Depois de “The Rip: Ponto de Ruptura”, Ben Affleck regressa ao catálogo da Netflix com mais um filme onde está amplamente envolvido. Além de protagonista, o ator volta a sentar-se na cadeira de realizador mas também de produtor. Afinal de contas, a gigante do streaming está mesmo a fazer-se valer do acordo com a produtora de Affleck, Artists Equity, para reforçar o seu catálogo de originais exclusivos.
No passado, Ben Affleck já conquistou a crítica em produções que desempenhou múltiplos papéis. Quem não se lembra de “The Town” ou “Argo”? Mas, será que a fórmula se anda a repetir? Sinceramente, parece-nos que não. Com “Instinto Animal”, Ben Affleck parece estar ainda a apalpar terreno para encontrar o próximo grande projeto que o volte a colocar na mira de prémios e do bom lado das críticas. Atenção, não deitamos o filme todo pelo cano abaixo, ainda que saibamos ter maus resultados no panorama geral do recente mundo cinematográfico, mas… sim, não foi o tiro certeiro. Nem para Ben Affleck, nem para a Netflix.
Instinto Animal, uma premissa com potencial
A premissa do filme leva-nos ao mundo político de Los Angeles, uma cidade norte-americana altamente polarizada pelas diferenças sociais, os grupos de ricos e pobres, e o impacto da imigração e diferentes comunidades presentes na cidade.
Ben Affleck é Mark Kimball, um candidato independente a mayor da cidade de Los Angeles, e que se encontra na recta final da campanha eleitoral. Rapidamente percebemos que, como sempre no mundo político, existem segredos envoltos na campanha, e que podem ser o prenúncio para um acontecimento life changing na vida do protagonista e, consequentemente, a sua família. Sufocado pelas dívidas criadas pela sua campanha e ambição, mas ainda com um objetivo claro em mente, a história ganha um contorno dramático através da sua família. Em plena noite de Halloween, a ameaça de rapto do seu filho vai levantar muitas questões ao que estamos dispostos a fazer, especialmente quando se está na esfera pública.

Mas, se o trailer prometia-nos um thriller frenético e tenso em redor deste sequestro e da exigência de resgate, a verdade é que “Instinto Animal” afasta-se por completo dessa premissa (e potencial). A narrativa começa a desenrolar-se em várias histórias, procurando ir a temas mais complexos e, de um modo que se revela ineficaz, “atacar” vários temas de uma só vez. Ben Affleck vai um pouco atrás de tudo, através de divisões de classe e questões raciais, e com pano de fundo um mundo e uma sociedade norte-americana, ambos atualmente tão polarizados.
Affleck, Washington, Yeun e Anderson: talentosos mas não em conjunto
Já o leque de atores é, no mínimo, curioso. E também reflexo da intenção de colocar algum foco numa representação multicultural. Temos Ben Affleck no papel do típico homem branco abastado da elite política, Kerry Washington como a sua esposa Abigail, e, em papéis secundários mas cruciais na comunidade local, a representação da comunidade latina. A juntar à equação temos Sam, um assessor de campanha de ascendência asiática interpretado por Steven Yeun, e uma figura enigmática com um forte sotaque britânico encarnada pela talentosa Gillian Anderson. Contudo, apesar do talento individual indiscutível de cada um, torna-se quase um desafio ver estes quatro grandes nomes encaixarem organicamente no mesmo enredo.

No entanto há um ponto onde o elenco funciona: o casal central. Ben Affleck e Kerry Washington desempenham com mestria um casal à beira da ruptura irremediável. O argumento convence-nos muito mais da distância emocional e do ressentimento acumulado do que nos raros momentos de reaproximação. A química de amor é praticamente nula, mas a química do afastamento e das polaridades opostas é executada na perfeição.
Em sentido oposto, Steven Yeun fica infelizmente perdido na função de ajudante e estratega de campanha. O ator de “Beef” e “Minari” não consegue convencer, sobressaindo a sensação de que o seu papel foi desprovido de substância e reduzido a um mero acessório narrativo para debitar falas de pânico político, sem espaço para a densidade dramática a que nos habituou. Por seu lado, Gillian Anderson reforça a plenitude de virtudes que possui para encarnar qualquer tipo de figura com uma compostura ímpar. Como negociadora e figura de bastidores, a sua presença implacável é tão magnética que quase funciona como uma audição perfeita para ser uma digna sucessora de Judi Dench no papel de ‘M’ no universo 007.

A verdadeira génese do instinto de sobrevivência
No final de contas, o verdadeiro foco do filme não reside na campanha política nem no crime que leva à situação de rapto, mas sim no estudo das relações interpessoais. É a exploração de um casamento no abismo a tentar encontrar um ponto de reunião, o choque entre realidades sociais e a génese do “instinto animal” inerente ao ser humano. O filme questiona até onde estamos dispostos a ir, moral e eticamente, numa situação de sobrevivência e em prol da proteção daqueles que amamos. O drama essencial não está no crime, mas nas máscaras que caem e na verdadeira natureza humana revelada na hora da verdade.
Ainda assim, pode dizer-se que “Instinto Animal” funciona como uma crítica soft à sociedade contemporânea. O filme aborda o peso das questões raciais na política, a conveniência mediática e a forma como a perceção pública molda a atuação em momentos de crise.
Instinto Animal
Conclusão
“Instinto Animal” tenta equilibrar o suspense de um sequestro com um denso estudo sobre as aparências na política e as fraturas de um casamento. Embora Ben Affleck e Kerry Washington ofereçam atuações sólidas no retrato de uma relação desgastada, a longa-metragem perde força ao descurar a energia de thriller prometida no trailer. Funciona como um entretenimento razoável de serão para quem aprecia dramas morais, mas falha em deixar uma marca duradoura no catálogo da plataforma de streaming.
Overall
5/10User Review
( votes)Pros
Prós:
- A excelente dinâmica de afastamento e tensão conjugal entre Ben Affleck e Kerry Washington.
- A presença magnética e autoritária de Gillian Anderson.
Cons
Contras:
- O ritmo fica aquém da energia e da tensão prometidas no trailer.
- Steven Yeun fica manifestamente subaproveitado num papel sem espaço de expansão.
- A resolução do mistério central é difusa e deixa vários motivos soltos.


