A dinamarquesa May el-Toukhy chegou à última noite longe das previsões, mas com “Woman Unknown” passou à frente do favorito “Possible Love” e saiu da Sala Grande com o Leão de Ouro 2026. Mathilde Arcel completou a surpresa com a Coppa Volpi de Melhor Actriz do filme. Veneza 83 terminou a fazer precisamente aquilo que um festival deve fazer de vez em quando: desmentir os assumidos especialistas e até a crítica.
Havia tabelas, estrelas, favoritos, apostas, consensos e aquela ciência exactíssima que todos praticamos nos festivais quando faltam poucas horas para os prémios. Depois abriu-se o envelope e ganhou Woman Unknown. O cinema, felizmente, continua a ter estas pequenas indelicadezas. O filme da dinamarquesa May el-Toukhy não chegava à cerimónia como favorito ao Leão de Ouro da 83.ª Mostra de Veneza. Esse lugar parecia pertencer a Possible Love, de Lee Chang-dong, um dos títulos mais elogiados da Competição e vencedor do Prémio FIPRESCI. Mas o júri presidido por Maggie Gyllenhaal decidiu baralhar as contas: ouro para Woman Unknown, prata para Lee Chang-dong. E ainda acrescentou a Coppa Volpi de Melhor Actriz a Mathilde Arcel, protagonista do filme vencedor.
Uma vitória que também responde ao início do Festival
A escolha tem uma ironia impossível de ignorar. A Mostra começou envolvida numa discussão sobre a escassa presença de mulheres realizadoras na Competição. Woman Unknown era o único filme assinado exclusivamente por uma mulher; Rachel Szor partilhava a realização de NAZA com Yuval Abraham. Maggie Gyllenhaal falou então de um problema estrutural: as mulheres continuam a encontrar mais obstáculos no financiamento e no acesso à realização. Onze dias depois, o filme de May el-Toukhy acabava precisamente no lugar mais alto do pódio. Seria, porém, demasiado fácil transformar o resultado numa história de quotas. Woman Unknown ganhou porque convenceu o júri. E o filme tem matéria para isso. Situado na Dinamarca de 1945, acompanha Marie, uma criada cujo passado durante a ocupação nazi regressa quando o país celebra a libertação e começa ao mesmo tempo a humilhar publicamente mulheres acusadas de relações com soldados alemães. El-Toukhy usa esse episódio histórico para falar de algo bem mais persistente: quem controla o corpo feminino, quem decide a culpa e quem escreve a moral dos vencedores. Mathilde Arcel sustenta boa parte dessa ambiguidade. Marie nunca é reduzida a vítima exemplar, heroína ou símbolo de campanha. Tem medo, desejo, vergonha, cálculo e vontade de sobreviver. A Coppa Volpi resulta daí: de uma personagem altamente contraditória.
O favorito ficou em segundo, mas não derrotado
Possible Love saiu com o Leão de Prata — Grande Prémio do Júri. Não foi o resultado que muitos esperavam, mas dificilmente se pode chamar derrota. Lee Chang-dong regressou oito anos depois de Burning com um drama que desmonta classe, dinheiro e desigualdade através do encontro entre dois casais socialmente opostos. Um deles vive esmagado pela precariedade; o outro observa essa realidade de uma posição confortável e decide ainda transformá-la em matéria para cinema. Lee não precisa de transformar a luta de classes num ensaio. Basta-lhe mostrar como o dinheiro entra numa conversa, num jantar ou num olhar e muda imediatamente a temperatura moral da sala. Possible Love perdeu o Leão de Ouro, mas saiu de Veneza com um dos prémios mais importantes e com forte capital crítico.
Do Estado soviético aos algoritmos de guerra
O resto do palmarés confirma que o júri não procurou uma solução confortável. O russo Ilya Khrzhanovsky recebeu o Leão de Prata de Melhor Realização por DAU, projecto gigantesco e quase doentio de tão obsessivo, desenvolvido durante cerca de duas décadas e construído em torno do físico Lev Landau, da ciência soviética e da relação entre conhecimento e poder. Khrzhanovsky fez mais do que um filme: construiu um mundo, meteu pessoas lá dentro e filmou-o até à exaustão. Se havia um prémio para excesso, ambição e mania, também o teria ganho. Muito mais urgente foi o Prémio Especial do Júri para NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor. O documentário, uma das sessões mais perturbadoras da Mostra, reúne testemunhos de 24 elementos ligados às forças militares israelitas e descreve sistemas de selecção de alvos, protocolos e utilização de tecnologia na guerra em Gaza. O mais aterrador não são apenas as imagens que vemos, mas a transformação da morte em dados, margens, autorizações e coordenadas. A guerra como burocracia digital.
Malkovich, Brizé e uma revelação chamada Malou Khebizi

Stéphane Brizé, Coralie Amédéo e Olivier Gorce receberam o prémio de Melhor Argumento por Un bon petit soldat, uma dissecação da empresa contemporânea como máquina de obediência. Não há polícia política nem botas militares. Há departamentos de Recursos Humanos, departamentos jurídicos, códigos de conduta e PowerPoints. O resultado pode ser igualmente disciplinador, só que com ar condicionado. John Malkovich confirmou aquilo que já parecia previsível depois da apresentação de Wild Horse Nine: levou a Coppa Volpi de Melhor Actor. No filme de Martin McDonagh, contracena com Sam Rockwell num universo de CIA, Chile, violência política, humor negro e homens envelhecidos pelas próprias escolhas. Malkovich consegue ser cruel, cansado, hilariante e melancólico no mesmo plano — material perfeito para um prémio e, provavelmente, para começar a ouvir falar de Óscares. O Prémio Marcello Mastroianni foi para Malou Khebizi, por 15/18 (A Place to Heal), de Cédric Kahn. Num Festival carregado de estrelas, o reconhecimento de uma jovem actriz tem sempre qualquer coisa de saudável. Ainda mais quando interpreta uma adolescente internada numa unidade psiquiátrica sem cair no catálogo habitual de tiques dramáticos e sofrimento de manual.
Um palmarés sobre quem manda em quem

Olhando para os vencedores em conjunto, aparece uma linha curiosamente coerente. Woman Unknown fala do poder da sociedade sobre uma mulher; Possible Love, do poder do dinheiro; DAU, do Estado; NAZA, do poder militar e tecnológico; Un bon petit soldat, da empresa; Wild Horse Nine, das ruínas deixadas pela política e pela violência. Talvez o júri não tenha planeado esta leitura. Melhor assim. Veneza 83 terminou portanto com um filme inesperado no topo e um palmarés bastante menos previsível do que as tabelas prometiam. A “mulher desconhecida” chegou discretamente ao Lido e saiu com o prémio que todos queriam. Os festivais ainda conseguem fazer isso. Por enquanto, ainda vale a pena esperar pelo envelope.
PALMARÉS — 83.º FESTIVAL DE CINEMA DE VENEZA

Venezia 83 — Competição
Leão de Ouro — Melhor Filme: Woman Unknown, de May el-Toukhy
Leão de Prata — Grande Prémio do Júri: Possible Love, de Lee Chang-dong
Leão de Prata — Melhor Realização: Ilya Khrzhanovsky, por DAU
Prémio Especial do Júri: NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor
Melhor Argumento: Stéphane Brizé, Coralie Amédéo e Olivier Gorce, por Un bon petit soldat
Coppa Volpi — Melhor Actor: John Malkovich, por Wild Horse Nine
Coppa Volpi — Melhor Actriz: Mathilde Arcel, por Woman Unknown
Prémio Marcello Mastroianni — Jovem Actor ou Actriz Revelação: Malou Khebizi, por 15/18 (A Place to Heal)
Leão do Futuro — Prémio Luigi De Laurentiis
Melhor Primeira Obra: House of the Wind, de Auguste Bernard Kouemo Yanghu
Orizzonti
Melhor Filme: Diane in the Loop, de Ann Sirot e Raphaël Balboni
Melhor Realização: Jacqueline Lentzou, por A Day in the Life of Jo: Chapter Phaedra
Prémio Especial do Júri: House of the Wind, de Auguste Bernard Kouemo Yanghu
Melhor Actor: Riccardo Scamarcio, por The Children of the Monkey
Melhor Actriz: Laleh Marzban, por Falling House
Melhor Argumento: Tommaso Landucci e Damiano Femfert, por The Children of the Monkey
Melhor Curta-Metragem: Quelques instants de bonheur, de Shaden Safieddine Tazi
Venice Spotlight
Prémio do Público Armani Beauty: I Matter, de Alina Șerban
Venice Classics
Melhor Filme Restaurado: Long Night of 1943, de Florestano Vancini
Venice Immersive
Grande Prémio: The Pigeon Ring, de Shixin Tao e Yuqi Zhang
Prémio Especial do Júri: Out of the Ashes, de Rory Mitchell e Nonny de la Peña
Achievement Prize: Empire at Sea, de Peter Flaherty
Leões de Ouro de Carreira
George Clooney
Ellen Burstyn
JVM

