Duas Estações, Dois Desconhecidos, a Crítica: O Leopardo de Ouro finalmente chega aos cinemas portugueses

"Duas Estações, Dois Desconhecidos" | © Leopardo Filmes

Menos glamoroso que Berlim, Cannes e Veneza, menos popular que Sundance, Toronto e Nova Iorque, mas, quiçá, um patamar acima de Roterdão e San Sebastián no que se refere ao prestígio, o Festival de Cinema de Locarno vive naquele intermédio das grandes celebrações do cinema. Mas estas hierarquias de fama são falaciosas e em nada refletem a qualidade, ora das organizações, ora dos filmes por si programados. Seria um desenvolvimento positivo se quem leva o Leopardo de Ouro em Locarno tivesse tanta projeção como os vencedores do Urso, da Palma, ou do Leão.

Enfim, são as realidades do meio, muito refletidas em questões de distribuição internacional e na rapidez com que a arte chega à sua audiência. De facto, dificilmente um campeão de Cannes demora tanto tempo a chegar aos cinemas. No caso do público português, já lá vão mais de doze meses a bater o pé no chão, de braços cruzados e com olhar expectante, à espera de finalmente ver o grande vencedor do Leopardo em 2025 nas nossas salas nacionais. Pois bem, a espera terminou. É de levantar as mãos em alegria e bradar aos céus, gritar aleluia e agradecer os esforços da Leopardo Filmes que finalmente coloca “Duas Estações, Dois Desconhecidos” em cartaz.

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Peço perdão por voltar àquelas analogias de mau gosto, mas o trabalho de Shô Miyake é bem melhor que os vencedores dos três grandes festivais europeus deste ano, arrasando com as “Cartas Amarelas,” com “Fjord,” e o controverso “Woman Unknown” que Maggie Gyllenhaal escolheu galardoar acima do grande favorito de Veneza, “Amor Possível” de Lee Chang-dong. Mas atrevo-me a dizer mais: este modesto drama nipónico supera essa contribuição coreana para o projeto de reinvenção do “Dekalog” produzido pela Netflix.

Dito isso, há algumas semelhanças entre os dois, nomeadamente o espírito de uma adaptação infiel que retorce o conto sobre o cinema. Neste caso, “Duas Estações, Dois Desconhecidos” parte de um par de histórias do mangaka e ensaísta Yoshiharu Tsuge – infelizmente falecido em março deste ano – aqui ligadas pela metaficção, com uma argumentista de cinema como personagem principal. Ela é Li, uma imigrante coreana num Japão que a câmara primeiro descobre como uma semiabstração de blocos sobre blocos, um mosaico urbano de betão e vidro, com linhas telefónicas a cortar por entre os reflexos de um sol poente.

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Não é nada acolhedor, mas Li também não parece particularmente serena na intimidade do seu lar, um desses muitos apartamentos na metrópole nipónica. Conhecemo-la no suplício da escrita, quando o autor se confronta com o pior inimigo imaginável – uma página em branco. Seu lavoro é o mesmo de Shō Miyake atrás das câmaras, debatendo-se com a tarefa de adaptar um conto estival de Tsuge. Há uma simplicidade quase Bressoniana no modo como a fotografia de Yuta Tsujinaga filma a atriz Shim Eun-kyung, contextualizando-a dentro dos mesmos padrões sobre padrões e repetições geométricas que definem a cidade lá fora.

O grande vencedor de Locarno ofusca os campeões dos festivais mais celebrados.

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© Leopardo Filmes

Só quando esse ritmo é quebrado, quando o foco da câmara se transfere da mão para os olhos que veem algo além da materialidade presente, o milagre da criação acontece. A caneta toca o papel e as palavras começam a sugerir uma imagem, uma cena, uma sequência na qual “Duas Estações, Dois Desconhecidos” se afunda. O minimalismo de ares franceses perde-se para dar lugar ao impressionismo e à subjetividade de uma jovem perdida nas ondulações sentimentais de um verão que se sente tão cálido quanto melancólico.

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Enquanto encontrámos Li pela primeira vez naquela qualidade estática da residência urbana, esta nova figura apresenta-se-nos em termos puramente cinéticos. Ela viaja do campo para a praia, o verde fugaz da paisagem dando lugar aos azuis costeiros, mesclados a um cinza rochoso, como se fossem pinceladas vivas. Não obstante esta introdução cheia de movimento, Nagisa está tão sozinha nestas suas férias em família como Li no seu apartamento. A montagem de Keiko Okawa não regressa assim tão enfaticamente à argumentista, mas o reflexo está lá, o eco de uma solidão partilhada.

Também Natsuo, cujo isolamento parece meio deliberado, a sabotagem social de alguém que se sente mais confortável no vazio, mas que também começa a sufocar nesse vácuo. Eles deambulam pela paisagem digna de postal, visitam museus locais, perdem-se nos caminhos solitários de quem é uma alma perdida em perpétua expectativa de que algo aconteça. Mas nunca acontece. Ou, pelo menos, é assim na vida. Na narrativa escrita por Tsuge, adaptada por Li dentro do filme de Miyake, os jovens encontram santuário na companhia um do outro.

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Os seus gestos não mudam muito, continuando a divagar sem rumo certo, quer seja pela geografia do sítio, quer seja pelas veredas de conversas solipsistas. A certa altura, “Duas Estações, Dois Desconhecidos” enquadra os jovens à berma da estrada, com o céu azul de uma tarde a tombar em noite a servir de pano de fundo. Não há cortes nem contrações do tempo segundo a magia do cinema. Estamos perante a realidade de um filme Baziniano, onde as ações demoram o que demoram e as conversas deixam-se perder na crescente escuridão da noite.

Poderíamos prever algum romantismo no elo forjado entre Nagisa e Natsuo, mas eles parecem mais espelhos um do outro e de seus múltiplos autores do que corpos inflamados de desejo ou de vontade de amar. Tanto assim é, que os perdemos num final que não finaliza o que quer que seja, uma conclusão inconclusiva, reticências perdidas nas ondas. E corta para uma dimensão menos profunda deste poço narrativo a que chamamos “Duas Estações, Dois Desconhecidos.” O que testemunhámos foi a fita que Li acabou por escrever e que, agora, exibe perante uma audiência de alunos da sua antiga escola de cinema.

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O primeiro movimento terminou, e chegou a altura de Miyake propor a metamorfose do seu cinema enquanto interlúdio e enquanto rutura. A reação da juventude ao seu trabalho é uma chapada na cara de Li, por mais suaves que as palavras sejam. Ainda mais suaves são as críticas de um professor amado. Um pedagogo que, num abrir e fechar de olhos, morreu, e Li está de volta à cidade da sua faculdade para visitar o irmão gémeo enlutado desse homem que significou tanto para ela nos seus tempos de estudante.

Mais duplos, mais estranhos a conhecer-se, ora na apatia da solidão, ora no choque da perda. Ora na contemplação prolongada e amorfa da tristeza juvenil, ora nestes saltos temporais de uma vida adulta em que o tempo nunca é suficiente. A rutura narrativa leva à rutura estilística, estrutural, até mesmo a um ritmo repentinamente disfuncional e insustentável. Não admira que Li tenha de fugir deste estranho interlúdio, refugiando-se em mais um conto de Tsuge. Mas desta vez, ela não o adapta. Pelo contrário, vive-o numa inversão entre facto e ficção na lógica interna da fita, tornando-se sujeito da ação.

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Verão e inverno, dois pares de estranhos, um interlúdio e um estudo sobre solidão.

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© Leopardo Filmes

Pelo menos, assim parece, em primeira análise, quando Li vai passar o inverno numa vila isolada nas montanhas do Japão, um postal gélido, com neve tão branca que cega e nenhum hotel com quartos disponíveis. Em extrema necessidade de um lugar onde se hospedar, a argumentista conhece Benzo, brilhantemente interpretado por Shinichi Tsutsumi. Tal como as praias chuvosas da primeira estação pareciam um lugar isolado numa certa irrealidade, também a casa de Benzo nos surge como algo peculiar, um artefacto histórico que, por alguma razão, sobrevive no século XXI com o mesmo aspeto que esperaríamos de um jidaigeki de traços oitocentistas.

De forma apropriada, a estética da fotografia e dos cenários também assume tons mais classicistas. Tão curioso é o espaço e seu mestre que Li volta a se sublimar. Já não é autora, mas sim uma observadora, agente passiva e possessiva, que parece consumir todo o mistério deste afável senhor, seu negócio ruinoso e o melodrama de um matrimónio fracassado, culminando no furto de carpas aparentemente caríssimas da casa de hóspedes gerida pela ex-mulher. Não chegaria ao ponto de classificar o interesse de Li como algo vampírico, pois “Duas Estações, Dois Desconhecidos” não está cá para articular tais violências.

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No entanto, os sentimentos que revela são, na sua modéstia sussurrada, inegavelmente violentos. Pois este é um filme sobre solidão e as barreiras que impomos entre nós e o mundo que nos rodeia, especialmente quando nos deixamos despersonalizar. Observamos quando devíamos viver. Nagisa e Natsuo fazem isso, mas também são eles mesmos despersonalizados por quem os observa, como uma turista italiana que quer uma fotografia cândida de quem julga ser gente local. Para capturar a “realidade”, ela precisa encenar o tableau como o realizador faz com os seus atores.

Nessa falsidade, a conexão genuína entre estranhos se perde. A ligação entre pessoas, a essência da relação humana dissolve-se na espuma das ondas. Ou talvez na página em branco em que a neve transforma o ecrã. Paralelamente à turista, quando Li considera Benzo, ela não o vê como uma pessoa, mas como uma personagem. A escritora não vive no momento, seu presente é imediatamente encarado como lembrança que o futuro terá do passado. Essas não serão as teses presentes nos contos originais, mas a adaptação feita em “Duas Estações, Dois Desconhecidos” constitui um estudo de conclusões agridoces sobre a natureza humana.

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Se muitos cineastas gostam de romantizar a intimidade que pode surgir entre duas pessoas que nunca antes se conheceram – pensemos em Rohmer ou Linklater ou de novo em Bresson –  Shō Miyake explora a negação desse cliché. Pelo caminho, assina um dos retratos mais astutos sobre a solitude que impomos a nós próprios sem nos apercebermos da nossa cumplicidade com a miséria que floresce cá dentro, que se alastra e nos reduz a observadores, a câmaras vivas que são só capazes de ver, mas não vivem. Moralismos à parte, são ideias intrigantes, dão que pensar e, na tristeza que invocam, também podem elucidar.

Duas Estações, Dois Desconhecidos

Conclusão:

  • Shō Miyake não é um nome muito conhecido entre os realizadores do cinema japonês contemporâneo. Contudo, essa falta de fama não reflete falta de mestria. Tal como a relativa menorização de Locarno em relação ao glamour da Berlinale, do Festival de Cannes e da Bienal de Veneza, não implica que se trate de um festival menor. De facto, olhando para as suas escolhas recentes, prefiro a ousadia dos programadores e dos júris que exploram o melhor do cinema mundial na Piazza Grande dessa cidade suíça. “Duas Estações, Dois Desconhecidos”, que ganhou o Leopardo de Ouro no ano passado, é prova disso mesmo.
  • Adaptando dois contos do mangaka e ensaísta Yoshiharu Tsuge, o realizador construiu uma Matrioska de ficções dentro de ficções e sua inversão. Como o título sugere, trata-se de um filme dividido em dois. Um movimento estival, passado no litoral entre adolescentes saturninos, e um segundo gesto invernal, na intimidade das montanhas, onde a neve tudo cobre, esconde e isola. Pelo meio, há uma perda que perturba, ruturas estilísticas e o começo de uma nova narrativa, quando o meta-cinema dá lugar a algo novo. É uma metamorfose cinematográfica e uma reflexão meditativa sobre a solidão, a despersonalização, num mundo moderno onde cada vez nos isolamos mais.
  • Mas, complexidades textuais e estruturais à parte, temas e teses postos de lado, “Duas Estações, Dois Desconhecidos” é um trabalho muito meritoso que merece reconhecimento, quiçá umas quantas ovações de pé. Sem chamar demasiada atenção para si mesma, a fotografia passa de um minimalismo Bressoniano para o impressionismo de aguarelas vivas, antes de encontrar um registo totalmente diferente, mais próximo do classicismo do cinema japonês do pós-guerra na sua segunda metade. Podem-se fazer elogios equiparáveis à montagem, à belíssima banda sonora, à cenografia e até aos atores. Especial destaque para Shinichi Tsutsumi como Benzo, homem da neve, das montanhas, e dos divórcios caóticos.
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