Na Côte d’Azur dos anos 70, casinos, máfia, dinheiro suíço, sexo, corrupção e uma herdeira desaparecida dão à RTP2 (e na RTP Play) um “true crime” que a realidade escreveu com mais audácia do que a televisão.
Nice, 1977. Sol, casinos, dinheiro suíço, máfia, corrupção política, uma herdeira desaparecida, um advogado com talento para seduzir mulheres e contornar a justiça e uma mãe disposta a perseguir a verdade durante quase quarenta anos. A minissérie francesa de Vincent Garenq, agora na RTP2 e na RTP Play, recebeu uma história que já vinha com argumento, personagens, suspense e tragédia grega incluídos. Por vezes, porém, trata dinamite como se estivesse a preencher uma participação à polícia. A produção francesa é de 2023, tem quatro episódios e adapta livremente o livro de Roger-Louis Bianchini sobre o caso Agnès Le Roux.
O património, os afectos e a catástrofe.

Renée Le Roux (Michèle Laroque) dirige o Palais de la Méditerranée, um dos grandes casinos da Riviera, e tenta resistir às manobras do rival Jean-Dominique Fratoni, num ambiente onde a palavra “concorrência” tem um significado bastante mais musculado do que nos manuais de economia. A máfia ronda as mesas, a política mistura-se com o jogo e todos parecem conhecer alguém que resolve problemas. Entra Maurice Agnelet (Yannick Choirat), advogado, sedutor, ambicioso, amante de Agnès Le Roux (Marie Zabukovec) e daqueles homens que chegam a uma família como conselheiros e, quando se dá por isso, já estão a gerir o património, os afectos e a catástrofe.
Agnès desafia a mãe, vende a Fratoni os seus direitos no casino por três milhões de francos e, poucos meses depois, desaparece. O corpo nunca será encontrado. O carro também não. O dinheiro, esse, deixa mais pegadas do que as pessoas. Agnelet torna-se suspeito, mas a justiça francesa gastará décadas, recursos, absolvições, reviravoltas e sucessivos julgamentos até à condenação de 2014. Renée transforma entretanto a procura da filha numa segunda vida. Ou na única que lhe restou.
A mãe ganha ao “true crime”

A actriz Michèle Laroque, tantas vezes associada à comédia, mas com uma carreira bastante mais larga que passa por filmes como Ma Vie en Rose (1997), de Alain Berliner, O Closet (Le Placard, 2001), de Francis Veber, ou Brillantissime (2018), que também realizou, faz de Renée uma mulher de aço sem precisar de passar quatro episódios a mostrar os dentes. Bastam-lhe a postura, o olhar, a secura das frases. Podia ter caído na habitual mãe-coragem televisiva, condenada a sofrer dignamente enquanto a música sobe. Laroque recusa esse atalho. Dá-lhe autoridade, orgulho, dureza e contradição, além de uma obstinação quase administrativa: se o sistema não quer saber, ela obriga o sistema a saber.
Yannick Choirat, actor sólido que passou por Ferrugem e Osso (De rouille et d’os, 2012), de Jacques Audiard, Annie Colère (2022), de Blandine Lenoir, e pela série Les Combattantes (2022), também foge ao vilão de catálogo. Maurice Agnelet não entra com música ameaçadora nem traz “assassino” escrito na testa. É afável, inteligente, sedutor, escorregadio. Quanto mais civilizado parece, pior. A série percebe bem que o poder de um manipulador reside precisamente na aparência de normalidade.
Marie Zabukovec, vista entretanto em La Bonne épouse (2020), de Martin Provost, Mascarade (2022), de Nicolas Bedos, e na série da Netflix Notre-Dame – Catedral em Chamas (2022), tem menos sorte. A Agnès que lhe dão fica demasiado presa à jovem apaixonada, impulsiva e vulnerável, peça necessária para pôr a engrenagem em andamento. O caso real deixa entrever uma mulher bem mais contraditória, livre e difícil de domesticar, até pela narrativa. É também uma das reservas mais justificadas perante a série: os actores defendem as personagens melhor do que alguns diálogos as escrevem.
Quando os factos escrevem melhor
Garenq e os argumentistas Nicolas Jean, Isabelle Dubernet e Olivier Eloy receberam material para dez episódios e tiveram quatro. Comprimem, explicam, avançam. Funciona: percebe-se tudo e ninguém se perde entre contas suíças, amantes, administradores, magistrados, casinos e décadas. Só que a eficiência cobra juros. Certas cenas parecem escritas com medo de que o espectador se levante durante trinta segundos para ir buscar água e regresse incapaz de compreender a justiça francesa.
Tudo Por Agnès é demasiado respeitável para a história indecente que conta. Falta-lhe risco, sombra, veneno; falta-lhe confiar nos silêncios e aliviar os diálogos obrigados a transportar informação às costas. André Téchiné, em L’Homme qu’on aimait trop (2014), apresentado nesse ano no Festival de Cannes, com Catherine Deneuve, Guillaume Canet e Adèle Haenel, encontrou melhor a dimensão sensual e doentia daquele triângulo. E a excelente série documental Tant qu’ils ne retrouvent pas le corps (2023), de Rémi Lainé e Pascale Robert-Diard — três episódios também disponíveis na RTP Play — fez do tempo, do segredo e da decomposição de duas famílias uma matéria quase sufocante. A própria crítica francesa assinalou essa rigidez narrativa e a tendência da ficção para explicar demasiado um caso que continua, inevitavelmente, cheio de zonas de sombra.
O testemunho-chave, mas polémico
Isso sente-se sobretudo no último andamento, quando Guillaume Agnelet, filho de Maurice, rompe décadas de lealdade e testemunha contra o pai. Na vida real foi um terramoto judicial e familiar. Na série é forte, claro, inevitável e devia doer mais. O caso Le Roux fala de pessoas que viveram quarenta anos dentro de uma ausência, de filhos obrigados a escolher entre o pai e a verdade, de mulheres usadas como álibi, de dinheiro transformado em prova e de uma justiça que chegou tão tarde que quase podia ter pedido desculpa pelo atraso.
Tudo Por Agnès vê-se muito bem e recomenda-se ainda melhor, sobretudo a quem desconhece o caso. Tem quatro episódios, actores sólidos, reconstrução de época elegante e uma história impossível de abandonar a meio. A sua concorrente mais feroz é a própria realidade. E perde por pontos. Na Riviera, o casino estava viciado, a justiça baralhou as cartas durante décadas e Agnès desapareceu sem deixar corpo. Os factos ficaram com o jackpot.
JVM

