DocLisboa ’16 | A German Life, em análise

Em A German Life, uma entrevista à antiga secretária de Joseph Goebbles, o ministro da propaganda Nazi, pinta um calcinante retrato da banalidade do mal.

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Brunhilde Pomsel é uma mulher alemã, nascida em 1911 que, durante o apogeu do regime nazi, chegou a trabalhar para o Departamento de Propaganda. Mais especificamente, ela foi secretária de Joseph Goebbels, um trabalho que manteve até à invasão de Berlim pelas forças Aliadas, altura em que o seu patrão se suicidou juntamente com a sua família e outras grandes figuras do poder Nacional Socialista. Pomsel foi então apanhada pelas tropas soviéticas e assim ficou presa durante cinco anos, antes de ser libertada e de conseguir restabelecer a sua vida na Alemanha, onde voltou a trabalhar como dactilógrafa e viveu uma vida de relativo conforto e estabilidade. Hoje em dia com 105 anos, ela é um artefacto vivo de um dos mais negros períodos na história humana e sendo ela uma figura próxima de uma das mais infames figuras do Reich, é fácil perceber a razão pela qual nos encontramos agora perante um filme focado na sua pessoa, A German Life.

Quando esta obra em forma de longa entrevista se inicia, os quatro cineastas que assinaram o projeto começam por nos apresentar à face de Brunhilde num registo de grande plano quase abstrato. A câmara aproxima-se das suas rugas, e filma a sua tez como se esta fosse uma monumental paisagem rochosa esculpida pelas águas do tempo. À sua volta apenas há inescrutável escuridão e todo o registo, apesar de ser feito em HD, é esvaziado de cor. Assim, descontextualizada do espaço pela escuridão e do tempo pelo uso do preto-e-branco, Brunhilde Pomsen é uma conflagração de ideias e individualismo latente. Ela é um símbolo perfeito para uma Alemanha que deixou o Partido Nazi chegar ao poder e que foi cúmplice das atrocidades do Holocausto, mas por outro, ela é uma pessoa singular, quase insignificante que, pelas usas próprias palavras não sabia de nada do que se estava realmente a passar na altura.

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Pelo que toca à entrevistada, pelo menos, o seu discurso é completamente focado na experiência individual que ela viveu nos tempos de guerra e o período que se antecedeu a isso. Ela fala-nos da sua infância e educação ao ríspido estilo prussiano, onde era exigida máxima obediência e onde qualquer insinuação de desagrado ou revolta eram prontamente punidas. Relata-nos como se iniciou a sua vida profissional e como ela se acabou por inscrever no Partido nazi simplesmente porque um homem para quem ela trabalhava como dactilógrafa lhe prometeu um trabalho na companhia nacional de Rádio e como isso acabou por e resultar na sua eventual relação profissional e proximidade de Goebbles. É fulcral apontar que não estamos perante um ato de autorreflexão e martirização por crimes passados, mas sim de um franco recontar de factos vistos de um ponto de vista pessoal e talvez um tanto ou quanto defensivo.

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Nas suas divagações contadas com a elegância de uma narradora nata, Brunhilde reflete sim sobre a inação da coletividade do povo alemão e de como isso é hoje em dia visto e analisado. Aos seus compatriotas que dizem que estavam ignorantes dos factos e que, se soubessem, teriam feito algo para ajudar os judeus, Brunhilde acusa de se estarem a iludir a si mesmos. Ela pode caracterizar-se a si mesma, no passado, como uma mulher egoísta e superficial que estupidamente não se interessava por política desde que isso não lhe prejudicasse diretamente o dia-a-dia, mas também está sempre a sublinhar a sua ignorância e falta de culpa.

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Apesar dessas palavras da entrevistada, há algo de sagaz e quase subversivo na montagem de A German Life, onde mais de 30 horas de entrevista são editadas até termos pouco mais de hora e meia. Nessa teia de discursos colados e cortados, os cineastas construíram uma subtil relação de ideias e contradições no discurso de Brunhilde, não a desrespeitando ou contrariando, mas mostrando com delicadeza o modo como também ela se poderá estar a iludir. Ela não sabia os horrores que se avizinhavam mas sabia o suficiente para nunca mencionar nada do partido ao simpático comerciante judeu para quem chegou a trabalhar nos anos 30. Sabia o suficiente para temer pela segurança de Eva, uma amiga judia que fazia parte do seu círculo social, especialmente quando começou a haver realojamentos generalizados das populações judaicas. Ela admite que sabia que existiam campos de concentração, mas imaginava que as pessoas eram forçadas a ir para lá para serem reeducadas, não para a chacina. Algo é certo, Brunhilde e a população germânica sabiam o suficiente para fazerem perguntas que nunca fizeram e, mesmo quando ela testemunhou, aterrorizada, um discurso público e enraivecido de Goebbles, a sua conformidade ignorante nunca cedeu perante a possibilidade de indignação moral.

E é aqui que convém falarmos do conceito chave por detrás de A German Life, uma ideia que nunca é verbalizada diretamente no filme, mas subentendida e delineada tanto pela montagem da entrevista como pelo uso de imagens de arquivo e citações. Falamos, pois claro, dessa infame ideia de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal. Este documentário não se trata tanto de uma final acusação à monstruosidade de Brunhilde ou do povo alemão, mas sim de um aviso lancinante. Simpatizamos e vamos entendendo a perspetiva desta mulher ao mesmo tempo que somos constantemente lembrados dos horrores que ela silenciosamente apoiou, mesmo que deles nada soubesse. Escolher a inação, a obediência cega e a ignorância deliberada não deixam de ser caminhos para o Mal, apesar de não haver qualquer ação direta em evidência. Isso é perfeitamente explícito numa das mais poderosas revelações do filme. A certa altura, Brunhilde teve nas mãos o ficheiro do caso de Sophie Scholl, mas, obedecendo às ordens dos seus superiores, ela nunca o abriu apesar de estar curiosa, mantendo-se assim na falsa santidade da ignorância e desculpabilização.

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Desprovido de música ou qualquer distração que atenue a sua impiedosa intensidade, A German Life é um filme que, mesmo assim, contém algumas notas de surpreendente humor. Um humor profundamente negro que brota da hipocrisia latente à ideologia nazi e seus esforços propagandistas. Como já dissemos antes, ao longo do filme, a entrevista de Brunhilde é entrecortada com filmagens de arquivo, tanto doa aliados como dos nazis, criando-se assim um diálogo entre a memória e o documento histórico. As citações de Goebbles são muitas vezes reveladoras de uma imensa falsidade na sua apresentação pública, enquanto os filmes de propaganda oscilam entre a pontuação irónica e a revelação dos males por detrás das mais inócuas expressões. Por exemplo, quando Brunhilde fala da tacanhez e repressão germânica face à homossexualidade, vemos um filme de propaganda onde é impossível negar o conteúdo homoerótico nas imagens de jovens esbeltos a banharem-se em conjunto como deuses gregos.

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A German Life é um filme difícil e importante, especialmente quando olhamos à nossa volta e vemos como a Europa se está cada vez mais a virar para a extrema direita no rescaldo de uma crise económica e perante o caos humanitário dos refugiados e a guerra com o Daesh, ao mesmo tempo que, nos EUA, temos um candidato de um dos principais partidos que chegou a este patamar através de uma campanha apoiada na plataforma do ódio e do preconceito. Com tudo isto em consideração, no final de A German Life, uma questão horripilante reverbera-nos na cabeça. O que teríamos feito no lugar de Brunhilde? Teríamos sacrificado a nossa segurança por ideais morais ou ter-nos-íamos refugiado na protetora membrana da ignorância e do silêncio conformista? Talvez todos fossemos como Brunhilde, calados e obedientes, de tal modo que, apenas meio século depois nos interrogaríamos sobre o destino dos judeus e outras vítimas do regime, como Eva que morreu em Auschwitz em 1945.

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O MELHOR: O modo como, subtilmente, o filme estabelece um aguçado diálogo com a sua audiência e transcende os limites da especificidade histórica. A German Life acaba por se revelar como um acutilante retrato de quão banal e corriqueira pode ser a monstruosa aceitação do Mal e seu apoio silencioso. Tal como Brunhilde diz, Deus não existe, mas o Diabo sim. E está em todos nós.

O PIOR: É verdade que, a um certo ponto, é necessário que a audiência seja confrontada com as imagens dos ghettos e dos campos de concentração cheios de cadáveres e o próprio filme apresenta uma justificação, lembrando que temos de ver isto e de saber o que se passou para que tal não se volte a repetir. Contudo, a repetição destas imagens como pontuação a algumas das passagens mais moralmente dúbias da entrevista tem o efeito de reduzir estas mortes a um simples elemento de choque que parece tão eticamente mau como a ausência das imagens seria.


 

Título Original: Ein Deutsches Leben
Realizador:  Christian Krönes, Florian Weigensamer, Roland Schrotthofer, Olaf S. Müller

DocLisboa | Documentário, Biografia | 2016 | 113 min

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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