Estreia hoje, quinta-feira 25 de junho, nos cinemas portugueses o novo filme islandês “O Amor que Perdura” (2025, Hlynur Pálmason).
A longa-metragem é ainda coproduzida pela Dinamarca, Suécia e França e venceu o prémio (bem merecido) Palm Dog no Festival de Cannes de 2025. Mais tarde, foi a escolha da Islândia para o Óscar de Melhor Filme Internacional em 2026. No entanto, acabou fora da lista dos nomeados.
Trata-se de uma narrativa agridoce que acompanha um ano da vida de uma família enquanto os pais estão em vias de se separar.
Qual a narrativa de O Amor que Perdura?
A longa-metragem “O Amor que Perdura” aborda a história de uma família com três filhos: uma rapariga e dois rapazes gémeos. O pai Magnús (interpretado por Sverrir Gudnason), frequentemente ausente, é pescador. A mãe Anna (Saga Garðarsdóttir) é uma artista plástica que recorre a formas metálicas, secadas ao sol, para realizar as suas obras.
Os cinco formam uma família um pouco desconectada mas que, ainda assim, todos gostam uns dos outros. No entanto, os pais estão prestes a divorciar-se.
O filme, distribuído em Portugal pela Alambique, é um drama com muitos momentos agridoces de comédia. Um filme leve, construído a partir dos pequenos momentos da vida, que nos traz sensações frescas de pertença para o Verão.
A saber, fazem parte do elenco do filme nomes como Saga Garðarsdóttir, Sverrir Gudnason (de “A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha”, 2018, Fede Alvarez), Ída Mekkín Hlynsdóttir, Þorgils Hlynsson, Grímur Hlynsson, Ingvar E. Sigurðsson (de “Terra de Deus”, 2022, Hlynur Pálmason), Katla M. Þorgeirsdóttir, entre outros.
Um poema visual agridoce

“O Amor que Perdura” é um filme ‘simples’ mas que, realmente, nos enche as medidas. Não havendo uma narrativa muito desenvolvida e aprofundada, o que esta longa-metragem nos traz são sobretudo pequenos momentos quotidianos do dia-a-dia que demonstram a proximidade desta família, ainda que estejam prestes a atravessar um divórcio. Divórcio esse que não sabemos se realmente se concretiza, ficando a dúvida no ar perante o espectador (“Eu conheço-a e não conheço”, diz Magnús aos seus colegas, reforçando-nos a dúvida).
A narrativa do filme acontece ao longo de um ano. Contudo, essa escala temporal não nos é dada de uma forma assim tão óbvia. Ainda assim, assistimos à passagem do tempo por pequenos interlúdios visuais / musicais que acabam por suavizar a passagem do tempo. Assim, temos planos visuais da natureza e de um tronco com um espantalho em forma de cavaleiro que demarcam esta passagem de tempo. Uma outra subtileza marcante do filme é que temos vários momentos de comédia, embora não seja uma comédia para rir às gargalhadas.
A comunhão da natureza com estas personagens é também permitida pelos muitos bem escolhidos décores na Islândia que são uma lufada de ar fresco para qualquer espectador onde os tons amarelos e os verdes prevalecem.
Refere o realizador em notas à imprensa: “Este filme é sobre a natureza, sobre o que construímos, reconstruímos ou destruímos, sobre o que nos une e nos divide, sobre a falta de comunicação e os sentimentos conflituosos. Mas é, acima de tudo, sobre a família, que é o cerne do filme e o seu coração pulsante”.
Uma história simples mas cheia de pequenas subtilezas

Em “O Amor que Perdura” não conhecemos de forma direta as razões da separação do casal do filme. Inferimos que a profissão de pescador do pai tenha contribuído para o afastamento entre ele e a mãe. No entanto, isso não é importante. Aquilo que realmente faz o filme são os pequenos momentos em família (e também nos trabalhos, como contraste) que vão pontuando a narrativa.
Ao longo do filme, a fotografia é pensada quase sempre ao milímetro onde o formato 4:3 nos dá autênticos quadros. Tudo fica bonito e, muitas vezes, geométrico, dando-nos um equilíbrio visual e de tom. O trabalho da mãe com as formas metálicas secadas ao sol (curiosamente, o mesmo processo usado pelo realizador Hlynur Pálmason que também é artista plástico na vida real) apresentadas de forma geométrica nos planos ou os detalhes do barco, como as cordas das redes de pesca, surgem no filme de forma sempre equilibrada, como autênticos quadros de cores e tons.
Sentimos igualmente no filme uma certa inspiração de Andrei Tarkovsky e Terrence Malick com as transições do filme que, em certa medida, funcionam como breves sonatas para justificar a passagem do tempo.
Embora o início do filme com a destruição do telhado de uma casa seja um plano que o próprio realizador desvendou não ter sido filmado de forma propositada para o filme, o mesmo adquire para o resto da narrativa uma metáfora sobre a separação do casal e o lado quebrável / inquebrável da relação dos dois.
Familiaridade e pertença
Por fim, há alguns pequenos momentos subtis ao longo do filme que contribuem para nos dar uma maior familiaridade / pertença à narrativa. Refiro-me, por exemplo: aos ‘arquivos’ em formato amador (como forma artesanal da passagem do tempo), a estranha conversa entre a mãe artista e o curador que culmina com ele a roubar um ovo a um ganso (pelo lado do humor absurdo), o piquenique familiar onde o pai ‘entra’ no vestido da mãe (pela intimidade e força de uma relação eterna), o bacalhau que os gémeos ‘separam’ ou a galinha perseguida pelo pai (estes dois últimos momentos pelo humor subtil).
Vale a pena ver O Amor que Perdura?

“O Amor que Perdura” é um filme bem conseguido e leve que vale a pena ver pelas razões estéticas e narrativas que já referi. Contudo, o final do mesmo torna-se algo estranho e parece que entramos num outro universo. Se aceitamos a estranha mas divertida cena do pai a ser ‘perseguido’ por uma galinha num sonho, o mesmo já não podemos dizer acerca do desfecho da narrativa.
Em certa medida, parece que a seta que atingiu um dos gémeos (Þorgils) veio quebrar a ‘naturalidade’ do filme e encaminhar o espírito da narrativa para outro lado. De repente, o espantalho cavaleiro ganha vida e Magnús flutua perdido no mar. Será tudo um sonho a partir daqui? Uma imaginação? O final metafórico da relação?
O Amor que Perdura
Conclusão
- “O Amor que Perdura” é um drama agridoce com pequenos toques de comédia sobre uma família em que os pais se estão a separar. Ainda assim, mantêm-se unidos pelos três filhos.
- O filme vive através de pequenos momentos que dão vida e cor à narrativa, intercalada com as passagens do tempo vistas pela natureza.
- Trata-se de uma história ‘simples’ que só se perde no desfecho onde o filme ganha uma camada mais sobrenatural como que a marcar uma rutura brusca.

