A Balada de Buster Scruggs critica

A Balada de Buster Scruggs, em análise

A Balada de Buster Scruggs” é um filme antológico dos irmãos Coen, que reúne seis contos do Velho Oeste e está agora disponível na Netflix depois de ter competido no Festival de Veneza deste ano, onde ganhou o Prémio de Melhor Argumento.

Na atualidade, não haverá cineastas mais associados com o género do western que os irmãos Coen. É por isso estranho considerar que, em toda a sua filmografia, existem muito poucos westerns propriamente ditos, histórias de cowboys do Velho Oeste americano. Filmes como “Este País Não é Para Velhos” usam a linguagem cinematográfica do género e seus temas, enquanto outras obras, como “Avé, César!”, exploram a tradição cinematográfica do western e suas permutações. Contudo, esses filmes não se incluem na definição normal do que é um western. De facto, “A Balada de Buster Scruggs” é só a segunda desventura dos irmãos pelo western tradicional, depois de “Indomável”.

O filme representa também uma série de variações dentro do contexto da sua filmografia. Por exemplo, em termos estruturais, é o filme mais comprido dos realizadores e a primeira antologia. Em termos técnicos, é sua primeira tentativa de filmar em digital para além de, é claro, representar uma colaboração inédita entre os realizadores e a Netflix. Tantas raridades o filme representa para os irmãos que se torna particularmente interessente considerar como, mais do que qualquer outra das suas obras, “A Balada de Buster Scruggs” é um filme que passa toda a sua duração a olhar para trás, tanto dentro da História do cinema como dentro da História dos irmãos Coen.

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O primeiro capítulo desta coleção de contos é uma delícia de musicalidade irónica com muito humor e homicídio.

O primeiro dos seis episódios, que nos são apresentados como contos tradicionais de um livro ilustrado, é aquele que dá nome ao filme e onde os irmãos mais demonstram o seu intuito estético e temático. Num registo de estilização risonha que deve muito aos westerns cantados dos anos 50, “A Balada de Buster Scruggs” começa com a história de um cowboy trovador, um musical alegre que de repente se transforma num banho de sangue. Buster tem tanto um dom para a música como para o homicídio e, a falar diretamente para a câmara, a sua voz parece servir de megafone com o qual os Coen tentam explicar a sua filosofia aos espectadores.

Uma filosofia que diz não ser misantrópica enquanto se desenrola em epítetos de misantropia in extremis. Aliás, a seguir a esta primeira história cheia de ironia e caras esburacadas por balas, os irmãos decidem aventurar-se pelas estéticas epicizantes do spaghetti western e aí começamos mesmo a ver quão mentiroso Buster Scruggs realmente foi nas suas asserções filosóficas. Aqui, James Franco é um criminoso condenado tanto pela justiça humana como pelo próprio destino. Depois, vem o conto de um homem sem braços e pernas que é usado como uma comodidade por um empreendedor que não tem remorsos em dar mais valor à vida de uma galinha com dons matemáticos que a um ser humano.

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Chegado o quarto conto, é normal que o espectador já esteja um pouco farto de ver protagonistas serem apresentados para somente servirem de carne para canhão chegado o fim da sua esquálida aventura folclórica. Felizmente, os irmãos Coen parecem entender a necessidade de variação tonal e oferecem, como o quarto prato deste festim narrativo, a história de um homem em metódica procura pelas riquezas do ouro escondido nas paisagens verdejantes de uma América inexplorada pelo ser humano. O diálogo é delicioso, Tom Waits é magnético no papel principal e as imagens usam o artifício plástico do digital para propor um Oeste pintado em matizes berrantes.

Acima de tudo, o final deste capítulo colorido é impiedoso, mas contém em si a sugestão de alguma esperança, como que um raio de sol que serve para destacar a escuridão que o rodeia. Tal contraste é bem necessário para a penúltima história, a única delas com uma protagonista feminina e, de longe, o mais comprido e detalhado, assim como o único que poderia ter sido facilmente tornado numa longa-metragem. Esta é a história cruelmente irónica de uma jovem que acompanha o irmão numa caravana de pessoas em busca de nova vida em terras selvagens.

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Pelo final, a melancolia fatalista domina o filme.

Ao longo da odisseia ela sofre perda, apaixona-se e dá de caras com uma das reviravoltas mais desdenhosas na oeuvre dos Coen. A prestação de Zoe Kazan muito faz para dar peso dramático e emoção a este capítulo, mas o crédito da qualidade do segmento recai sobretudo sobre os ombros de Carter Burwell cujas composições atingem aqui o seu máximo teor de romance e tragédia, assim como a fotografia de Bruno Delbonnel que aqui consegue domar as idiossincrasias do digital e pintar grandes retratos das paisagens desertas em tons de crepúsculo e alvorada.

Chegado ao capítulo final, entramos num registo que se começa a afastar do western e do conto folclórico, parecendo mais um episódio de Black Mirror se a série se passasse no século XIX e se interessasse mais por questões de moralismo espiritual do que pela pequenez da humanidade face à tentação tecnológica. Aqui o fatalismo dos Coen regressa sem ironia ou piscares de olho ao espectador risonho, encerrando toda a experiência antológica numa nota de melancolia existencialista. Os irmãos Coen podem começar tudo com números musicais e quebras da quarta parede, mas no fim é a crueldade do ser humano que prevalece e a sabedoria que a única certeza neste mundo é o abraço inescapável Morte.

Para quem já conheça bem a filmografia dos irmãos Coen, a experiência geral de “A Balada de Buster Scruggs” é uma de atraente redundância. De forma geral, os cineastas pouco fazem para explorar novas ideias ou mesmo testarem os seus limites na estrutura pouco familiar da antologia. Haverá quem aqui irá encontrar muitos prazeres, nem que seja no facto de que os irmãos reúnem aqui um dos seus melhores elencos de sempre, tão refinado e bem afinado para as tonalidades das histórias que não seria surpresa nenhuma saber que o argumento foi escrito já com os seus intérpretes escolhidos. Contudo, muitos outros vão acabar insatisfeitos, tanto com a inconsistência qualitativa entre contos como com o facto de que, não obstante a sua pretensão de rebeldia, ambição e pós-modernismo, os Coen parecem ter muito pouco a dizer sobre o western, seus códigos, suas imagens e sua mitologia.

A Balada de Buster Scruggs, em análise
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Movie title: The Ballad of Buster Scruggs

Date published: 2018-12-24

Director(s): Joel Coen, Ethan Coen

Actor(s): Tim Blake Nelson, James Franco, Liam Neeson, Harry Melling, Tom Waitts, Zoe Kazan, Brendan Gleeson, Tyne Daly, Jonjo O'Neill, Saul Rubinek, Chelcie Ross, Clancy Brown, Tom Proctor, Stephen Root, Ralph Ineson, Bill Heck, Grainger Hines Jefferson Mays

Genre: Western, Comédia, Musical, Drama, 2018, 133m

  • Cláudio Alves - 73
  • Daniel Rodrigues - 65
  • José Vieira Mendes - 80
  • Miguel Pontares - 68
  • Virgílio Jesus - 75
  • Maria João Sá - 75
73

CONCLUSÃO

“A Balada de Buster Scruggs” é uma ambiciosa experiência dos irmãos Coen que tanto mostra as mais-valias desta dupla de cineastas como os limites do seu trabalho recente. Os esforços de uma equipa criativa empenhada e de um elenco requintado tornam toda a experiência numa joia cinematográfica que é ocasionalmente enfadonha e intelectualmente redundante, mas não é por isso desprovida de considerável valor.

O MELHOR: A banda-sonora de Carter Burwell.

O PIOR: Todo o episódio de James Franco parece um esboço medíocre de um spaghetti western de segunda categoria. Além do mais, é terrivelmente enfadonho.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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