"Paper Tiger - Negócios de Família" | © Cinemundo
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O cinema de James Gray sempre se sentiu em dívida com as tradições dramáticas do passado. A comparação habitual é sempre a vanguarda da Nova Hollywood, aqueles filmes dos anos 70 que redefiniram o panorama cinematográfico americano e imortalizaram nomes como Coppola, Scorsese, Cassavetes e tantos outros. Contudo, existem mais ecos nesse universo plástico e dramatúrgico de Gray, incluindo uma grande paixão pelas tradições do mudo, tão bem espelhadas em “A Emigrante” e “A Cidade Perdida de Z.” Mais importante ainda, mais ignorada ainda, é a influência de outras artes no modo como este autor encara o seu cinema.

Pensemos, por exemplo, na literatura russa que estabelece uma ligação tão forte entre a obra no grande ecrã e as raízes culturais de um realizador nascido no seio de uma família judia russo-americana. É certo que “Duplo Amor” não existiria sem “As Noites Brancas” de Dostoiévski, mas duvido também que “Ad Astra” tivesse a sua forma presente sem toda uma bibliografia de ficção-científica soviética por trás. A ópera clássica também tem vindo a manifestar-se de formas diversas nesta filmografia, passando pela encenação de “Noites de Fígaro” e pelas tonalidades operáticas de filmes como “Viver e Morrer em Little Odessa” e “Nós Controlamos a Noite.”

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Paper Tiger - Negócios de Família
"Paper Tiger - Negócios de Família"

O espólio de inspirações parecia contrair-se nos últimos anos, com o cineasta a sequestrar-se no mundo da autoficção com “Armageddon Time” e os fortes vínculos com a sua biografia. “Paper Tiger – Negócios de Família” não se afasta deste território, destas recordações e autorreflexões de Gray sobre a sua família, sua juventude, seu passado. Dito isso, há um legado artístico com uma história muito mais antiga do que o cinema em jogo. E, desta vez, ao contrário de “Duplo Amor,” onde o nome de Dostoiévski nem teve direito a uma menção nos créditos, “Paper Tiger” começa com uma citação direta ao “Agamémnon” de Ésquilo, primeira peça da Oresteia.

“Let there be wealth without tears; enough for the wise man who will ask no further.” Assim aparece no ecrã, esta tradução que Richmond Lattimore assinou em 1953 e que se refere a um momento, muito cedo na tragédia, quando o Coro descreve os excessos dos Egeus que tomaram Troia de assalto. É, na sua essência, um resumo da húbris, enquanto conceito, aplicado ao caso específico daqueles que, na sua ganância e orgulho, levaram mais do que lhes era devido. A riqueza sem lágrimas será só para o homem sábio que resista a essa húbris. Será só para o homem que entender moderação, que pratique o conceito de sofrósina.

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A Tragédia Grega transposta para a Nova Iorque dos anos 80.

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Nenhuma das personagens de “Paper Tiger” sabe resistir à húbris, tanto no seu entendimento classicista como numa versão mais moderna, mais adequada às realidades da Nova Iorque de 1986 e aos seus submundos de crime e corrupção. Isso não significa que sejam escravos desse excesso, vivendo sob seu domínio total. Por vezes, basta um erro para inspirar punição divina, a crueldade de justiças sistematizadas e clandestinas, ou a mera desgraça a que o acaso nos condena. Irwin Pearl considerar-se-ia um homem de bem, moderado em todos os sentidos, vivendo a pacata existência de um engenheiro civil nos subúrbios de Queens.

Conhecemo-lo num quotidiano quase idílico, com a esposa Hester e os seus dois filhos adolescentes. Ben é o bebé da família e olha com idolatria para o irmão mais velho, ao mesmo tempo que encara os conselhos do pai como sabedorias de meia tigela.  É um miúdo às direitas, como Scott, que está quase a fazer dezoito anos e já pensa num futuro fora da casa dos pais, numa faculdade que lhe dará prestígio e o lançará na vida. Os irmãos Pearl mais novos são um reflexo das gerações mais velhas. Porque Irwin também tem um irmão mais velho, para o qual todos olham como se fosse uma estrela de cinema, extasiados pelo seu carisma, sua luz, sua aparente decência.

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Certa noite, Gary Pearl visita o irmão com toda a pompa e circunstância de um lorde que vai à casa de um vassalo para fazer festa. Até traz o jantar, em serviço de catering de um restaurante caro lá do bairro, e presenteia a dona-de-casa com elogios, conquista o afeto dos sobrinhos e prepara tudo para que o irmão aceite a proposta que lhe veio fazer. Apesar de ter feito nome enquanto agente da polícia, Gary decidiu abandonar essa vida e prosperar enquanto civil, dando uso aos muitos contactos que tinha adquirido como parte da NYPD. Agora, quer fundar um serviço de consultoria com o irmão e já tem o primeiro cliente alinhado.

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A sequência em que Gary visita os Pearl é uma das melhores que Gray já realizou, evidenciando tudo o que o torna um cineasta incomparável na atualidade. Apesar de filmar em câmaras antigas e registos classicistas, com película e uma reprodução dos detalhes de época que buscam a imersão histórica, ele não faz pastiche do cinema dos anos 70 e 80. Pelo contrário, parece continuar a tradição de outrora sem se perder na nostalgia ou na mimese sem sentido. Veja-se a colisão de estilos de atuação em momentos como este, quando temos o naturalismo dos atores juvenis em comunhão com os mais velhos, perdidos na fricção de estilizações divergentes.

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Nem Adam Driver como Gary, Scarlett Johansson como Hester ou Miles Teller como Irwin nos querem convencer de que estamos a ver uma realidade sem mediação, um qualquer artefacto do cinema verité americano nos anos 80. De facto, há algo quase caricato no modo como Johansson se agarra ao sotaque pesado e trejeitos manientos desta mulher de Queens, negociando o equilíbrio entre os artifícios espalhafatosos e detalhes mais subtis. A voz de Teller nunca sai de um registo forçado, diferente do timbre natural, como se houvesse uma clara demarcação entre ator e personagem. Driver, por seu lado, apoia-se num magnetismo inato de forma sublime, dando vida às contradições de Gary sem, no entanto, descurar a essência da sua sedução.

Porque, para todos os efeitos, ele é Mefisto e Irwin é Fausto, tentado pelas promessas adocicadas do irmão e por um pagamento bruto de 10 mil dólares, às escondidas do IRS. Estas dinâmicas de poder estão patentes nas prestações dos atores, mas ainda mais presentes na mise-en-scène, sempre pronta a sublinhar o modo como Gary emana uma força quase gravitacional que atrai os demais à sua pessoa. Hester, quase sempre marginalizada no enquadramento, tudo ouve e a tudo reage, um barómetro moral, e está, paradoxalmente, destacada por essa mesma exclusão composicional. Mesmo sem diálogo, as imagens contam-nos a história de “Paper Tiger”.

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Isto é cinema na sua forma mais pura e denota um rigor que dá vontade de apelar a comparações com a Velha Hollywood ao invés dos enfants terribles que vieram depois. Em todo o caso, a transgressão de Gary, a partir da qual toda a tragédia se desenrola, parte deste ponto, quando convida Irwin a visitar um dos canais do Rio Hudson, onde se realiza um projeto de reabilitação urbana e uma empresa de imigrantes russos tomou as rédeas da situação. Não é preciso muito para deduzirmos que se trata de um trabalho da máfia. Mas só um dos irmãos Pearl percebe isso, e, emaranhado na imagem-própria que tem de si como um homem de sucesso, Gary leva o negócio para a frente sem declarar nada a Irwin, o inocente.

O problema é que Irwin decide visitar o mesmo local noutra noite e leva os meninos consigo, querendo mostrar-se importante e, quiçá, aliciá-los a seguir os passos do pai e a seguir uma carreira como engenheiros. Tudo dá para o torto. Irwin é espancado, os filhos são ameaçados com armas brancas e de fogo, seu carro roubado e vandalizado, a paz suburbana quebrada e, com ela, qualquer idílio, qualquer sentimento de segurança. A partir daí, “Paper Tiger” torna-se numa espiral descontrolada de desgraças, com o final trágico no horizonte, emergindo como uma inevitabilidade daquelas que definem o Teatro Clássico. Foi só preciso uma erro, um ato de arrogância, e a húbris provou ser a perdição dos Pearl.

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Tão monumental quanto íntimo, o grande ecrã feito ferida aberta.

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Para dizer a verdade, gostaria de passar o resto da crítica a fazer um elogio a Gray do ponto de vista formalista. O modo como ele constrói “Paper Tiger” é um milagre de sofisticação audiovisual cujo virtuosismo vai muito além da mise-en-scène de um jantar em família. Toda uma sequência de invasão domiciliária contrasta o terror abstrato de sombras e sussurros disformes com a visceralidade dos confortos de classe média usurpados, quase poluídos. E por falar em poluição, há match-cuts incríveis na montagem de Scott Morris, um poeta que rima os reflexos de uma carroçaria amolgada com as cores de derrames químicos nas águas do canal.

Ou então falemos da festa de aniversário de Scott, para onde todos os fios narrativos parecem apontar como um clímax que, na verdade, ocorre bem longe, nos canaviais, onde um homem é caçado, mas não morre sem levar uns quantos outros fulanos junto com ele para o inferno. O trabalho de som é sublime, com cenas inócuas a sobreporem-se a grandes violências e o reverso também. E, ao longo de toda essa plasticidade sonora, a música de Christopher Spelman canta um lamento daqueles à moda antiga, com orquestra completa e o fulgor de um Nino Rota renascido, quiçá um Ennio Morricone “made in USA.”

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No entanto, reduzir “Paper Tiger” ao seu primor técnico é um erro. Afinal, esta é a tentativa de James Gray realizar uma tragédia em linhas clássicas, indo buscar os ecos de Agamémnon e Menelaus, mas também de Caim e Abel e outras duplas que nos seguem, enquanto Humanidade, desde tempos ancestrais. É a junção dessa grandiosidade narrativa com algo extremamente pessoal, tão íntimo na sua vertente autobiográfica quanto “Armageddon Time.” Diria mesmo que as más línguas poderão dizer que um filme deriva em demasia do outro, uma sequela não oficializada que arrisca a repetição, senão a redundância.

Hester Pearl é o eco da mãe de Gray e partilha o mesmo triste fado. Irwin Pearl é o eco do pai que se viu envolvido em sarilhos com a lei e tanto transtornou a ideia que o filho tinha dele. E estes conflitos entre irmãos são os mesmos que definiram tanta da história familiar do cineasta, que têm ecoado pela sua obra desde “Little Odessa”. Nesse sentido, “Paper Tiger” é o culminar de um projeto artístico, o entrelaçar de ambições monumentais com as obsessões de um homem que anseia por expor as suas ansiedades no grande ecrã, a tela feita ferida aberta. E, por vezes, tudo se resume num plano final perfeito. Porque um mestre do cinema sabe o poder da imagem e como conter um épico inteiro no reflexo do pater familias que sorri de manhã sem saber que, da noite para o dia, o seu universo colapsou e o mundo de ontem já não existe.

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Paper Tiger - Negócios de Família

Conclusão:

  • “Paper Tiger – Negócios de Família” traz as tonalidades de uma tragédia grega ao cinema de James Gray, repensando uma obra que, não obstante sua dívida estilística com a Nova Hollywood dos anos 70, sempre teve fortes ligações à literatura e ao teatro. O resultado é um trabalho que se sente quase como o culminar do seu projeto artístico, mais imponente que “Armageddon Time”, mas abençoado com a mesma candura autobiográfica que fez dessa fita um título tão marcante na filmografia deste autor. Muito ajuda que Gray esteja na plenitude dos seus talentos, em estado de graça audiovisual.
  • Ele é um mestre do cinema que consegue conter um épico num único enquadramento e faz de sombras indefinidas e sussurros amorfos algo que inspira tanto terror quanto raiva, ultraje, o sentimento de que algo sacrossanto foi violado. Mas nada disso seria possível sem uma equipa que o segue há anos. Do diretor de fotografia ao compositor, praticamente todos os chefes de departamento em “Paper Tiger” são veteranos do cinema de Gray, e nota-se que têm vindo a aperfeiçoar o seu trabalho ao longo dos anos e dos muitos filmes desta colaboração.
  • Dito isso, os atores são caras novas para Gray e todos eles são sublimes – Driver e Johansson merecem especial destaque e não só porque o filme marca a primeira vez que trabalham juntos desde “Marriage Story.” Em suma, um triunfo absoluto de um dos melhores realizadores norte-americanos dos dias de hoje. Infelizmente, o júri em Cannes não lhe concedeu nenhum prémio, mas, aqui em Portugal, o LEFFEST deu-lhe a honra de abrir o festival, tendo sido a atração principal de uma cerimónia de abertura que, como sempre, contou com Paulo Branco e uma série de convidados de grande renome, incluindo membros dos júris e alguns dos cineastas homenageados em secções retrospectivas.
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