"Floresta Mágica" | © NOS Audiovisuais
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Para quem não sabe, a LAIKA nem sempre foi a LAIKA. O maior estúdio de animação stop-motion do mundo teve a sua génese no projeto pessoal de Will Vinton, um mestre animador que se especializou na arte do Claymation em meados dos anos 70, tanto em projetos exclusivamente animados como na aplicação dessas mesmas técnicas no âmbito dos efeitos especiais. A Academia de Hollywood nomeou-o a cinco Óscares entre 1975 e 1986, nas categorias de Melhor Curta-Metragem de Animação e de Melhores Efeitos Visuais, esta última pela sua contribuição para o filme de culto “Return to Oz.” Aliás, Vinton ganhou o galardão logo na primeira tentativa, com “Closed Mondays”, co-realizado com Bob Gardiner.

Estamos perante um daqueles grandes nomes da animação norte-americana, mesmo que, em sua generalidade, seja feita às margens de Hollywood. Não será, por isso, surpreendente que Will Vinton tenha querido fundar um estúdio independente, batizado com o seu nome. E assim nasceram os Will Vinton Studios que, nos anos 90, estavam em plena crise financeira, à beira da bancarrota e em desesperada necessidade de investidores. É aqui que entra Phil Knight, proprietário da Nike. De repente, ele tornou-se a salvação do estúdio, mas também a desgraça futura de Vinton, que viu sua criação ser usurpada.

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Travis Knight, filho do bilionário e animador aos serviços da casa, acabou por tornar-se chefe de um estúdio comprado e reconstruído sobre as ruínas do que Vinton tinha sonhado. Há quem diga que foi um grande “coup d’état”, uma conspiração nascida, sustentada e promulgada pelo favor nepotista. Outros dizem, e com razão, que esta é a história de todos os grandes estúdios e que há esqueletos nos armários de toda a Hollywood. Quer concordem com este processo ou o considerem imoral, os resultados são os mesmos – os Will Vinton Studios tornaram-se a LAIKA, financiada por Phil Knight com Travis Knight à frente das operações.

Imediatamente, a missão do estúdio tornou-se clara: explorar os limites do stop-motion, com total liberdade criativa e uma riqueza de recursos praticamente única no panorama cinematográfico contemporâneo. Porque, quando o lucro não é necessário, há espaço para a arte singrar acima do interesse comercial. Primeiro veio “Coraline” de Henry Selick, uma obra-prima que, como “ParaNorman” de Sam Fell e Chris Butler, experimentou a possibilidade de elementos do terror virados para um público infantil. “Os Boxtrolls” de Graham Annable e Anthony Stacchi vieram a seguir dessas duas longas-metragens, mais modestos, mas não por isso menos requintados na sua animação.

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Há muito que Travis Knight sonhava com um épico à moda antiga.

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E foi então que Travis Knight deu o salto para a realização, apostando tudo no projeto mais ambicioso que a LAIKA já havia produzido até então – “Kubo e as Duas Cordas.” Essa fantasia, baseada no folclore nipónico, apresenta ideias bastante arrojadas sobre o conceito de contar histórias, aproximando-se da metaficção e do reflexo dos cineastas na narrativa a ser animada. “Mr. Link” viu o regresso de Butler à cadeira de realizador e mais uma aposta modesta, comparável a “Boxtrolls.” Em certa medida, era como se sentíssemos a LAIKA a respirar fundo antes de soltar um rugido daqueles que fazem o coração parar e a terra tremer. Esse rugido está aqui e seu nome é “Floresta Mágica,” ou “Wildwood” no inglês original.

Baseado numa trilogia de livros escrita e ilustrada por Colin Meloy e Carson Ellis, respetivamente, “Floresta Mágica” esteve em desenvolvimento durante mais de uma década, chegando agora aos cinemas com o recorde de ser a longa-metragem de stop-motion mais comprida de sempre. E não são só as suas duas horas e doze minutos de duração que definem a grandiosidade do projeto. Sem falinhas mansas ou eufemismos cautelosos, é justo dizer que a “Floresta Mágica” representa o stop-motion levado ao extremo da sua dimensão épica, com o auxílio da impressão 3D e de retoques digitais a expandir o que se julgava possível nesta metodologia, um feito técnico incomparável.

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Mas o seu valor não está só nessa componente técnica ou nos números contados à imprensa em busca de bajulação fácil, nesses registos de horas de trabalho, cenários gigantes e um elenco de marionetas cujos números devem equivaler à população de pequenas nações europeias. De facto, o filme começa no pormenor mais ínfimo, como se contrariasse a expectativa de algo épico. Tudo tem início na imagem de uma folha de hera, vibrando com uma consciência mágica, obviamente manufaturada de forma artesanal por algum animador da LAIKA. Em movimento fluido, passamos dessa folha a uma floresta e, no meio do arvoredo, descobrimos uma grande mansão que reluz ao luar.

Nos andares de cima, num quarto palaciano, um menino aparece-nos em clara aflição. Mesmo assim, está também sereno, como se tivesse tomado uma decisão difícil e estivesse a degustar o sabor dessa finalidade pela primeira vez. Ele tranca-se, despe-se e caminha para a varanda enquanto, no fundo da cena, os gritos de uma mulher clamam seu nome. Será que uma mãe quer impedir o filho de cometer alguma loucura? Lá ela se debate com a porta e, quando finalmente a consegue arrombar, o menino já está empoleirado no corrimão, pronto a saltar. Sua pele é de uma palidez fantasmagórica e, num gesto grotesco, ele abre o próprio peito, que se estilhaça como porcelana, revelando um mecanismo ao invés de um organismo.

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Arrancando a engrenagem que se finge de coração, ele olha para trás, para aquela que se diz sua mãe, e uma só lágrima de óleo traça um risco preto e melancólico nessa face de inocência miúda. Em contração de tempo e espaço, ambos contidos num só movimento da câmara, este rapaz atirou-se para a perdição e, agora, naquele pátio manchado pela morte, a mulher chora com ele nos braços, uma pietá de linhas steampunk. A multidão reúne-se em volta, sussurra sobre magia negra e tabus transgredidos, abominações monumentais que merecem castigos a condizer, e, lá no alto, uma corte de aves observa tudo, sombras escuras com olhos brilhantes como joias.

Para quem já se prepara para deixar um comentário a queixar-se de spoilers, acreditem que tudo aqui descrito é somente o prólogo de “Floresta Mágica”, uma sequência inicial que se sente como um murro no estômago e é bem capaz de ser o melhor trabalho de animação ocidental feito na última década. Só o “Aranha-Verso” é comparável. Contudo, na mesma medida em que esses filmes de super-heróis consideram o futuro do cinema animado, Knight e companhia olham para o passado e insistem em perpetuar o classicismo que monstruosidades como a inteligência artificial ameaçam destruir. E essa costela nostálgica não se manifesta apenas no tradicionalismo do stop-motion em detrimento do CGI.

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Porque a “Floresta Mágica” é daqueles filmes que reconhecem o quanto as crianças gostam do mórbido e do obscuro, do macabro, e de serem confrontadas com ideias complicadas sobre violência e mortalidade, o transtorno da perda e outros traumas. Faz lembrar clássicos dos anos 80, como “Willow” ou “A Lenda da Floresta”, entre outras tantas fantasias cinematográficas que abençoaram os ecrãs durante a juventude de Travis Knight. Também há muito Carroll, muito Lewis e muito Tolkien neste mosaico de inspirações. O que não quer dizer que a “Floresta Mágica” se perca em preciosismos ou derivações pueris. O filme pode ser nostálgico, mas não é tão sentimental quanto possamos supor.

Quando a ação principal realmente arranca, isso vê-se bem. Porque toda a História da LAIKA vem dar à história da “Floresta Mágica”, essa aventura passada numa versão imaginada de Portland onde os estúdios estão sediados. Lá vive o casal McKeel, duas caricaturas da boémia e excentricidade associadas a essas comunidades de Oregon. Também lá habitam os seus filhos. Prue é uma adolescente que vê as manias hippies dos pais com o ceticismo e rebeldia típicos dessa idade. E Mac é bebé ainda, muito mimado e resguardado pela mãe e pelo pai que, por alguma razão, não querem ver o filho fora da proteção do seu lar. Obviamente, assim que se vê sozinha com o irmão, Prue leva-o a passear pelas ruas de Portland.

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Há uma sequência cómica maravilhosa, cheia de detalhes minuciosos da animação que tanto recria como exagera o quotidiano dessa metrópole na costa Noroeste dos EUA. Só que o riso depressa vira um grito de terror quando uma revoada de corvos, saídos diretamente dos “Pássaros” de Hitchcock, surge do nada e rapta o menino. Em perseguição desenfreada de bicicleta, Prue arrasta Chris, um colega de escola meio parolo,com grandes sonhos de heroísmo e valentia, na direção daquilo que, no nosso mundo, é o Forest Park, junto a Portland. Nesta fantasia, será a Terra Selvagem, o Território Impenetrável onde ninguém entra sem ter magia a correr-lhe nas veias.

Passada a fronteira entre o possível e o impossível, o mundano e o milagre, Prue e Curtis são rapidamente separados, vendo-se em odisseias imperfeitamente paralelas, com o mesmo destino final – salvar Mac e a Floresta. O rapaz quase vive a mesma história de Edmund nas “Crónicas de Nárnia”, quando se vê sob a custódia de uma feiticeira a quem todos chamam de Governadora Viúva. Seu nome é Alexandra e ela será a mãe que perdeu o filho no prólogo. É também a líder de um exército de coiotes e a vilã evidente da trama. Se Curtis é Edmund, ela é a Bruxa Branca, Jadis renascida, com mais complexidade que a versão original e o peso de uma malvadez nascida do amor, da perda, do luto.

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Uma fantasia para miúdos e graúdos e todos os que amam animação.

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Prue tem um percurso mais picaresco e peripatético, dando-nos a conhecer o mundo da “Floresta Mágica” e suas muitas facções, desde uma vila pseudo-Vitoriana com uma burocracia saída de Kafka até duas vertentes do mesmo povo indígena, marginalizado na sociedade da floresta e dividido entre agricultores pacifistas e aqueles que se revoltam com violência e são, por isso, catalogados como bandidos. É incrível a riqueza deste mundo, tanto em termos narrativos como estéticos, com os animadores da LAIKA a darem tudo o que têm para lhe dar vida e vitalidade. Quando tudo culmina numa grande batalha ao estilo de “O Senhor dos Anéis”, esse primor técnico é posto à prova e produz imagens inesquecíveis, com a fotografia do lendário Caleb Deschanel transformando o confronto bélico numa procissão de pinturas em movimento.

Portland, boémios e artistas e o flagelo da conquista são reflexos da própria História da LAIKA, mas a “Floresta Mágica” não representa um estúdio a afundar-se no solipsismo. Pelo contrário, há uma imensa maturidade em seus temas, no modo como confere peso à morte e à violência na fantasia, despindo a prática do guerreiro de qualquer glória. A noção do herói é uma mentira e a ideia de que, quando crescemos, percebemos melhor o mundo é uma falsidade ainda mais ultrajante. Até a obsessão da LAIKA por técnica e tecnologia parece ser questionada, com as marcas de uma sociedade pós-Revolução Industrial a assinalarem perfídia na Floresta.

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Não há respostas conclusivas para muitos dos mistérios pela fita propostos, e até o elemento-chave da hera, essa vinha mágica, se mantém enigmática. Existe um paralelismo com as crises ecológicas que se abatem sobre Oregon, em sua guerra contra espécies invasoras que destroem a flora local. Mas nada mais que isso. Tanto assim é que, apesar de existirem mais dois livros na série, as alterações que Knight e o argumentista Chris Butler fizeram, em jeito de adaptação, indicam um desinteresse em prolongar a história da “Floresta Mágica” com sequelas desnecessárias. O filme vale por si só e, verdade seja dita, sinto-me grato por essa decisão.

De forma geral, “Floresta Mágica” evoca os triunfos de uma Hollywood passada, em contradição com as práticas atuais, o status quo. Rejeitar a febre da sequela é só uma das suas muitas provocações. Não fazer da violência espetáculo gratuito, confiar na inteligência do espectador e poupar-se nas explicações que só servem para encher chouriços, fazer cinema por amor à arte ao invés de lucro e honrar a humanidade implícita no ato artístico – tudo isto surge à revelia das direções para as quais a indústria caminha. Nesse sentido, “Floresta Mágica” não é só um deslumbrante épico de fantasia, tão comovente como assombroso. É também um manifesto!

Floresta Mágica

Conclusão:

  • A “Floresta Mágica” está em desenvolvimento há treze anos, mas, honestamente, a LAIKA estava destinada a fazer um épico de fantasia desta envergadura desde a sua génese. O estúdio nascido do sonho arruinado de Will Vinton e financiado pelo dono da Nike, tem sido modelado por Travis Knight à imagem de uma Meca de criatividade sem limites e recursos para animação stop-motion a um nível inigualável na atualidade, talvez em toda a História do Cinema. Por isso, enquanto posso preferir “Coraline” ou achar “Kubo” mais ambicioso, há que se referir a “Wildwood” como a magnum opus da LAIKA, de Knight e do exército de artistas ao seu dispor.
  • Em termos de técnica e simples grandiosidade, não há nada como a “Floresta Mágica”, cujo mundo é tão vasto que quase dá dor de cabeça pensar sobre as complicações logísticas de criar tudo isto em cenários físicos com marionetas à escala 1:5. Há batalhas pseudo-medievais a explodir no grande ecrã, centenas de personagens e imagens tão belas que podiam ser pinturas nas paredes de uma qualquer galeria de arte antiga. Digo antiga porque, não obstante o seu amor por inovações tecnológicas, Knight sempre vai prezar o virtuosismo da animação artesanal e suas tradições mais antigas.
  • Isso também se verifica a nível narrativo e emocional, com a “Floresta Mágica” a exibir um tipo de maturidade rara em filmes para toda a família feitos pela Hollywood dos nossos dias. Em certa medida, está mais próximo de muitos clássicos dos anos 80. Afinal, a história de uma rapariga adolescente a entrar num mundo fantástico para salvar o irmão bebé que um feiticeiro qualquer raptou é muito familiar. Alguém se lembra do “Labirinto” de Jim Henson? Não que “Wildwood” seja derivativo ou se perca no sentimento inebriante da nostalgia, mas sim que se valoriza pela profundidade dos seus temas, pela maturidade de estilo e pelo respeito que tem para com sua audiência.
Overall
8.5/10
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