Homem-Aranha: No Universo Aranha

Homem-Aranha: No Universo-Aranha, em análise

Miles Morales é um dos muitos Homens-Aranhas em cena no mais espetacular filme alguma vez feito sobre o herói nova-iorquino com poderes de aracnídeo. “Homem-Aranha: No Universo-Aranha” é uma obra-prima do mais alto gabarito.

Num mundo saturado de filmes de super-heróis crescentemente desinspirados e esteticamente aborrecidos, “Homem-Aranha: No Universo-Aranha” é uma bomba de inovação e entretenimento puro. Este é um milagre de eletrizante inovação, uma brisa de ar fresco que nos vem recordar do tipo de deslumbramento que os filmes de super-heróis são capazes no seu melhor. Isto é cinema de entretenimento em estado de graça e merece a nossa atenção, nossa admiração e respeito tanto como uma comodidade de sucesso comercial como um verdadeiro píncaro de virtuosismo e ambição artística.

Parte do génio do filme devém da sua total devoção às loucuras narrativas típicas dos livros de quadradinhos sobre os heróis da MARVEL. Tecnicamente “Homem-Aranha: No Universo-Aranha” é a história de origem do Homem-Aranha de Miles Morales, mas a sua conceção de enredo em nada segue o mesmo tipo de fórmula aborrecida que se tende a associar à ideia de “história de origem”. De facto, a narrativa desta aventura é talvez a história de super-heróis mais tresloucadamente complicada e convoluta a alguma vez chegar ao grande ecrã.

Homem Aranha No Universo Aranha critica
Um dos melhores filmes de super-heróis já feitos!

Miles Morales é um jovem afro-americano e de ascendência latina que vive em Brooklyn. Ele recentemente ingressou numa escola de elite, ele dá-se mal com a atitude controladora de um pai polícia e gosta de passar os tempos livres a grafitar paredes abandonadas da metrópole com a ajuda do seu adorado tio. A história do filme encontra-o a ser mordido por uma peculiar aranha e subsequentemente ganhar super-poderes parecidos com aqueles exibidos pelo herói e celebridade local, o Homem-Aranha.

Uma noite, pouco depois do advento das suas habilidades, Miles vê-se acidentalmente metido no meio de uma trama criminal de Wilson Fisk, que está a tentar aceder a outras dimensões com um aparelho que poderá abrir um buraco negro em Nova Iorque. Outro efeito secundário do instável mecanismo é que, vindos de outras dimensões aparecem outras versões do célebre vigilante com características de aracnídeo. Com a ajuda desses outros Homens-Aranhas (ou Mulher-Aranha, ou Porco-Aranha, entre outros), Miles tentará salvar a realidade, fazer justiça ao legado do Homem-Aranha original, resolver as crispações emocionais que afetam a sua relação com a família e assumir-se como um herói por mérito próprio.

Pelo meio muito acontece e muitas personagens aparecem. Para além dos múltiplos heróis interdimensionais, o filme tem ainda uma rica coleção de vilões, cada um com um design mais delicioso que o outro. Além do mais, o argumento de Phil Lord e Rodney Rothman tenta também tecer uma tapeçaria de tons contrastantes como comédia autorreferencial, metatexto sobre a história das várias representações deste herói, um drama familiar absolutamente sincero, um estudo de personagem maturo e epítetos de ação e cinema de aventura que põem o divertimento do espectador à frente de qualquer tipo de consideração mais cerebral.

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Milagrosamente, esta mistura não resulta numa mixórdia incoerente, mas sim num dos trabalhos mais tonalmente flexíveis do cinema de 2018. Trata-se também de um dos projetos mais textualmente ambiciosos e sorrateiramente brilhantes. Repare-se, por exemplo, no modo como os cineastas muito dizem sobre pressões raciais e económicas na sociedade americana sem nunca assinalar esses mesmos temas. Todas essas vertentes emergem organicamente de um argumento que, no seu centro, tem um protagonista perfeito, um rapaz com dilemas universais e uma identidade social extremamente específica.

Tudo isso assinala “Homem-Aranha: No Universo-Aranha” como um dos grandes argumentos adaptados do ano e talvez como uma das melhores traduções cinematográficas da banda-desenhada. Contudo, temos de nos referir à abordagem formal do filme para entender porque razão este é provavelmente o melhor filme de super-heróis da última década. Basicamente, o filme parece uma banda-desenhada que ganhou vida. Ou melhor, parece um comic book transmutado em cinema através de uma total renovação da linguagem audiovisual desta arte.

A animação foi feita por computadores e matrizes tridimensionais, mas as texturas são todas cheias de detalhe bidimensional tirado diretamente dos livros de quadradinhos, incluindo suas falhas de impressão. A edição inclui texto escrito e fragmentação de momentos em várias caixas e até a sobreposição de eventos de dois fios narrativos distintos. Além disso, os vários Homens-Aranhas de outras dimensões representam cada um estilo de animação distinto, desde o anime aos cartoons derivados do trabalho de Tex Avery com os Looney Toons.

Perfeição cinematográfica.

Para amantes de animação, tal espetáculo é uma autêntica orgia de estilo e inventividade visual. Contudo, nem esses designs são a componente mais estrondosa deste filme. Esse mérito recai sobre a arte de animar tais desenhos, o movimento que pode ser impossivelmente fluido num instante e depois partido em poses impactantes. O clímax, onde o espaço se parece diluir e dobrar sobre si mesmo e que envolve o derradeiro renascer de Miles Morales na forma de um novo super-herói é de particular génio.

A já célebre imagem invertida de um Homem-Aranha de uniforme preto a cair para a imensidão de Manhattan, como uma alma a ascender a um reino superior, é a perfeita sumarização dos prazeres deste filme. O momento é épico e fulgurante, narrativamente representa o começo do desfecho do enredo e o fim do arco do protagonista, a imagem é de uma sofisticação técnica imensa em conjunção com uma excelente canção original e a montagem dinâmica.

Tal maravilha cinematográfica tira o fôlego, faz o coração bater mais depressa e, por momentos, consegue transcender as expetativas até do membro da audiência mais cético e ríspido. Tal perfeição é o tipo de transcendência artística e emocional que justificam todo o género de cinema de super-heróis, que nos mostram os limites da animação e nos lembram por que razão amamos a sétima arte.

Homem-Aranha: No Universo-Aranha
Homem-Aranha: No Universo Aranha

Movie title: Spider-Man: Into the Spider-Verse

Date published: 2018-12-24

Director(s): Bob Persichetti , Peter Ramsey , Rodney Rothman

Actor(s): Shameik Moore, Jake Johnson, Hailee Steinfeld, Mahershala Ali, Brian Tyree Henry, Lily Tomlin, Zoë Kravitz, John Mulaney, Kimiko Glenn, Nicolas Cage, Kathryn Hahn, Liev Schreiber, Chris Pine, Natalie Morales

Genre: Animação, Ação, Aventura, 2018, 117 min

  • Cláudio Alves - 95
  • Daniel Rodrigues - 63
  • João Fernandes - 85
  • José Vieira Mendes - 60
  • Miguel Pontares - 84
  • Virgílio Jesus - 100
  • Catarina d'Oliveira - 80
81

CONCLUSÃO

“Homem-Aranha: No Universo-Aranha” é o melhor filme de super-heróis da última década. Uma autêntica orgia de prazer visual e uma explosão de criatividade formal e narrativa, tão comovente como hilariante, este é o tipo de obra que nos indica a potencial grandeza dos filmes de super-heróis.

O MELHOR: A paixão que vibra de todo o projeto a todos os níveis. Até a banda-sonora original e a sonoplastia refletem o empenho de artistas embriagados de ambição e com o coração a vibrar de entusiasmo pela história que se propõe aqui a contar.

O PIOR: As batidas já habituais de “histórias de origem” que o filme, na sua generalidade, consegue subverter e elevar acima do cliché. Num filme quase perfeito, como este, é difícil encontrar razão de queixa.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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