A despedida de José Luis Rebordinos acabou com a Concha de Ouro 2026 nas mãos certas: Tender Loving Care deu a Mike Leigh três prémios oficiais e cinco distinções no total, Javier Cámara voltou a confirmar o grande momento do cinema espanhol e Donostia encerrou uma era sem precisar de tocar música triste.
O Festival de San Sebastián 2026 conseguiu as duas coisas mais raras: um grande filme ganhou e ninguém precisou de fingir que não estava à espera. Tender Loving Care, de Mike Leigh, levou a Concha de Ouro e transformou a última noite da 74.ª edição numa espécie de despedida dupla. José Luis Rebordinos fechava a sua última edição como director; Leigh, aos 83 anos, admitira que este poderá muito provavelmente ser o seu último filme. Um deixa o Kursaal. O outro talvez deixe o plateau. E, no meio, ficou um filme sobre gente que cuida de gente, hoje quase material de ficção científica.
Tender Loving Care conquistou três prémios da Competição Oficial — Melhor Filme, Melhor Argumento e Melhor Interpretação Protagonista para Kate O’Flynn, ex aequo com Asta Kamma August — e, juntando o Transforma Make & Mark e o SIGNIS, terminou com cinco distinções. É obra. Sobretudo para um filme em que ninguém salva o mundo, ninguém explode um edifício e o maior efeito especial continua a ser um ser humano a ouvir outro.
Mike Leigh ou como terminar sem fazer um “funeral artístico”
Chamar-lhe apenas prémio de carreira seria injusto. Leigh já tinha Palma de Ouro por Segredos e Mentiras e Leão de Ouro por Vera Drake; não precisava de vir ao País Basco buscar uma medalha de consolação. Tender Loving Care ganhou porque continua a fazer aquilo que o melhor cinema de Leigh sempre fez: encontrar drama numa cozinha, política numa sala de estar e tragédia numa conversa aparentemente banal.
A sua a atriz Kate O’Flynn foi premiada com o Prémio de Interpretação porque o cinema de Leigh vive muito daquilo que os actores conseguem esconder. Não há cenas fabricadas para o vídeo dos Óscares. Há hesitações, cansaço, irritação, afecto. E o argumento parece deixar as personagens andar à solta quando, na verdade, sabe exactamente onde as quer levar.
A Concha acaba por coroar uma carreira e, ao mesmo tempo, prestigiar o próprio festival. Cannes tem Leigh na sua história. Veneza também. Agora San Sebastián pode acrescentar a sua assinatura à lista. Há prémios que valorizam quem os recebe; neste caso acontece também o contrário. Ganha que o deu.
Rebordinos deixa a casa arrumada
A coincidência é demasiado boa para um argumentista inventar. A última edição de José Luis Rebordinos termina a consagrar um cineasta com mais de meio século de carreira e a entregar à sucessora, Maialen Beloki, um festival internacionalmente reconhecido, industrialmente forte e decisivo para o cinema espanhol. Rebordinos dirige San Sebastián desde 2011 e deixa o cargo no final de 2026, com Beloki a assumir a direcção em Janeiro de 2027.
Não transformou Donostia em Cannes, nem tentou. Percebeu que um festival também se afirma sabendo aquilo que não precisa de ser. É sobretudo na relação com o cinema espanhol que a herança fica visível. San Sebastián tornou-se montra, mercado, ponto de encontro e rampa de lançamento. O cinema espanhol já não chega aqui de chapéu na mão a pedir atenção: chega com filmes, estrelas, produtores, plataformas, público e, cada vez mais, confiança.
Os outros prémios também contam
O Prémio Especial do Júri para Border, do chinês Ah Biao, recompensa um filme sexual, físico e formalmente atrevido, daqueles que podem irritar meia sala mas dificilmente deixam alguém indiferente. É também a maneira de um júri dizer: atenção a este nome. A sueca Amanda Kernell ganhou a Concha de Prata de Realização por Brace Your Heart, impondo contenção onde seria fácil carregar no discurso. Já Growth of the Soil, do norueguês Hans Petter Moland, saiu com duas distinções: Asta Kamma August partilhou a interpretação protagonista e Oskar Dahlsbakken venceu pela fotografia de uma paisagem que não serve de postal turístico, pesa sobre as personagens, castiga-as e quase respira com elas.
O conhecido actor espanhol Javier Cámara ganhou a Concha de Prata de Interpretação Secundária por 5 Minutos Más, de Javier Ruiz Caldera. A explicação é simples: consegue transformar cinco minutos num drama conjugal, numa comédia e numa pequena catástrofe doméstica sem parecer que está a fazer esforço. Já tinha sido premiado aqui por Truman. Donostia gosta dele e percebe-se porquê.
O público escolheu a atribuí o seu prémio A Bola Negra, de Javier Calvo e Javier Ambrossi (estreia a 5 de novembro em Portugal), enquanto NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor, venceu como Melhor Filme Europeu. Body of Glass ganhou New Directors, La ilusión de un verano sin fin venceu Horizontes Latinos e o Prémio da Juventude, e Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma conquistou Zabaltegi–Tabakalera. Até The Debut, de Jesse Eisenberg, que o júri da Competição Oficial ignorou, saiu com o Prémio Feroz Zinemaldia. Afinal, alguém estava acordado.
Espanha não dominou numericamente a Competição Oficial, mas voltou a dominar boa parte da conversa. Javier Cámara, os Javis, filmes espalhados pelas diferentes secções, indústria, mercado e público confirmam que San Sebastián é hoje uma das principais pistas de lançamento do cinema espanhol e mundial também. Depois de anos em que dizer «cinema espanhol» numa bilheteira podia produzir o mesmo entusiasmo de anunciar uma extracção dentária, o problema começa a ser outro: há demasiado para ver.
San Sebastián fecha assim uma edição sem terramotos, mas com sinais claros. Mike Leigh ganhou porque ainda sabe olhar para as pessoas. O cinema espanhol confirmou que está num grande momento. Rebordinos sai deixando uma máquina afinada. E Maialen Beloki recebe agora uma coisa muito mais complicada do que um festival em crise: recebe um festival que funciona. Dá muito mais trabalho não estragar.
PALMARÉS — 74.º FESTIVAL DE SAN SEBASTIÁN
- Concha de Ouro: Tender Loving Care, Mike Leigh
- Prémio Especial do Júri: Border, Ah Biao
- Concha de Prata — Realização: Amanda Kernell, Garrat du váimmu / Brace Your Heart
- Concha de Prata — Interpretação Protagonista: Kate O’Flynn, Tender Loving Care, e Asta Kamma August, Growth of the Soil (ex aequo)
- Concha de Prata — Interpretação Secundária: Javier Cámara, 5 Minutos Más
- Melhor Argumento: Mike Leigh, Tender Loving Care
- Melhor Fotografia: Oskar Dahlsbakken, Growth of the Soil
- New Directors: Body of Glass, Naëmi Ada
- Horizontes Latinos: La ilusión de un verano sin fin, Alessandra Sanguinetti
- Zabaltegi–Tabakalera: Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma, Jane Schoenbrun
- Prémio do Público: A Bola Negra, Javier Calvo e Javier Ambrossi
- Prémio do Público — Melhor Filme Europeu: NAZA, Yuval Abraham e Rachel Szor
- Prémio da Juventude: La ilusión de un verano sin fin, Alessandra Sanguinetti
- Prémio Irizar ao Cinema Basco: Txakun txakür, Elsa Oliarj-Inès
- RTVE — Otra Mirada: Soudain, Ryusuke Hamaguchi Transforma Make & Mark: Tender Loving Care, Mike Leigh
- SIGNIS: Tender Loving Care, Mike Leigh
- Prémio Feroz Zinemaldia: The Debut, Jesse Eisenberg
- Prémio Zinemira: José Ramón Soroiz.
JVM

