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Queer Lisboa ’22 | La fracture, em análise

“La fracture”, filme que integrou a Seleção Oficial do Festival de Cannes em 2021, onde venceu a Palma Queer, chegou ao 26º Queer Lisboa no primeiro dia do evento. Recupera a crise dos “coletes amarelos” e as ramificações políticas e sociais deste movimento, numa comédia negra protagonizada por Valeria Bruni Tedeschi na pele de uma mulher particularmente intransigente. 

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Da autoria da realizadora francesa Catherine Corsini, chegou ao Queer Lisboa, a 17 de setembro, a comédia negra “La Fracture” – com título de distribuição no mundo anglófono “The Divide” – uma narrativa que pondera as várias fraturas na sociedade francesa. Um comentário à desunião social e insustentável gestão política das necessidades do povo francês, “La Fracture” é, em muitos aspectos, uma narrativa clássica de oposição de extremos.

O nosso ponto de partida é o casal Raphaëlle (ou simplesmente Raf, Valeria Bruni Tedeschi) e Julie (Marina Foïs), juntas há 10 anos mas em plena eminência de rompimento romântico. De classe média a média-alta, Raf e Julie vivem num apartamento parisiense confortável, um luxo por si só, e debatem matérias políticas com o notável desprendimento de quem não vive na pele as consequências mais nefastas da crise económica. 

Encontramo-nos no apogeu do movimento dos coletes amarelos, e Raf e Julie vêm toda a situação como um lamentável aborrecimento (em particular Raf). Isto até um infortúnio as confrontar com a realidade das consequências práticas e motivações de quem se manifesta. Em linha com o tom risível que Corsini concede ao comportamento da sua protagonista, eis que Raf cai no meio da rua ao perseguir Julie enquanto lhe implora pateticamente que não a deixe, por mais certa que Julie possa estar da sua decisão.

La Fracture
 Créditos: Festival de Cannes/ CHAZ Productions

Em sequência desta queda, Raf tem de ser transportada para as urgências de um hospital público e, à medida que chega ao local, com um braço potencialmente partido e uma pulseira vermelha, hordas de pacientes começam também a afluir às urgências como consequência da brutalidade policial que se vive nas ruas parisienses durante as manifestações dos coletes amarelos. À medida que a noite avança a violência escala e vários incidentes, envolvendo a polícia, transmitem a ocasional sobriedade ao enredo.

É na sala de espera, ainda mais no início da narrativa, que Raf encontra Yann (Pio Marmaï), um manifestante que foi injustamente baleado pela polícia e que, revoltado e desesperado por voltar ao trabalho, depressa se envolve em confrontos verbais com a altiva Raf. Entre Raf e Yann desenvolve-se uma dinâmica algo previsível. Ela é uma mulher privilegiada, uma artista com uma vida confortável. Ele um camionista que nunca saiu da casa da mãe e que, quase a roçar o inacreditável, não se pode dar ao luxo de faltar um dia ao emprego devido a uma emergência médica. São extremos opostos e, como tal, chocam.

Acompanhando a previsibilidade desta comédia politizada, as suas opiniões e perspetivas divergentes acabam, no fim, por levar a um meio termo, a um encontro, depois de muita chacota por parte de Raf, claro está. A dinâmica de contrastes entre estas duas personagens provoca algum divertimento em quem vê, o riso ocasional, mas também uma situação de irritação nítida.

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A irascível Raf e o afável Yann não poderiam ser mais antagónicos: ela é cética, cruel e egoísta – razão pela qual a sua esposa a pretende deixar, diga-se – e ele é trabalhador, esforçado e empático (e também uma figura sem grande profundidade, não indo muito além do estereótipo). O equilíbrio entre ambos não nos faz atingir um cenário ideal de yin e yang, uma vez que Raf é francamente irritante e apesar de Valeria Bruni Tedeschi (curiosamente a irmã de Carla Bruni, a modelo casada com Nicolas Sarkozy) apresentar um desempenho irrepreensível, não conseguimos chegar a simpatizar com a sua figura. É, pura e simplesmente, demasiado cansativa.

Pois embora “La Fracture” saiba oscilar entre comédia, drama e comentário político – embora por vezes desequilibrando as suas facetas mais cómicas e trágicas – há algo que não é possível ultrapassar. A forma como berra os seus argumentos, de forma muito literal. Enquanto procura retratar a saturação dos serviços de emergência médica (uma representação que provoca no povo portugês notória identificação), tanto do ponto de vista dos pacientes como dos profissionais de saúde, o filme não tira tempo para a reflexão, para permitir a quem vê respirar. Inunda o nosso cérebro com constante gritaria e, embora consiga desta forma sugar-nos para a insanidade do momento que está a procurar retratar, nunca nos permite retirar as nossas próprias ilações.

 Créditos: FEST/ CHAZ Productions

Em várias frentes, não há dúvida de que “The Divide” sabe cumprir o seu propósito. A tensão escala de forma impressionante, induzindo ansiedade e compaixão em quem vê. Fá-lo particularmente através da figura da enfermeira Kim, interpretada com contenção e erudição por Aïssatou Diallo Sagna, uma atriz estreante e que é enfermeira na vida real. Por este papel, foi inclusive indicada a um César, reconhecendo o cunho realista que a sua presença é capaz de trazer à narrativa e de alguma forma equilibrando a berraria incómoda e caricatural que Raf vai perpetuando.

A crítica à inação política e à brutalidade policial também tem os seus méritos evidentes, que por vezes se parecem ver diluídos num mar (intencional) de caos narrativo. Não obstante, berraria à parte, a história oferece uma experiência de sala interessante e com os seus méritos – em particular para quem seja fã de drama hospitalar.

Assim é “La Fracture”, que volta a exibir no Queer Lisboa ’22 a 24 de setembro (último dia de programação), pelas 18h30, na Sala 3 do Cinema São Jorge.

TRAILER | LA FRACTURE NO PANORAMA DO QUEER LISBOA 26

La fracture, em análise
Panorama Queer Lisboa '22

Movie title: La fracture

Movie description: Raf e Julie, um casal à beira da separação, estão no Serviço de Urgência de um hospital que está à beira do colapso por causa da manifestação dos Coletes Amarelos em Paris, nessa noite. O encontro de ambas as mulheres com Yann, um manifestante ferido e furioso, vai fazer estremecer todas as suas certezas e preconceitos. Lá fora, a tensão é crescente e, em breve, o hospital terá de encerrar as suas portas porque o pessoal clínico não consegue acudir mais pacientes. Vai ser uma longa noite...

Date published: 21 de September de 2022

Country: França

Duration: 98'

Author: Catherine Corsini,Agnès Feuvre, Laurette Polmanss

Director(s): Catherine Corsini

Actor(s): Valeria Bruni Tedeschi, Marina Foïs, Pio Marmaï, Aissatou Diallo Sagna

Genre: Comédia, Drama

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  • Maggie Silva - 70
70

CONCLUSÃO

Sem saber muito bem se é um drama hospital ou uma comédia negra de inclinação política, “La fracture” vive entre as suas contradições internas. Fá-lo suportando-se no trabalho eficaz dos seus intérpretes, e ancorando-se ainda numa tensão crescente ao longo de 98 minutos de duração.

Pros

  • Valeria Bruni Tedeschi como Raf, a afetada protagonista do filme; 
  • Os momentos mais dramáticos do filme, como o “cerco” policial ao hospital e o sub-enredo alusivo à jovem espancada durante a manifestação;
  • A enfermeira Kim, a sua paixão e tranquilidade.

Cons

  • Interpretação à parte, o papel de Raf, as palavras que esta profere, são sempre demasiado berrantes e inapropriadas para o evento retratado. A exasperação é inevitável;
  • Toda a cena que envolve o doente da ala psiquiátrica, que parece apenas existir para melodramatizar. Não há avanço narrativo e não se extrai nada particularmente valioso, já sabíamos – a este ponto da história –  que os serviços de urgência estavam repletos e com falta de staff;
  • O casal central LGBTQIA+ não é realmente o ponto central da história e seria com facilidade substituído por outro ângulo narrativo;
  • Diálogos onde a subtileza está notoriamente ausente.
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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