galeria, concerto, performance, aula, conversa, experiência. A secção Stereo, com cineconcertos e diálogo entre música e imagem, confirma uma linha que o festival tem aprofundado nos últimos anos. A abertura com Bruno Miguel e Nuno Canavarro a partir de Germaine Dulac é quase uma declaração de princípios: o futuro também se inventa regressando às pioneiras. E depois há a pedagogia, que no Curtas não aparece como departamento simpático para justificar apoios, mas para granjera o prestigio que tem conseguido ao longo de várias décadas. Take One!, My Generation e Curtinhas mostram que formar públicos não é dar sermões aos jovens sobre “a importância do cinema”, como se eles fossem culpados por terem nascido depois do VHS. É chamá-los para dentro, dar-lhes responsabilidade, escuta, escolha, risco. A melhor educação cinematográfica não é obrigar alguém a amar Carl Dreyer aos 14 anos. É criar condições para que, um dia, essa pessoa descubra Dreyer sem achar que está a cumprir pena.
Alfama: tragam a almofada, deixem o postal à porta
No fim de Julho, o Cinalfama volta à Alfama de Lisboa e talvez seja o festival que melhor resume esta ideia de de Cinema de Verão com cinema como ocupação poética do espaço público. Entre 27 e 31 de Julho, as Escadinhas de São Miguel e o Museu do Fado recebem cinema independente, micro-orçamentos, estreias, animação, guiões, filmes sobre cidades e uma relação directa com o bairro. O convite “Bring Your Own Pillow” é mais do que uma graça simpática: é uma filosofia. Traga a almofada, sente-se na rua, veja cinema onde costuma passar apressado, aceite que uma escadinha pode ser sala, plateia e personagem.
Alfama é um bairro perigosamente fotogénico, mas à noite convèm levar um agasalho. Toda a gente o quer filmar, vender, cantar, alugar, plastificar, transformar em cenário de uma autenticidade que já vem com código QR. O Cinalfama interessa porque tenta resistir a essa museificação turística através de uma prática comunitária: recolha de histórias, oralidades, memórias, projectos com crianças, jovens e moradores, parcerias com o Plano Nacional de Cinema, exercícios como o Minuto Lumière e propostas que fazem do bairro não uma decoração, mas um arquivo vivo.

O cinema independente, neste contexto, deixa de ser apenas uma categoria de festival para passar a ser uma forma de presença. Filmar com pouco dinheiro pode ser uma limitação, mas também pode ser uma ética. Num tempo em que há filmes caríssimos que não dizem absolutamente nada e imagens impecáveis que parecem feitas por frigoríficos inteligentes, a fragilidade de uma obra pequena pode ter mais verdade do que uma máquina perfeita de conteúdo.
O país visto por festivais: uma sala com muitas portas
Vistos em conjunto, estes festivais de Cinema de Verão desenham um mapa curioso do cinema em Portugal. Espinho aposta sobretudo na formação e na circulação internacional. Setúbal entrega a programação à comunidade. Guimarães transforma a música em cinema e o cinema em festa. Loulé mistura filmes, concertos e DJs num centro histórico que se recusa a ser apenas cenário turístico. Vila do Conde continua a defender a curta-metragem como território maior. Alfama ocupa a rua e responde à gentrificação com imagens, histórias e almofadas. O mais interessante é que nenhum destes festivais resolve, sozinho, os problemas do cinema português. Não aumentam automaticamente o público nas salas, não corrigem a distribuição, não salvam a crítica, não inventam financiamento, não impedem que muita gente continue a achar que cinema nacional é aquela coisa que dá na televisão pública a horas em que só estão acordados morcegos, insónias e funcionários de turno. Mas fazem outra coisa, talvez mais importante: criam hábitos, encontros, pequenos rituais. E o cinema precisa disso. Precisa de datas, lugares, pretextos, conversas depois da sessão, cervejas antes do debate, crianças a verem curtas, adolescentes a votarem, moradores a escolherem, músicos a comentarem filmes, realizadores a perceberem que o público não é uma abstração estatística.

O Cinema de Verão português, com todos os seus exageros, tem esta generosidade: obriga-nos a sair. E quando o cinema sai connosco, fica menos solene, menos fechado, menos convencido da sua própria importância. Ganha ar. Ganha ruído. Ganha vizinhos. Ganha música. Ganha imperfeição. Talvez seja isso que tantos destes festivais têm em comum: não tratam o cinema como relíquia, mas como prática viva. Uma coisa que se vê, sim, mas também se aprende, dança, discute, vota, escuta, programa e partilha.
No fundo, a melhor sala de cinema deste Verão pode não ter cadeiras numeradas, pipocas a preço de crédito à habitação nem ar condicionado polar. Pode ser uma praça em Guimarães, uma rua de Setúbal, no cine-teatro em Vila do Conde, um centro histórico em Loulé, umas escadinhas em Alfama ou uma cidade costeira chamada Espinho onde novos realizadores descobrem que o cinema é muito bonito, mas dá trabalho. O cinema que não dá trabalho costuma dar sono.
JVM

