Oito anos depois de “The Wailing- O Lamento”, Na-Hong Jin está de regresso aos cinemas. Após uma estreia muito barulhenta no Festival de Cannes, o filme de monstro sul-coreano agraciou os ecrãs do Cinema São Jorge, este domingo, dia 6 de setembro, às 20h10, no âmbito do MOTELX 2026.
A narrativa acompanha os habitantes de Hope Harbor, na Coreia do Sul. Quando incêndios florestais cortam as comunicações e uma criatura misteriosa surge nas montanhas, polícias e caçadores tornam-se presas de uma viagem alucinante que mistura terror, ação, ficção científica e comédia negra.
Um espetáculo de ação construído com mestria por Na Hong-Jin
Não é preciso muito tempo de fita para entender que estamos nas mãos de um absoluto mestre. Do primeiro ao último minuto, os diálogos são rápidos, as personagens imediatamente identificáveis e cada cena de ação é filmada com propósito e adrenalina.
Assim, o realizador nunca perde o espetador no meio do caos: cada movimento de câmara serve a ação, cada corte tem propósito de nos envolver ainda mais no que estamos a ver. Chega a ser difícil explicar como é que ele consegue este casamento perfeito.
As cenas de perseguição sucedem-se ao longo de duas horas e vinte minutos, e mesmo quem não é fã do género não pode dizer que não foi minimamente entretido. “Hope” foge dos lugares comuns e atira-se em todas as direções, sem nunca perder o controlo.
Hwang Jung-min e Jung Ho-yeon no centro do caos perfeito
O verdadeiro motor da obra reside, no entanto, no excelente trabalho do elenco coreano: Hwang Jung-min (“Ode to My Father”) surge como o chefe de polícia Bum-seok, o arquétipo perfeito do herói completamente sem rumo face a uma situação catastrófica muito acima das suas capacidades, alimentando a narrativa com uma comédia física e uma neurose ansiosa deliciosas, enquanto Jung Ho-yeon (“Squid Game“) surge como o contraste ideal, trazendo um carisma magnético e uma total falta de paciência para as hesitações do protagonista e muito menos para os monstros.
A longa-metragem é apoiada por um ecossistema de arquétipos secundários que aproveita cada pequeno momento para brilhar e embelezar este mundo particular.
Hope: O terror de aldeia pequena que conhece toda a gente
“Hope” também é um “small town horror” na sua essência. Na Hong-Jin constrói um elenco de personagens absurdas, mas com quem nos importamos genuinamente desde os primeiros minutos. Toda a gente na aldeia se conhece, e é exatamente essa proximidade que multiplica o terror: quando o perigo chega, atinge vizinhos, não desconhecidos. É essa dinâmica comunitária que dá ao filme um clima quase de comédia negra, sem nunca perder a tensão de fundo. É cinema espetáculo no seu expoente puro, que entende que quanto mais nos importamos, mais envolvidos e chocados ficamos com os desenvolvimentos.
Seguindo o exemplo de nomes como Park-Chan Wook ou Bong Joon-ho, Na-Hong Jin mostra também aplicar o humor como uma ferramenta notável para apanhar o espectador desprevenido nos momentos mais tensos.
Há uma cena de cerca de dez minutos envolvendo o ator Im Hyun-sik que, sozinha, justifica o bilhete: é, provavelmente, a sequência mais engraçada do ano em qualquer filme. É um bom resumo da filosofia de ‘Hope’: quanto mais exagerado e demorado, melhor funciona.
O visual dos aliens divide, mas não estraga a experiência de Hope
Com um orçamento estimado de 46 milhões de dólares, “Hope” é avaliado como o filme mais caro da história da Coreia do Sul. Contudo, o trabalho feito com os aliens não impressiona visualmente: um monstro lembra “Attack on Titan“, outro parece um Gormiti. O CGI assume, por vezes, um ar rústico, quase artesanal. Mesmo assim, esse acabamento menos luxuoso acaba por servir a identidade do filme. Não incomoda, porque o resto está tão bem construído que dá para esquecer rapidamente. Há um à-vontade em toda a produção que compensa qualquer imperfeição visual. Na Hong-Jin sabe exatamente o que quer mostrar e quando o quer mostrar, e isso pesa mais do que a qualidade dos efeitos.
A ambição estilo Marvel que faz Hope tropeçar
O guião até constrói empatia com os próprios monstros, um dos pontos mais interessantes de “Hope”. Aos poucos, o espetador começa a perceber as criaturas como algo mais complexo do que simples ameaças, e essa camada extra eleva o filme acima do género. O problema chega no terceiro ato.
O filme entrega-se a cenas em que os aliens se explicam e fazem ameaças, à boa maneira de um blockbuster da Marvel. Sente-se claramente a preparação para uma sequela, já confirmada por Na Hong-Jin em Cannes. Porém, o tom destoa do resto. Não é assim que se termina uma história que, até ali, tinha construído o próprio caminho.
Fica também a dúvida sobre a contratação de nomes como Michael Fassbender, Alicia Vikander e Taylor Russell para personagens praticamente inexistentes. O trio de estrelas empresta o rosto e a voz às criaturas, mas não há muito ali. É um desperdício de talento que o filme nunca chega a justificar.
Hope: Vale o bilhete, vale a sala cheia

“Hope” tem tudo para entrar na conversa sobre os melhores filmes de terror do ano. A construção do espetáculo, o domínio técnico de Na Hong-Jin e as performances do elenco coreano compensam largamente as imperfeições visuais e o desfecho mais fraco. É um filme feito para ver em sala.
Poucas sessões geram a reação que “Hope” arrancou ao público do MOTELX. A sala ria, gritava, vibrava em conjunto durante praticamente todo o filme. É esse tipo de experiência coletiva que só o cinema, com uma sala cheia e entregue, consegue oferecer. Foi, sem exagero, uma das melhores sessões que vivi nos últimos tempos.
“Hope” já pode ser visto nos cinemas portugueses!
Hope
Conclusão
“Hope” é um espetáculo de cinema de género bem-sucedido do início ao fim. O domínio técnico das cenas de ação, a construção comunitária do terror e o trabalho do elenco coreano sustentam um filme que diverte de forma quase ininterrupta durante duas horas e vinte minutos. As imperfeições existem, mas nunca chegam a comprometer a experiência.

