"Car la lune" | © DocLisboa

“Pois a lua movia-se da esquerda para a direita, ou o quarto movia-se da direita para a esquerda, ou talvez ambos juntos, ou ambos se moviam da esquerda para a direita, mas o quarto não tão rápido quanto a lua, ou da direita para a esquerda, mas a lua não tão rápido quanto o quarto. Mas poder-se-á falar de direita e de esquerda em tais circunstâncias?” Assim escreveu Samuel Beckett no seu romance, “Molloy”, e assim começa “Car la lune”, o filme mais recente do cineasta francês Éric Baudelaire. O posicionamento desta citação tão destacada prepara-nos para um trabalho que, porventura, explorará a subjetividade no limiar da abstração ou o cinema questionado por aqueles que não o conseguem ver.

“Molloy” é um romance de depuração literária e de despersonalização da personagem, o que poderia sugerir algumas leituras precoces sobre o documentário que se seguirá ao texto. Para quem leu a sinopse antes de entrar na sala de cinema, será bem sabido que “Car la lune” segue um grupo de alunos no Instituto Nacional para Jovens Cegos em Paris, documentando as suas experiências em autoexpressão artística, mas também possibilitando alguns mecanismos para essa exploração. Baudelaire e sua diretora de fotografia deram câmaras aos miúdos e deixaram-nos gravar o que quisessem, ora o quotidiano em diário filmado ou algo menos concreto.

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Essa é a premissa do filme e o texto Beckettiano confere expectativas através da referência a todo um legado artístico exterior a esta iniciativa do Instituto e dos cineastas. Contudo, eu diria que são os créditos que seguem essa passagem que mais nos dizem sobre as prioridades de “Car la lune”. Acontece que, mesmo antes do título ou qualquer crédito do realizador surgir, os nomes dos estudantes iluminam o ecrã no mesmo grafismo e contraste de branco sobre preto que, mais tarde, associaremos aos ecrãs dos computadores com que estes meninos interagem através do teclado em braille.

Podemos interpretar este destaque como se de estrelas de cinema se tratassem, uma glorificação glamorosa para celebrar estas figuras marginalizadas num contexto cinematográfico que também serve como tributo à sua pessoa. Noutra análise, trata-se de uma cedência da autoridade autoral de Baudelaire aos sujeitos do seu documentário. “Car la lune” é o filme deles, não apenas a observação deles enquanto sujeitos passivos sob o olhar da câmara do realizador e da sua pequena equipa – Mathon e o técnico de som Éric Lesachet estiveram intermitentemente presentes nas filmagens, mas a editora Claire Atherton só interagiu com o material em pós-produção.

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A experiência de fazer arte visual através de uma perspetiva invisual.

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© DocLisboa

Dito isso, o filme começa num registo mais familiar e dentro do que se esperaria de uma obra orquestrada por cineastas profissionais. Porque as primeiras passagens incidem num foco obsessivo nas mãos, no toque. Em termos imagéticos, o documentário pensa mais a mão do que a face, traindo as ordens normativas de um cinema humanista e humanizante. Contudo, o que Baudelaire e companhia estão a fazer não é uma negação da empatia, mas sim a sua promoção por meios que fogem à convenção do mainstream, aproximando-se mais da realidade vivida dos seus sujeitos de estudo e de retrato.

Não é tanto uma despersonalização, quanto é uma aproximação. Só que ainda há um distanciamento quando se sente o trabalho de Mathon e Baudelaire na mise-en-scène, especialmente em momentos de performance, como quando se canta o “Non, je ne regrette rien” de Édith Piaf, Dumont e Vaucaire, numa sala encafuada de pianos velhos. Se a concessão da autoria do filme aos jovens tiver efeito, é preciso transcender este registo. “Car la lune” fá-lo de forma gradual, usando o mesmo cenário desse estúdio musical dentro do instituto. É uma ocasião particularmente memorável, a câmara é descartada.

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Nesse desapego, suscitado pelo esforço de ajudar um dos miúdos a interagir com o instrumento, o filme faz a transição do estudo antropológico para algo mais intimista e, quiçá, honesto. Nesse momento, ficam perdidas as imagens de mãos a tocar, tentativamente, nas teclas de marfim, e ficamos com o ecrã dominado por uma abstração de madeira desfocada, enquanto, na banda sonora, o aluno consegue finalmente produzir os sons que tanto queria. Daí em diante, “Car la lune” afastar-se-á cada vez mais da ordem daquela poesia da mão e do toque, de um cinema háptico entendido por poetas consagrados do audiovisual.

Os interlúdios, em que vemos vlogs feitos pelos miúdos, muitas vezes num registo digital mais tosco e amador, reforçam a ideia de que são eles os autores. Assim, deixa de ser um retrato e passa a ser um autorretrato. E à medida que o filme avança, “Car la lune” certamente enfatiza este elemento, incluindo cenas em que vemos a gravação contínua de uma moça a aprender a usar a câmara e a distinguir se ela está ligada ou não, se a objetiva está descoberta ou coberta pela tampa. O que fica no ecrã é o testemunho da câmara, possibilitando um olhar desorganizado que a pessoa na sua posse não pode experienciar fisicamente.

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A máquina vê o que a pessoa não consegue ver. E, nesse gesto, faz-se uma partilha cada vez mais complicada, com os jovens a revelar detalhes pessoais, tragédias e alegrias que podem levar alguns a julgar “Car la lune” como um exercício de exploração oportunista da juventude vulnerável. Tais intimidades hão de causar sempre transtorno. Como podia deixar de ser, quando, ao nos mostrar o seu quarto, uma jovem mostra, toca e explica as pequenas barras elásticas que impedem as janelas de se abrirem por completo. Estão lá para prevenir tentativas de suicídio por parte das crianças. Aparentemente, são uma adição recente.

Outra rapariga fala de como perdeu o pai e o olho no mesmo ano. De facto, lembra-se perfeitamente de ambos os dias, incluindo aquela noite horrível quando começou a sentir uma dor no olho e, de manhã, no hospital, lhe disseram que a córnea se tinha rompido. Outra jovem convida-nos a contemplar algo mais agridoce. É que, mesmo antes dos cineastas chegarem ao Instituto, ela já brincava com a ideia de filmar as suas experiências – um fenómeno típico de uma geração que cresce com o smartphone na mão. No seu caso, a perda de visão tem sido gradual, uma degeneração que influencia a forma como ela encara os artefactos no telemóvel.

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Ela recorda-se, em voz-off e na filmagem de câmara sobre câmara, do dia em que gravou as suas desventuras na feira popular, a andar em montanhas-russas, carrosséis e afins. A sua visão era melhor na altura, quando ela usou o telemóvel para documentar a travessia por essas atrações na primeira pessoa, como um videojogo ou um qualquer trabalho de cinema experimental. Hoje em dia, revisita o vídeo, apesar de mal o conseguir discernir. A memória preenche as lacunas e há uma qualquer panaceia neste eco de outra vida antes da invisualidade. Será que “Car la lune” terá a mesma função?

O filme representa um esforço notável, mas há limites à sua amorfia e ao seu empenho perante e para com subjetividades juvenis. Porque, a certa altura, parece que simplesmente assistimos a vídeos domésticos sem nexo ou propósito estrutural. Estamos aqui para prestar testemunho, mas “Car la lune” tem mais algo a dizer do que isso, mais alguma exigência do seu espetador que esta simples passividade perante as criações dos seus sujeitos documentais? E pergunto-me quanto estes jovens poderiam desfrutar do filme como ele existe presentemente, seu valor tão preso à imagem da câmara nas mãos de quem não vê o que filma.

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Será que “Car la lune” mereceu o maior prémio do DocLisboa?

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© DocLisboa

O exercício de fazer o documentário é, de certa forma, um exercício educativo e de autodescoberta para esta juventude marginalizada, uma forma de lhes dar autonomia e de se expressarem artisticamente. Mas não será a obra de arte final outro exemplo de exclusão, baseada numa experiência audiovisual que eles produziram, mas cuja plenitude está fora do seu alcance? E com pouco mais a estruturar ou dar razão de existência à fita, pergunto-me se “Car la lune” não estará perdida numa contradição interna entre nobres intenções e um resultado final que fica porventura aquém de tais idealismos.

Em certos momentos, quase sinto a necessidade de alguma mediação cinematográfica, um artifício que molde os vídeos e os faça mais do que meros testemunhos. Por exemplo, filmagens de uma viagem de barco são ricas principalmente pela sonoridade que se impõe sobre a imagem, as ondas, o vento e as gaivotas lá em cima. E se fôssemos mais longe? E se déssemos um travo expressionista à sonoplastia e nos afastássemos um pouco mais desta noção de cinema verité, exposto na sua forma mais crua? Quiçá essa falsidade tirasse o controlo dos sujeitos. Talvez tornasse o filme em algo mais polivalente e, porventura, apreciável, para um público invisual.

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Ao mesmo tempo, não deixo de amar quão abstrato “Car la lune” se deixa ser na reta final, quando inteiras sequências parecem desenrolar-se como pouco mais que um caleidoscópio desfocado de cores primárias e o som abafado do vídeo amador. Também me pergunto se algum destes jovens poderá crescer e saltar desta experiência para outras que tais. Enquanto alguns estudantes parecem mais interessados em catalogar os seus esforços musicais ou a tentativa de desenho, outros empunham a câmara como seu instrumento, como o pincel que pode estar nas mãos de quem a souber interpretar como tal.

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Para o júri da competição internacional nesta mais recente edição do DocLisboa, o filme de Éric Baudelaire merece aplausos e o Grande Prémio Cidade de Lisboa pelo modo como “celebra os sons e as imagens do cinema, aceitando a presença e a ausência do mundo visual.” Sem concordar ou discordar da decisão de Álvaro Arroba, Declan Clarke, Lynne Sachs, Margarida Gil e Vasco Câmara, vejo nela um reflexo apto do que este festival propõe – uma conversa constante sobre a natureza do cinema documental, suas possibilidades, tanto na forma quanto nas questões de ética e demais problemáticas. Nesse sentido, “Car la lune” afirma-se como justo campeão!

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Car la lune

Conclusão:

  • “Car la lune” de Éric Baudelaire, o grande campeão da Competição internacional do DocLisboa 2026, é um excecional representante do ethos de um dos melhores festivais de cinema em Portugal, talvez até em toda a Europa. Ou mesmo no mundo todo, quando afunilamos a questão apenas aos filmes de dita não-ficção. Isso não significa que seja um filme perfeito ou que não levante algumas questões desconfortáveis sobre o propósito e a função da própria experiência.
  • Contudo, é nessa imperfeição, nessas perguntas propostas, onde a verdadeira qualidade do filme se manifesta no contexto de um festival em que se propõem diálogos sobre a natureza do cinema documental. Para os participantes e autores, para os alunos do Instituto Nacional para Jovens Cegos em Paris, o caso é capaz de ser um pouco diferente. Mas, pelo que se vê no grande ecrã, eles são participantes ativos na partilha proporcionada pelo engenho cinematográfico de “Car la lune.”
  • De um ponto de vista puramente plástico, a fita valoriza-se mais pela transição de uma linguagem mais formalizada do documentário profissional para uma improvisação mais livre. Um cinema feito por jovens sem a experiência de Baudelaire ou Claire Mathon, e sem a capacidade visual que todos presumimos de artistas que trabalham em meios audiovisuais. O surgimento de abstração e lirismos juvenis é, deveras, esplendoroso.
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