© K2 Pictures

Marilyn Monroe chegou finalmente aos 100 anos — pelo menos no cinema —, Ellen Burstyn recebe hoje o Leão de Ouro aos 93, Koreeda voltou a filmar a criação como ferida e salvação, Paolo Strippoli descobriu que uma família pode ser mais assustadora do que qualquer monstro e SABU transformou a amnésia num filme de acção.

A programação de um festival tem dias em que os filmes parecem ter combinado previamente o assunto. Provavelmente, não criaram um grupo de WhatsApp nem reuniram com Alberto Barbera — mas é decerto obra dele — às sete da manhã no Excelsior, mas chegam às salas e começam todos a falar, cada um à sua maneira, da mesma coisa. Neste Dia 6, a pergunta foi esta: o que sobra de nós quando a indústria, a família, a culpa, o tempo ou o próprio cérebro começam a apagar aquilo que somos?

A resposta mais bonita apareceu logo com Marilyn Monroe. Ou, mais exactamente, com duas Marilyns.

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Marilyn aos 100, finalmente no seu esplendor

Flesh Impact - Festival de Veneza
© Innocean USA / Superprime / The Cut

Em Flesh Impact, Maggie Gyllenhaal faz uma coisa que Hollywood raramente conseguiu fazer com Marilyn Monroe: deixa-a falar. Durante décadas, Marilyn foi transformada em mobiliário luminoso do século XX: vestido branco, boca entreaberta, perfume, cartazes, canecas e uma quantidade industrial de gente a explicar quem ela era sem lhe perguntar absolutamente nada. Gyllenhaal imagina-a aos 100 anos. Dakota Johnson é a Marilyn jovem, no auge da exposição; Ellen Burstyn é a Marilyn que nunca existiu, aquela que teve autorização para envelhecer. A curta não tenta propriamente ressuscitar Monroe; tenta devolver-lhe aquilo que a mitologia lhe roubou: idade, pensamento, hesitação, raiva, consciência do próprio corpo. E há ainda a deliciosa ironia da inteligência artificial. Gyllenhaal chegou a experimentar colocar digitalmente o rosto de Marilyn sobre o de Dakota Johnson e acabou por deitar tudo fora: a interpretação real era mais viva, mais imperfeita e, portanto, infinitamente mais humana. Um filme sobre uma mulher transformada em imagem acaba assim a descobrir que a tecnologia consegue fabricar imagens perfeitas, mas continua sem conseguir fabricar presença.

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Depois há Ellen Burstyn. Aos 93 anos, recebe hoje o Leão de Ouro de Carreira e a coincidência é quase demasiado boa para ter sido inventada: uma actriz que envelheceu diante de nós interpreta uma actriz que nunca teve essa possibilidade. Basta-lhe entrar num plano e carregar consigo O Exorcista, Alice Já Não Mora Aqui, Requiem for a Dream e mais de meio século de cinema americano. Marilyn morreu aos 36. Ellen chegou aos 93. Entre uma e outra está talvez toda a história daquilo que Hollywood fez — e continua a fazer — com o corpo das mulheres.

Kore-eda olha para trás para conseguir continuar

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Depois chegou a vez do realizador japonês Hirokazu Kore-eda (Culpado – Inocente – Monstro) com Look Back, adaptação do manga de Tatsuki Fujimoto, e mudou completamente o tom sem abandonar o assunto. Fujino e Kyomoto são duas raparigas unidas pelo desenho. Uma cria personagens, a outra cenários. Crescem, trabalham, sonham e descobrem aquilo que qualquer pessoa que tenha insistido demasiado tempo numa vocação acaba por descobrir: criar dá uma alegria absurda e também pode destruir-nos um bocadinho.

Kore-eda acompanha-as ao longo das estações de Tōhoku e faz aquilo que sabe fazer melhor: aproxima-se sem invadir. Não transforma a juventude numa tese sociológica nem a criação num daqueles discursos motivacionais que acabam invariavelmente com alguém a dizer “segue os teus sonhos”. Felizmente. Interessa-lhe o vínculo, o tempo, a perda, o gesto repetido, o som do lápis sobre o papel e a maneira como duas pessoas se podem tornar indispensáveis uma à outra sem sequer saberem explicar porquê.

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Há aqui muito do Kore-eda de sempre: as famílias que escolhemos, as ausências que reorganizam a vida, a memória como lugar onde continuamos a conversar com quem já não está. O próprio realizador reconheceu no manga uma daquelas obras sem as quais talvez não conseguisse continuar. É uma bela definição de arte: não aquilo que nos salva para sempre, mas aquilo que nos permite chegar ao dia seguinte. E talvez seja precisamente por isso que Look Back funciona tão bem. Porque sabe que olhar para trás não significa necessariamente ficar preso ao passado. Às vezes é a única maneira de conseguirmos continuar em frente.

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A família, esse simpático filme de terror

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Em L’Estranea, do italiano Paolo Strippoli, ninguém precisa de fantasmas porque há uma família. E uma mãe. Chega perfeitamente. Jasmine Trinca interpreta Anna, uma mulher que tenta controlar o destino dos filhos e que, incapaz de aceitar a aleatoriedade aterradora da vida, faz um pacto que regressa anos depois para cobrar a factura. Valeria Bruni Tedeschi é a presença estranha, doce apenas até deixarmos de acreditar na doçura, e Romana Maggiora Vergano completa este triângulo feminino onde amor, culpa e controlo começam perigosamente a parecer a mesma coisa.

Strippoli cruza drama familiar, thriller psicológico e horror. A casa deixa de proteger, a maternidade deixa de significar automaticamente bondade e o amor parental revela aquele lado de que toda a gente prefere falar baixinho: amar alguém não nos dá o direito de decidir quem essa pessoa deve ser.

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É aí que L’Estranea se torna talvez mais interessante. Não quando procura assustar-nos através dos códigos do género, mas quando percebe que o verdadeiro monstro pode esconder-se precisamente no desejo de proteger. Aquilo que começa como amor transforma-se em controlo; aquilo que parece cuidado aproxima-se perigosamente da posse. O filme tem ideias fortes e duas actrizes — Trinca e Bruni Tedeschi — capazes de transformar um olhar numa ameaça bastante mais eficiente do que muito CGI. Nem sempre Strippoli resiste à tentação de sublinhar aquilo que já percebemos, mas, quando acerta, acerta onde dói: nessa fronteira minúscula entre proteger e possuir. E Bruni Tedeschi, que há muitos anos transformou a neurose numa forma de alta combustão cinematográfica, parece ter sido inventada precisamente para este território.

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SABU esqueceu-se de fazer um filme sério.

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Quando o dia já levava mães inquietantes, artistas feridas, Marilyns ressuscitadas e uma quantidade razoável de culpa existencial, apareceu SABU com Arrested Memory para lembrar que o cinema também pode simplesmente divertir-se e divertir-nos, numa sessão fora da competição.

Ethan Juan é um superdetective de Taipé que perde progressivamente a memória depois de uma operação desastrosa e, antes que consiga explicar a alguém aquilo que se passa, é atirado para um caso de rapto, um resgate milionário, polícias, criminosos, perseguições e artes marciais. O homem não sabe exactamente quem é, mas toda a gente continua a exigir-lhe respostas. Uma excelente metáfora para muitos festivais de cinema, aliás. SABU pega na amnésia, que nas mãos erradas podia facilmente dar origem a um dramalhão de prestígio com música grave, chuva na janela e três páginas de monólogo sobre identidade, e transforma-a numa comédia de acção acelerada, absurda e física. Quanto mais perdido Ethan Juan está, mais o filme corre. Quanto menos sabe, mais tem de agir.

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E funciona precisamente porque ninguém parece ter avisado Ethan Juan de que está numa comédia. Ele leva tudo absolutamente a sério e SABU sabe perfeitamente que é dessa seriedade que nasce o disparate.

Mas por baixo da brincadeira regressa, outra vez, a pergunta do dia: se retirarmos a memória a uma pessoa, o que fica? Talvez o instinto, talvez a bondade, talvez aquilo que fazemos quando já não temos uma biografia inteira para nos explicar e justificar.

No fim, Veneza ofereceu uma daquelas coincidências que tornam um festival bastante mais interessante do que a programação vista numa folha de Excel. Marilyn recuperou a voz que lhe roubaram. Koreeda procurou na memória a razão para continuar a criar. Strippoli mostrou como o amor pode apagar a identidade de quem pretende proteger. SABU apagou literalmente a memória do protagonista para tentar descobrir o homem que estava por baixo dela. E Ellen Burstyn, aos 93 anos, vai subir ao palco para receber um Leão de Ouro. Talvez seja essa a imagem deste Dia 6. Não uma Marilyn digitalmente rejuvenescida. Não uma actriz congelada eternamente aos 36 anos. Mas uma mulher velha, viva, presente, ainda a trabalhar, ainda a representar e ainda capaz de surpreender.

Num tempo em que existe tanta tecnologia empenhada em impedir que o cinema envelheça, Veneza teve hoje a sensatez de premiar precisamente o contrário.

JVM


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