Cineasta previamente associada ao trabalho de coordenadora de intimidade em grandes projectos como “La La Land” ou ” MaXXXine“, Corrin Evans veio até Lisboa para apresentar a sua longa-metragem “Corpus”, em pessoa, na 20.ª edição do MOTELx.
Pertinente para o projecto em causa é precisamente a experiência profissional prévia da realizadora, pois “Corpus” é um filme que nem sempre vence na componente do terror ou do argumento mas que sem dúvida sabe explorar o objecto do desejo e as suas manifestações. O erótico permeia “Corpus” como o seu elemento mais forte, sendo a pertença e total entrega ao outro e ao seu corpo um tema central para o desenlace curioso da obra.
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Encontrámos este filme na secção principal do MOTELx em 2026, o Serviço de Quarto, panorama compreensivo daquilo que foi o cinema de terror no último ano, com particular relevância para a revista da cena festivaleira.
Fotografia, anos 90 e desejo no 20.º MOTELx
“Corpus”, uma obra de época localizada na década de 90 do século XX, acompanha a história de um fotógrafo talentoso, Sayo (Jeff Wahlberg). Este jovem vive na noite, traficando droga e registando, com notável arte e destreza, a vida noturna da Nova Iorque desta altura. A sua rotina é perturbada quando Vince Marlowe, um jovem ator seu amigo de longa data e com quem mantém uma complicada relação semi-romântica, regressa à metrópole e o convida para uma festa numa mansão remota.
Em conjunto com outro dos seus amigos, Ross, três jovens partem em busca de uma festa misteriosa. Depressa descobrem que a mansão remota alberga apenas três mulheres – o casal Billie (a fotógrafa que convidou Vince para a “festa) e Cata, bem como a sua sanguinária e estranha amiga Wren. O grupo de rapazes permanece na casa mesmo depois de se revelar que os pretextos de Billie foram algo opacos e, juntos, lançam-se numa celebração de um feriado religioso.
Mas Billie, Cata e Wren têm objectivos ocultos e rapidamente o ajuizado Sayo compreende que se pode encontrar em risco. “Corpus” é sem dúvida um filme de progressão lenta, que se define mais através do seu clima misterioso e sensual do que através do seu enredo ou evolução narrativa.
A promessa não cumprida do enredo de Corpus
Durante muito tempo, não sabemos o que se passa em “Corpus”, e quando finalmente “tudo” é revelado, ficam mais perguntas no ar do que respostas. Infelizmente, e embora Corrin Evans sem dúvida tenha potencial como realizadora, “Corpus” é exatamente o tipo de filme onde a componente estética acaba por se sobrepor ao argumento.
A fotografia e a construção das sensações, bem como da sensualidade que emana, são muito mais desenvolvidas do que qualquer engenho narrativo, sendo que o enredo acaba por terminar numa espécie de terra de ninguém pouco satisfatória.
Todavia, as prestações centrais e o clima febril e inebriante, em conjunto com a estética cuidada, acabam por salvar um pouco “Corpus”, apesar de sentirmos que, sem dúvida, havia aqui um filme mais complexo e detalhado que podia ser extraído da premissa inicial.
Não há razão para a obra tão pouco se localizar nos anos 90, não no que diz respeito ao enredo. Ademais, os mecanismos “mágicos” que movem o enredo carecem de explicação ou razão de ser. Simplesmente são. Muito não é dito, e talvez também não tenha sido pensado. Ainda assim, fica uma aura própria, uma névoa poética, que indicia promessa.
Corpus, a Crítica
Conclusão
“Corpus” é um filme de época atmosférico com uma componente estética que se sobrepõe à narrativa e uma valência erótica que salva uma conclusão pouco aprofundada.

