8 1/2 Festa do Cinema Italiano: A Espera, mini-crítica

Em ‘A Espera’, o jovem realizador Piero Messina põe a sua Sicília natal no ecrã, colocando a bela paisagem mediterrânea, como espaço narrativo de um intenso drama sobre dor e a perda.

A Espera

O realizador Piero Messina, que trabalha como assistente de Paolo Sorrentino, conseguiu em A Espera, a sua primeira longa-metragem, negar muito bem todos e quaisquer pré-conceitos de que poderia ter herdado os maneirismo formais e temáticos do seu mestre. Pelo contrário, libertou-se muito bem dessa influência, com um belíssimo filme, que assenta numa vaga inspiração na curta peça de teatro, A Vida Que Te Dei de Luigi Pirandello, para construir um intenso drama filial, passado numa Sicília aristocrática e melancólica, que nada tem a ver com as conotações populares ou mafiosas. Pelo contrário, A Espera, cria logo um ambiente sentimental e íntimo, que nos nos faz sentir de imediato uma estranha sensação de angústia e dor. E isto tanto nos interiores da maravilhosa casa, onde se desenvolve A Espera, como na amarela secura da paisagem que a rodeia.

Vê também: A Espera | Trailer

Anne (Juliette Binoche), uma mulher aparentemente perturbada pela dor, vive não muito longe duma tradicional vila siciliana, numa bela casa de pedra com seu fiel empregado Pedro (Giorgio Colangeli). Este parece ser o único membro da ‘familia’ que esteve presente num funeral, que dá inicio A Espera. Entretanto, chega de França, para passar uns dias na bela mansão, a jovem Jeanne (Lou de Laâge), a ex-namorada de Joseph, o filho de Anna, com quem  este tinha rompido, antes das férias escolares.  Só que este estranhamente não aparece para a receber. As evasivas respostas da mãe Anne escondem uma verdade muito difícil confessar. 

A Espera

Anne desconhecia a existência de Jeanne, mas com a chegada da rapariga, a relação entre as duas mulheres de gerações distintas vai aos poucos estreitando-se e tornando cada vez mais afectuosa (que Piero Messina facilita ao nível da comunicação, dando a ambas a origem francesa), procurando a mãe proteger a jovem de uma dor difícil de gerir: a separação, seja ela qual for. Só que na realidade parece estar a vir ao de cima as necessidades de uma mãe inconsolável, pela perda de alguém muito querido. E esta dualidade funciona muito bem graças à maravilhosa interpretação de Binoche, mas também à imagem de inocência da jovem Lou De Laâge, (e dos silêncios de revolta de Giorgio Colangeli, em fundo). A expectativa de uma verdade mais ou menos evidente, torna-se numa dinâmica elaboração de um luto hipotético (luto não é apenas quando morre alguém, uma separação é sempre um luto!), por uma lado; e por outro numa tomada de consciência de uma separação de alguém que partiu. Anne tem dificuldade em ultrapassar a separação de Joseph, mas no momento que está na presença de Jeanne tem a oportunidade inesperada de se colocar na pele da rapariga adolescente, que não conhecia, aliás como a sua relação com Joseph.

Vê ainda: A cena do baile com ‘Waiting for a Miracle’, de Leonard Cohen

Dentro de todo o mistério, destaca-se um oportuno olhar de Piero Messina, para aproveitar num momento crucial do filme, os ritos ancestrais sicilianos, por exemplo da procissão da Semana Santa. Na verdade, trata-se de uma história de paixão, do ponto de vista da Mater Dolorosa. Anne, em A Espera é a figura da mãe de todas as mães, e a representação de uma injusta agonia, pela qual nunca deveria passar nenhum progenitor.

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A Espera é um bom filme, mas é sobretudo Juliette Binoche: os seus olhares, gestos, silêncios. De facto, vem ao de cima a sua enorme experiência como actriz, (na sua forma de cativar a câmera e o espectador), que acaba por dar um extraordinário realismo à sua personagem e interpretação. Binoche consegue transmitir desgosto e euforia, desconsolo e alegria nas doses necessárias e fazê-las passar para o espectador. Justiça seja feita também para o talento interpretativo da jovem Lou De Laâge. Só por elas vale a pena passar pela ansiedade e angústia que A Espera causa no espectador. Atenção igualmente à bela e bem cuidada banda sonora que cria um ambiente de melancolia, que inclui temas do próprio Piero Messina, Alma Napolitano, Marco Mangari, Arvo Pärt e ainda num grande momento de alegria do filme, o famoso ‘Waiting for a Miracle’, de Leonard Cohen. A Espera foi exibido em antestreia na 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, mas vai estrear em breve no circuito comercial em Portugal.

O MELHOR – Binoche, Binoche, e Lou De Laâge…valem o filme inteiro.

O PIOR – Nada, apenas a sensação de angústia com que se sai do filme.

 


 

Título Original: L’attesa
Realizador:  Piero Messina
Elenco: Juliette Binoche, Lou De Laâge, Giorgio Colangeli
Alambique | Drama | 2015 | 1oo min

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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