A protagonista é interpretada por uma convincente Barbara Ronchi.©Biennale Cinema

O realizador italiano Leonardo Di Costanzo mete-nos diante de uma homicida que matou a irmã, queimou-lhe o corpo e passou dez anos na prisão. Depois faz uma coisa muito pouco recomendável nos tempos que correm: em vez de nos dizer se devemos odiá-la, tenta percebê-la. Barbara Ronchi faz o resto, num filme seco, desconfortável e perturbadoramente humano sobre culpa, memória e essa palavra contraditória chamada redenção.

Elisa, de Leonardo Di Costanzo, é um filme que quase nos obriga a detestar a personagem principal. Isto é, a ficar sentados quase 2 horas diante de uma mulher que matou a própria irmã e perguntar-mos o que fazemos agora com ela. Podemos condená-la outra vez, se isso nos fizer sentir melhor. Podemos chamar-lhe monstro, expressão sempre muito prática porque encerra rapidamente qualquer conversa. Ou podemos cometer a imprudência de tentar perceber como é que uma pessoa aparentemente normal chega ao ponto de matar alguém. É aqui que o cinema deixa de funcionar como tribunal popular das sessões de cinema da noite e começa verdadeiramente a mexer connosco.

Pub

Elisa (Barbara Ronchi) matou a irmã, tentou apagar o crime queimando-lhe o corpo e passou dez anos entre uma prisão e uma instituição psiquiátrica. Diz que praticamente não se lembra do que aconteceu. Convenhamos que é uma amnésia extraordinariamente conveniente. O criminologista Alaoui, interpretado por Roschdy Zem com uma contenção quase irritante de tão precisa, também não compra facilmente a versão. Mas não está ali para lhe arrancar uma confissão televisiva, uma reportagem ou muito menos para fazer daqueles documentários de true crime em que uma música sinistra começa sempre cinco segundos antes de descobrirmos que o vizinho guardava três cadáveres na garagem.

Alaoui quer outra coisa. Quer que Elisa diga as palavras certas. Quando ela chama ao homicídio “os factos”, ele obriga-a a chamar-lhe homicídio. Quando tenta explicar-se através da mãe, do pai, da irmã, do negócio familiar ou da vida que lhe correu mal, ele devolve-lhe a responsabilidade. Ou seja: compreendê-la não significa desculpá-la. Parece uma distinção elementar, mas aparentemente deixou de o ser.

Pub

O monstro mora no apartamento ao lado

Elisa
© Leopardo Filmes

Leonardo Di Costanzo já tinha fechado homens dentro de uma prisão em Ariaferma, — apresentado na 15ª Festa do Cinema Italiano 2022 — com Toni Servillo e Silvio Orlando, um extraordinário filme sobre a absurda mecânica das instituições penitenciárias. Agora sai da prisão física para entrar numa muito mais complicada: a cabeça de quem matou.

O que lhe interessa é precisamente aquilo que nos assusta mais. Elisa não vem de um submundo criminal, não cresceu necessariamente cercada de violência, não é apresentada como psicopata de antologia nem possui uma dessas patologias que permitem ao espectador respirar de alívio e pensar: “Ah, pronto, então está explicado.” Não está. Era uma mulher aparentemente comum. Inteligente. Discreta. “Invisível”, como se define. E foi capaz de cometer um crime monstruoso.

Pub

É esse talvez o verdadeiro terror de Elisa. Os monstros dão muito jeito quando se parecem com monstros. O problema começa quando conduzem o carro ao nosso lado, trabalham numa empresa, fazem compras ao sábado e dizem-nos bom-dia no elevador.

Barbara Ronchi constrói essa ambiguidade com uma enorme subtileza e descrição. É uma representação feita de silêncios, pausas, pequenos movimentos, olhares que ora parecem vulneráveis, ora manipuladores. Nunca nos oferece a comodidade de sabermos exactamente quando Elisa está a ser sincera. Nem provavelmente ela própria sabe. Ronchi transforma a personagem numa superfície aparentemente imóvel debaixo da qual há qualquer coisa sempre a deslocar-se. É uma interpretação extraordinária precisamente porque recusa o espectáculo da loucura.

Pub

VÊ TRAILER DE “ELISA”

Di Costanzo filma-a da mesma maneira. Nada de sangue derramado para a plateia, nada de grandes reconstruções melodramáticas, nada de assassina transformada em estrela pop. A realização é quase invisível, herança evidente do documentarista que Di Costanzo foi e continua, de certa maneira, a ser. Luca Bigazzi fotografa a paisagem alpina com uma beleza fria, quase indecente: árvores, neve, pequenos chalés de madeira e uma instituição prisional que por vezes parece um resort suíço onde alguém se esqueceu de colocar o spa. Mas ninguém está de férias.

Pub
Lê Também:
De Mutiny, com Jason Statham, a Magia da Árvore Longínqua, com Nicola Coughlan, as melhores estreias desta semana (20 agosto)

Redenção não é absolvição em Elisa

Elisa
© Leopardo Filmes

É aqui que Elisa entra em território politicamente explosivo: a justiça restaurativa ou inclusiva. A pergunta deixa de ser apenas “quanto castigo merece esta pessoa?” para passar a incluir outra, muito mais difícil: “o que pode ainda ser reparado?”

Num dos momentos laterais mais fortes do filme, Valeria Golino surge como mãe de um jovem assassinado e procura respostas. É uma presença breve mas fundamental porque impede que a teoria se transforme numa tese meramente académica em criminologia. Há uma vítima do outro lado. Há uma família destruída. Há uma dor que não desaparece só porque um criminologista decidiu falar de empatia. E esta é a inteligência de Di Costanzo: não confunde redenção com absolvição. Elisa pode tentar reconstruir-se sem que a irmã ressuscite. Pode reconhecer a culpa sem que o crime fique menos horrível. Pode tornar-se outra pessoa sem deixar de ser aquela que matou. É precisamente esta contradição que o filme nos obriga a suportar. Num tempo em que adoramos julgamentos instantâneos, indignações em massa e sentenças proferidas antes do intervalo publicitário do horário nobre na televisão, Elisa propõe algo de novo: uma pessoa pode ser simultaneamente responsável por um acto monstruoso e continuar a ser uma pessoa.

Pub
Lê Também:
15ª Festa do Cinema Italiano | 15 filmes para (re)descobrir

Nem sempre o filme consegue transformar esta tese em grande cinema. O ritmo é deliberadamente lento, as conversas ocupam muito espaço e há momentos em que o minimalismo se aproxima perigosamente da imobilidade. Di Costanzo é tão cuidadoso em não manipular o espectador que ocasionalmente parece recear emocioná-lo. Há passagens secas, quase clínicas, em que sentimos estar perante um estudo criminológico ilustrado por excelentes actores. Mas talvez a aridez também faça parte do seu método. Elisa não quer facilitar-nos a vida nem transformar o mal numa charada policial com solução nos últimos dez minutos. Quer deixar-nos precisamente onde começámos, apenas um pouco menos seguros das nossas certezas. A questão não é saber se Elisa merece o nosso perdão. Isso seria demasiado fácil e, sobretudo, não nos compete como espectadores. A questão é saber se acreditamos que alguém que fez o pior que um ser humano pode fazer continua a ter direito a tentar tornar-se outra coisa.

E a resposta, felizmente, não vem escrita no ecrã. Temos de ser nós a dá-la.

Pub

JVM (6/10)

Elisa

Conclusão

Pub
  • “Elisa”, de Leonardo Di Costanzo é um filme que quase nos obriga a detestar a personagem principal. Isto é, a ficar sentados quase 2 horas diante de uma mulher que matou a própria irmã e perguntar-mos o que fazemos agora com ela.
  • “Elisa” não quer facilitar-nos a vida nem transformar o mal numa charada policial com solução nos últimos dez minutos. Quer deixar-nos precisamente onde começámos, apenas um pouco menos seguros das nossas certezas.
Overall
6/10
6/10
Sending
User Review
0 (0 votes)

About The Author


Leave a Reply