“Oasis: Don’t Look Back in Anger” mostra Liam e Noel Gallagher a fazerem aquilo que parecia mais improvável do que uma reforma do rock britânico: tolerarem-se novamente. Dinheiro? Claro. Saudade? Também. Mas o verdadeiro motor da reunião talvez seja mais simples e bastante menos romântico: chegaram à idade em que continuar zangado dá demasiado trabalho.
Afinal, porque raio voltaram os Oasis? Pela música? Pelo dinheiro? Pelos filhos? Pela saudade? Porque alguém lhes explicou que já tinham passado quinze anos e talvez fosse altura de deixarem de discutir como dois adolescentes de Manchester presos em corpos de cinquenta e muitos? Oasis: Don’t Look Back in Anger, que chega às salas portuguesas hoje 10 de Setembro, não responde apenas com uma frase, que é aliás um tema da banda: “Don’t Look Back in Anger” (não olhes para trás com raiva) e faz parte do famoso álbum (What’s the Story) Morning Glory. Mas se respondesse apenas “amor fraternal”, podíamos pedir o dinheiro do bilhete de volta. Se respondesse apenas “dinheiro”, também era curto. A verdade está algures entre um abraço mal dado, um palavrão, um estádio cheio e uma conta bancária capaz de reconciliar Caim e Abel e não chegaram a matar-se um ao outro.
Deu-lhe com a guitarra

Os Oasis acabaram em Agosto de 2009, em Paris, depois de uma discussão em que uma guitarra também entrou no debate. Liam e Noel passaram quinze anos praticamente sem se falar, o que, naquela família, talvez conte que como uma espécie de retiro espiritual. E depois aconteceu. Sem violinos, lágrimas, psicólogos familiares ou um especial da Oprah. Quando se reencontraram nos ensaios, em Junho de 2025, a cena foi tão emocionalmente britânica que quase precisava de legendas: pouca conversa, nenhum abraço de novela e Liam a pousar o saco antes de perguntar, basicamente, se era para começar. Dez segundos depois estavam a tocar. Talvez seja a melhor explicação para os Oasis: nunca precisaram de gostar muito de conversar para saberem exactamente o que fazer quando começa a música.
Steven Knight, criador de Peaky Blinders e responsável pela concepção e escrita do filme, tem uma teoria muito menos espectacular e provavelmente mais verdadeira: os dois estavam finalmente prontos. E estar pronto demorou década e meia. A idade faz coisas curiosas aos homens. Aos vinte anos, uma provocação parece uma guerra civil; aos cinquenta, há discussões que já gastam mais energia do que um concerto de duas horas. Noel e Liam terão descoberto que, por baixo de quinze anos de ressentimento, continuavam a ser irmãos, continuavam bastante parecidos e, sobretudo, continuavam a soar como Oasis quando estavam juntos.
Mas não façamos agora deles dois monges franciscanos que regressaram ao palco para distribuir paz, amor e Wonderwall pelos povos do mundo. Houve dinheiro. Muito. Toneladas dele. Bilhetes vendidos a preços que conseguiram transformar a nostalgia num sofisticado produto financeiro. E aqui Oasis: Don’t Look Back in Anger é talvez demasiado bem-comportado: emociona-se bastante com os fãs e muito menos com a extraordinária capacidade da indústria musical para converter essas lágrimas em tarifa dinâmica. A reconciliação pode ter sido absolutamente genuína; a gigantesca operação comercial também foi. Uma coisa não invalida a outra. Até Romeu e Julieta teriam hoje merchandising oficial.
Um saudosismo que dá muito dinheiro

O mais divertido é que nem os próprios Gallagher parecem ter percebido a dimensão do monstro que estavam a acordar. Noel ficou espantado quando lhe falaram em estádios; julgava que iriam fazer arenas. Depois veio Cardiff, a 4 de Julho de 2025, e percebeu-se que os Oasis já não pertenciam apenas à geração que cresceu nos anos 90. Pais levavam filhos, filhos sabiam letras escritas antes de nascerem e homens que em 1996 atiravam copos de cerveja uns aos outros estavam agora a perguntar onde ficavam as casas de banho e se havia cadeiras disponíveis. A Britpop envelheceu. E, milagre dos milagres, sobreviveu-lhe o fígado.
É aí que Oasis: Don’t Look Back in Anger encontra a sua melhor ideia: os Oasis puderam voltar porque entretanto deixaram de ser apenas uma banda. Tornaram-se uma espécie de memória colectiva internacional. As canções chegaram ao Brasil, à Coreia do Sul, ao Japão e a lugares onde Manchester é apenas um nome num mapa, mas Don’t Look Back in Anger, Live Forever ou Wonderwall fazem parte da biografia emocional de milhões de pessoas. O filme encontra gente para quem aquelas músicas funcionam quase como uma saída de emergência. Talvez os próprios Gallagher tenham finalmente percebido aquilo que às vezes demora aos artistas uma vida inteira a entender: a música que criaram já era muito maior do que a zanga que os separou.
A química continua lá
E há outra razão para esta reunião funcionar melhor do que tantas operações geriátrico-financeiras do rock: no palco, a química continua lá. Liam canta de queixo projectado para a eternidade, mãos atrás das costas, como se o microfone lhe devesse dinheiro. Noel continua com aquele ar do irmão que mudou com as experiências da vida e chegou à conclusão de que toda a gente percebeu tudo mal. Separados, são dois Gallagher. Juntos, voltam a ser Oasis. Não é exactamente amizade. Talvez nem sequer seja ternura. É química. E a química tem uma enorme vantagem sobre as relações familiares: não exige pedidos de desculpa por escrito, nem contratos de casamento.
O filme mostra ainda uma coisa que me parece decisiva: a aproximação não acontece de repente. No princípio há distância, cautela, quase uma coreografia diplomática. Depois, concerto após concerto, aparecem abraços, beijos, piadas, cumplicidades e finalmente os dois a falar juntos. A digressão transforma-se assim numa espécie de terapia familiar com 70 mil pessoas por sessão e amplificadores em vez de psicólogo. Não sabemos se a paz será eterna — com os Gallagher a palavra “eterna” deve vir sempre acompanhada de asterisco, nota de rodapé e cláusula de rescisão —, mas pela primeira vez parece existir qualquer coisa mais sólida do que uma trégua assinada à porta de um estádio, antes de um grande concerto.
É mais divertido juntos
Então porque voltaram? Pelo dinheiro, sim. Porque a procura era absolutamente absurda, também. Porque a indústria percebeu imediatamente que havia ouro naquele ressentimento envelhecido, evidentemente. Mas também porque ficaram mais velhos, porque a raiva perde muito do glamour quando começa a doer a lombar, porque os filhos aproximaram mundos, porque as canções nunca desapareceram e porque, depois de quinze anos a provar que conseguiam viver um sem o outro, talvez tenham finalmente descoberto que estarem juntos era bastante mais divertido.
No fundo, Oasis: Don’t Look Back in Anger é menos um filme sobre uma banda que regressa do que sobre dois irmãos que perceberam demasiado tarde — mas ainda a tempo — que passaram uma boa parte da vida a olhar para trás com raiva. E há qualquer coisa de deliciosamente Oasis nisto tudo: precisaram de quinze anos, uma digressão mundial, milhões de libras, estádios cheios, câmaras de cinema e dezenas de milhares de pessoas a cantar em coro para chegarem a uma conclusão que qualquer mãe lhes teria dado em Manchester à mesa do jantar, entre a sopa e o prato principal: parem lá com essa merda e façam as pazes.
JVM

