Aos 76 anos, Pedro Almodóvar volta a transformar desejo, culpa, mães, amantes e crises criativas em cinema. Mas desta vez há uma diferença: o principal suspeito é ele próprio. Natal Amargo pergunta até onde pode um artista roubar as vidas dos outros e responde como seria de esperar: fazendo mais um filme.
A maioria dos realizadores, aos 76 anos, começam já a pensar em homenagens, retrospectivas, livros de memórias e numa bela fotografia a preto e branco para ilustrar a carreira. Pedro Almodóvar prefere suspeitar de si próprio. Em Natal Amargo, depois da passagem por Cannes e pelo Queer Lisboa, o espanhol regressa às salas portuguesas com um filme que parece começar por contar a história de outras pessoas até percebermos que está sobretudo interessado em investigar o homem que está atrás da câmara. Não é exactamente uma autobiografia, até porque Almodóvar nunca faria uma coisa tão simples. É antes uma confissão com alçapões, espelhos e falsas paredes, onde o realizador se pergunta se passou quase cinquenta anos a transformar dores, segredos, amantes, amigos, mães e conhecidos em matéria-prima cinematográfica. E se calhar passou. A diferença é que agora decidiu deixar a vítima entrar no filme e protestar.
Bárbara Lennie sofre, Almodóvar toma notas
Elsa, interpretada por uma magnífica Bárbara Lennie, é realizadora, embora sobreviva profissionalmente graças à publicidade. Tem crises de pânico, enxaquecas, bloqueios criativos e a morte da mãe para digerir. Como quase toda a gente que vive no século XXI e possui um telemóvel, resolve o problema trabalhando mais. Até o corpo lhe explicar que não está de acordo. Elsa parte para Lanzarote, acompanhada por Patricia, interpretada por Victoria Luengo. Surge Natalia, com Milena Smit, existe Bonifacio, namorado mais novo vivido por Patrick Criado, há relações sentimentais em processo de implosão, desejo, morte, amizade e aquele tipo de sofrimento que num filme de Almodóvar nunca chega sozinho: traz sempre alguém vestido muito melhor do que nós.
Seria já matéria suficiente. Só que Almodóvar resolve puxar o tapete. Elsa é também personagem da história que Raúl Durán está a escrever. E Raúl, interpretado por Leonardo Sbaraglia, é realizador, argumentista, obsessivo e sofre da doença profissional que assombra todos os criadores que chegaram suficientemente longe: o medo de um dia acordarem sem nada para contar. O cabelo grisalho ajuda, a profissão não deixa grandes dúvidas e o próprio Almodóvar já reconheceu a proximidade entre ambos. Se Antonio Banderas, em Dor e Glória, era uma espécie de Pedro que olhava para o passado, Sbaraglia interpreta agora um Pedro aterrorizado com o futuro. Ou seja, o problema já não é: «O que fiz da minha vida?» É: «E se amanhã não tiver filme?»
Roubar uma vida dá quantos anos de prisão?

É aqui que Natal Amargo encontra o seu nervo mais interessante. Raúl faz aquilo que escritores, realizadores e jornalistas fazem desde que alguém inventou a frase «baseado em acontecimentos reais»: ouve os outros e guarda material. Histórias privadas, confidências, sofrimentos e episódios íntimos começam a entrar no argumento. O problema surge quando Mónica, interpretada por Aitana Sánchez-Gijón, percebe que a própria vida foi reciclada em ficção. E aí chega a pergunta verdadeiramente incómoda do filme: a partir de que momento a inspiração passa a roubo? Basta trocar um nome? Mudar Madrid por Lanzarote? Transformar um namorado num primo? E se a história ficar muito boa, o crime prescreve? A sequência entre Mónica e Raúl é das melhores do filme precisamente porque Almodóvar não facilita a defesa do seu alter ego. Pelo contrário. Entrega praticamente à personagem a acusação, as testemunhas e as provas.
Sánchez-Gijón torna-se a mulher que entra dentro de um filme de Almodóvar para perguntar ao próprio Almodóvar quem lhe deu autorização para fazer filmes de Almodóvar sobre os outros. E não há resposta directa. Talvez porque o cineasta saiba que todo o criador é um bocadinho vampiro. Alguns roubam frases. Outros gestos. Outros histórias inteiras. Depois chamam-lhes romances, filmes ou crónicas e esperam que ninguém sentado à mesa reconheça o cadáver.
O humor também voltou a casa
Apesar de toda esta conversa sobre morte, culpa, bloqueio criativo e apropriação emocional, Natal Amargo não é uma cerimónia fúnebre de duas horas. Pelo contrário: Almodóvar recupera aqui uma maldade cómica que por vezes parecia ter ficado mais escondida na fase mais solene da carreira. Há egos artísticos, sexo, equívocos, vaidade e pequenos golpes laterais, incluindo uma bicada ao streaming. Quando surge a ideia de levar determinado projecto para uma plataforma, percebe-se rapidamente que o homem que continua a defender apaixonadamente as salas de cinema não considera a Netflix exactamente a oitava maravilha do mundo. Bárbara Lennie é extraordinária precisamente porque evita transformar Elsa num catálogo de sintomas. A depressão, o pânico e o luto não aparecem anunciados por fanfarra; infiltram-se nela. Leonardo Sbaraglia aceita ser espelho, suspeito e quase cúmplice do realizador. Victoria Luengo e Milena Smit mantêm aquela tradição almodovariana segundo a qual as mulheres parecem sempre perceber a vida uns dez minutos antes dos homens. E Aitana Sánchez-Gijón fica com o papel mais perigoso: dizer ao autor aquilo que normalmente só se diz depois de ele sair da sala.
Lanzarote oferece entretanto um Almodóvar visualmente diferente. O negro vulcânico, a secura e os espaços abertos substituem os apartamentos saturados de vermelho, as cozinhas impossíveis e os padrões decorativos que levariam qualquer arquitecto de interiores a pedir baixa psicológica. Mas basta meia dúzia de planos para sabermos onde estamos. Um Almodóvar pode mudar de ilha. Não muda facilmente de ADN.
Almodóvar desmonta a máquina
O filme tem problemas. A estrutura narrativa, feita de histórias dentro de histórias e personagens que podem pertencer ao argumento de outras personagens, exige atenção e por vezes parece gostar um pouco demais da própria engenharia. Há momentos em que vemos Almodóvar a construir o mecanismo quando talvez fosse preferível esquecermo-nos dele. Também há temas familiares, obsessões regressadas do passado e um último movimento que pode dividir quem preferir uma resolução emocional mais limpa. Mas a imperfeição é aqui bastante mais interessante do que seria um Almodóvar impecavelmente confortável. Porque aos 76 anos o realizador não está simplesmente a repetir a velha receita. Está a examinar os ingredientes. Depois de filmes sobre mães, desejo, culpa, abandono, identidade, cinema, memória e morte, começou finalmente a perguntar quem forneceu todas aquelas histórias e se lhes perguntou primeiro se podia utilizá-las.
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Fazer uma lista dos melhores Almodóvar é uma excelente maneira de perder amigos. Portanto, consideremos estes dez títulos não como uma classificação — ninguém precisa de uma guerra civil entre Volver e Fala com Ela — mas como dez portas de entrada numa filmografia onde melodrama, comédia, desejo, crime, mães e cineastas nunca estiveram verdadeiramente separados.
Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988)
Carmen Maura, gazpacho, telefonemas, amantes desaparecidos e uma Madrid permanentemente a segundos de um ataque de nervos. O filme que levou definitivamente Almodóvar ao mundo e continua a ser uma das suas máquinas cómicas mais perfeitas.
A Lei do Desejo (1987)
Cinema, paixão, identidade, ciúme e Antonio Banderas. É talvez o momento em que todas as obsessões futuras do realizador aparecem pela primeira vez juntas e descobrem que se dão maravilhosamente mal.
Tudo Sobre a Minha Mãe (1999)
Mães, teatro, perda, amizade e famílias construídas fora das regras habituais. O filme que confirmou que o antigo provocador da Movida já era um dos grandes melodramaturgos europeus.
Fala com Ela (2002)
Um dos filmes mais belos e moralmente desconfortáveis da sua carreira. O argumento valeu-lhe o Óscar e continua a obrigar-nos a sentir coisas que talvez preferíssemos não ter de explicar imediatamente depois da sessão.
Má Educação (2004)
Memória, desejo, religião, abuso e cinema fundem-se num filme negro onde ninguém consegue perceber completamente onde termina a pessoa e começa a personagem.
Volver (2006)
Penélope Cruz, La Mancha, mães, filhas, mortos que regressam e segredos que nunca chegaram realmente a partir. Um Almodóvar simultaneamente popular, doloroso, sensual e muito divertido.
A Pele Onde Eu Vivo (2011)
Quando Almodóvar decide fazer terror, naturalmente acaba num melodrama sobre corpo, identidade, vingança e obsessão. Antonio Banderas e Elena Anaya entram num dos seus filmes mais perversos.
Julieta (2016)
Alice Munro passada pelo filtro almodovariano. Maternidade, abandono, culpa e silêncio num dos filmes mais depurados de uma carreira que começou precisamente por fazer muito barulho.
Dor e Glória (2019)
Antonio Banderas transforma-se num Almodóvar que não é Almodóvar — embora ninguém se esforce demasiado por esconder a semelhança. Corpo, infância, mãe, drogas, desejo e criação num dos grandes filmes tardios do realizador.
O Quarto ao Lado (2024)
Tilda Swinton e Julianne Moore num filme sobre amizade, doença, morte escolhida e despedida. Primeiro trabalho integralmente em inglês, provou que Almodóvar podia mudar de língua sem perder o sotaque cinematográfico.
E depois chega Natal Amargo (2026), que não precisa de expulsar nenhum destes dez da mesa. Basta-lhe ocupar a cadeira vazia e fazer uma pergunta bastante inconveniente a todos os restantes: de quem eram, afinal, aquelas histórias antes de Pedro Almodóvar decidir que eram suas?
JVM 7/10
Natal Amargo
Conclusão
O criminoso regressa sempre ao local do filme Natal Amargo não é o filme de um realizador a despedir-se. É exactamente o contrário: é o filme de alguém que continua suficientemente inquieto para desconfiar do próprio método. Almodóvar poderia limitar-se nesta fase da vida a realizar versões cada vez mais luxuosas de si próprio. Já conquistou Óscares, Cannes, Veneza, público, crítica e o direito internacional de pintar uma cozinha de vermelho sem prestar explicações. Prefere meter-se em sarilhos. E é provavelmente isso que mantém o seu cinema vivo. Em Natal Amargo, confessa que talvez os artistas sejam ladrões profissionais de emoções alheias. Não pede exactamente desculpa. Também não promete parar. Olha para as impressões digitais, verifica se a luz está boa e filma-as.
Overall
7/10User Review
( votes)Pros
O melhor: Bárbara Lennie, o confronto entre Aitana Sánchez-Gijón e Leonardo Sbaraglia e, sobretudo, um Almodóvar disposto a interrogar a própria forma de criar sem transformar o filme numa sessão pública de psicanálise.
Cons
O pior: a arquitectura de ficções encaixadas pode tornar-se excessivamente cerebral e há momentos em que o filme parece tão interessado em mostrar-nos como funciona que quase nos deixa ver os parafusos.

